07 abril 2007

Anonimato e triunfo da blogosfera


Li com a maior atenção um oportuno post debitado pelo amigo Corta-Fitas a propósito de um texto saído na edição de hoje de O Público. A blogosfera está em expansão, abrindo brechas na até ontem venerada imprensa de papel. Ainda há dois ou três anos, os jornais eram uma fonte de informação, um oráculo certificador e um contra-poder. Até que chegaram os blogues. Onde se julgava residir a plenitude da opinião que se respeita, a notícia veraz, a informação limpa, a pluralidade possível, desvelou-se a prostituição, o mercenarismo, a auto-censura, a manipulação e a desinformação. Desde esse momento terrível em que muitos se sentiram perante um imenso logro, os tigres de papel entraram em lenta como patética desagregação. Foi como se nos viessem demonstrar que, afinal, o deus a que prestávamos homenagem não passava de um ídolo sem préstimo.


A blogosfera veio demonstrar que a inteligência, a formação e a superioridade sobrelevam a publicidade, o cartel, o clube e o favor. As penas que a blogosfera nacional revelou esmagam knockout aquele jornalismo pequenino, estipendiado, amedrontado e vassalo que inundava as páginas dos grandes, médios e pequenos jornais que cobrem as bancas: é gratuito, é frontal, é estereoscópico e antecipa-se aos cozinhados das redacções. A prová-lo, o facto de muitos bons jornalistas desenvolverem actividade na blogosfera, sem censura e sem o nihil obstat de chefias venais e analfabetas que submetem a informação oficial à ditadura do Papagei Wissenschaft.


É evidente que a blogosfera revelou o melhor, mas trouxe, também, do pior: a canalhice, o rebotalho, a provocação medíocre, o odiozinho reles, a difamação, a porcaria e toda a sorte de doentes neuróticos e seres imundos que nela vazam traumas, recalcamentos e fúrias. Mas, como em tudo, o que é mau acaba por desaparecer. Cotejo meia centena de blogues que se apresentavam nús e imundos e sorrio quando constato que sobrevivem dois ou três, com um público ridiculamente pequeno, sem eco e sem interesse. Aqui funciona tudo como no mercado: o lixo acaba por ser repelido, as marcas certificadas passam a cânone de qualidade.


A última barreira a vencer é o anonimato. Compreendo que muitos queiram manter o recato e evitem a exposição, porquanto vivemos numa terra que se especializou como nenhuma outra nas artes das inquisições, das policias políticas e das vinganças servidas a frio. Num meio medíocre e invejoso como o português, boas cabeças há que no anonimato se sentem libertas, brincalhonas e até menos expostas à certificação científica. Não é necessário lembrá-las para fazer tese desta impressão. Contudo, esses anónimos são Senhores Anónimos, como o são Senhores no exercício das actividades profissionais a que se dedicam com autoridade e reconhecimento público. Não falo desses anónimos, mas dos "outros". É precisamente por isso que não abro Combustões a comentários dos valentes do teclado. Se um dia se nos impuserem o registo obrigatório da titularidade de um blogue, continuarei a dizer e escrever o que sempre escrevi. Lamento que os grandes anónimos tenham de fazer a escolha; gargalharei perante a escolha certa dos "outros". Aos primeiros, abrirei as portas, permitindo-lhes a publicação dos seus textos, que assinarei por baixo. Aos outros, farei o que sempre fiz: desprezo absoluto.

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