27 abril 2007

Colossos

Parece ter vindo de encomenda. O governo acabara de lançar um espelho de príncipes como guia para esses ladrões da função pública - sim, esses safados impreparados, madraços e corruptíveis, como argumenta a governança - e, pela noite, anunciou-se mais um escândalo de lesa-Estado envolvendo o primus inter pares dos autarcas portugueses. Os funcionários públicos são perigosos: aceitam alcavalas de 20 Euros, deixam-se corromper por uma caixa de Ferrero Rocher e alguns até cometem o inaudito crime de acelerar processos de licenciamento para umas piramidais obras na marquise do 5º D de uma qualquer urbanização nos arrabaldes de Setúbal. Os políticos não cometem crimes. Os políticos, vigilantes da urbs, infatigáveis servidores da coisa pública, escravos da lei, aqueles que jamais apagam as lucernas dos scriptoria, são colunas de virtude. Ontem à tarde senti, ao ler o Espelho do bom funcionário, que alguém me cuspia na cara. Trabalhara nove horas, com uma pausa de vinte minutos para um almoço miserável, tinha as costas coladas à cadeira e umas olheiras até ao chão.
Hoje, sinto-me justiçado. Não há sistemas políticos potencialmente mais venais que aqueles onde não existe liberdade, nem fiscalização, nem separação de poderes, nem indiferenciação legal entre governantes e governados. Não, com execepção de um: a democracia à portuguesa ! Se isto fosse um país civilizado, a tais paladinos das virtudes apanhados como ladrões em esconsos sótãos seria dada a apção de se atirarem da Tarpeia ou passarem o resto da vida nas galés. Mas não, a lei e a justiça só se aplicam à plebe: a nós. Os colossos são invulneráveis à lei comum.

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