08 abril 2007

Estes iletrados que nos governam




Os grandes heróis políticos são, quase sempre, homens incultos que se fizeram respeitar pelo bastão. Alguns, sem nunca terem largado o chicote e a espada, quiseram que a posteridade os fizesse sentar ao lado de Platão, Aristóteles e outros caminhantes do espírito. O poder, esse grande afrodisíado, também tem o condão de comprar servos, edificar mitos e fazer perdurar mentiras que todos reverenciamos. O homem público, tão envolvido que está pelas solicitações menores e em permanente luta pela manutenção do que conquistou, não é, não pode ser, um homem de cultura; vive obcecado pelo dia de hoje, pela agenda e pelo transitório que sabe terminará abruptamente logo que a sua estrela se apague. Reis houve que eram homens de cultura, pois a sorte do nascimento, aliada a qualidades inatas, quis que num homem residissem o poder e a inteligência. Com o ocaso das monarquias, tornou-se claro que essa junção acidental entre poder e inteligência jamais se voltaria a verificar, ou, pelo menos, na ordem das probabilidades que haviam permitido uma Cristina da Suécia, um Frederico II da Prússia ou um D. Luís de Portugal.


O mundo moderno, ao invés de abrir portas à ascensão dos homens superiores, desterrou-os e tornou-os mesmo odiosos aos olhos de quem se impôs pelas artes verbais da mentira, do engano e da demagogia. O mundo moderno detesta o recolhimento e a meditação, pois estabelece-se sobre o atrevimento da opinião, que é, por natureza, o oposto da concentração do espírito. Os homens da política, por mais títulos académicos e obra que consigam reunir, são homens de acção e sedução, pelo que o estudo, o tempo longo do penoso amadurecimento, a dúvida e o recomeço lhes são de todo vedados. Se assim é, por que razão se continua a produzir torrencial bibliografia gabando inexistentes méritos a homens que já não oferecem as esmolas aos escrevinhadores que venderam as suas penas e talento para engrandecer tiranos e criaturas medíocres ? Ainda hoje, continuam-se a escrever centos de livros sobre Napoleão, imputando-lhe a paternidade do Código, peça angular do Direito contemporâneo. Gaba-se-lhe a inteligência como estratega mas, mais, a sua paixão pelas artes, pela música, pelas belas letras e pela ciência. O poder compra o presente, mas investe no futuro, fazendo fé na natural tendência dos homens em acreditar que tudo o que se lhes diz, sobretudo quando esculpido, pintado, versificado ou gravado na tinta negra das rotativas, é fiável.


A mentira biográfica não é intencional. Vai-se reproduzindo de pena em pena, de obra em obra, de autor para autor até se realizar a imaculada síntese entre a inverdade e a necessidade de informação. Talvez eu transporte uma centelha de loucura, se é verdade, como dizem os psiquiatras, que as casas para alienados estão cheias de admiradores de Napoleão. Dele li as mais diversas biografias: de Jacques Bainville, de Madelin, de Tarlé, de Lucas-Dubreton, Holland Rose e desse fantástico retratista que foi Emil Ludwig. Infelizmente, sempre deixei de parte as obras do memorialismo daqueles que com ele privaram. Li as hagiologias, não li os relatos dos criados. Há cerca de dois anos comprei as Memórias de Chaptal, insigne cientista que também foi ministro do Interior do déspota usurpador dos reis de França. Fiquei siderado. Tudo o que soubera do homem Napoleão era pura propaganda e o tirano rira-se de mim durante anos.




Foi com esta abracadabrante descoberta que passei a duvidar, em absoluto, do mito do homem de cultura e pensamento que algumas figuras da nossa vida política - lembro-me, à cabeça, de um venerando Pai da Pátria, ainda vivo - quiseram reproduzir à escala portuguesa. Se Mitterrand, um vulgar facínora, foi um émulo dessa tradição napoleónica, ainda se compreende. Agora, ver no venerando Pai da Pátria uma reedição de Napoleão, é coisa para verdadeiros e empedernidos crentes.

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