10 abril 2007

Ainda La Lys


Alguns confrades revoltaram-se pelo tom, que estimaram arrogante e desdenhoso, de um texto aqui depositado ontem a propósito da efeméride do dia. La Lys não foi uma batalha, foi um massacre. Disse-o e repito-o, pois não obstante o martirológio - que o houve - não dignificou em nada o prestígio de Portugal no conflito. A nossa participação na Grande Guerra foi um desastre - desastre humano, desastre económico, desastre logístico e militar - e só não foi diplomático porque permitiu fazer sentar em Versalhes um representante do governo português, muito embora tivessemos sido relegados para uma posição secundária, ao lado da China, do Sião, da Grécia, Cuba, Nicarágua, Costa Rica, Equador e Guatemala. O desastre militar foi-o na Europa como em África. O nosso exército ficou em tiras, não alcançou uma só vitória, pelo que, no conjunto, essa guerra é para esquecer. Para além de Ludendorff (vide Meine Kriegserinnerungen 1914-1918, Berlin : Mittler, 1941), que nos fez reparos de sincera simpatia, não há qualquer elogio nas memórias deixadas pelos comandantes Aliados (Joffre, Foch, Nivelle, Haig, Jellicoe). Consultando a propaganda de guerra, os centos de cartazes exibindo as bandeiras dos Aliados, a nossa surge de quando em vez, menos que as do Montenegro e da Grécia.


O que ficou dessa participação foram as memórias e correspondência de importantes homens das letras e das artes, que pintaram aquilo que gostariam ter sido uma participação gloriosa, mas que o não foi. Quando há anos, na Biblioteca Nacional de Paris, procedi à consulta de documentação respeitante à presença de forças portuguesas em França, chamou-me a atenção o facto de não haver nas centenas de títulos, jornais e revistas da época, qualquer menção a Portugal e o CEP (Corpo Expedicionário Português). Na abundante iconografia disponível, os "serranos" pouco aparecem. Até a matança de 9 e 10 de Abril (La Lys e Lacouture) não despertou grande comoção na imprensa, dado enquadrar-se no conjunto de uma vasta ofensiva alemã que empurrou dezenas de divisões aliadas para uma retirada que só terminaria nos arrabaldes de Paris. Por cá, os jornais, submetidos à censura de guerra, demoraram dias a preparar a opinião pública. Com o estrondo das intermináveis listagens, nasceram lendas compensatórias, uma delas a do Soldado Milhões, porventura dos poucos que dispararam naquele dia. As baixas alemãs, habitualmente elevadas em arremetidas contra trincheiras, foram insignificantes. Ora, tais assaltos eram desferidos por Sturmtruppen, unidades de choque com alta preparação e habituadas a baixas muito significativas. Em La Lys, os assaltantes só encontraram uma paisagem lunar, mortos, estropiados e muitos, muitos prisioneiros ainda traumatizados pela preparação de artilharia. A nossa [artilharia] nem respondeu.


Ao contrário do que diz o nosso caro Jansenista, a outra grande guerra europeia em que nos vimos envolvidos - as Guerras Napoleónicas - não deslustrou o prestígio português, antes pelo contrário. A atestá-lo, a observação de Wellington quando, em Londres, se soube do regresso de Napoleão a França, fugido de Elba. O grande comandante britânico, cujas vitórias na Península se deveram aos 80.000 soldados portugueses sob o seu comando (Wellington dispunha apenas de 20.000 militares britânicos nessa campanha) afirmou: "tragam-me os portugueses para a grande batalha com Napoleão". Só não estivemos em Waterloo por impossibilidade de fazer chegar a Portugal uma frota que transportasse um exército de primeira categoria, enquadrado, é certo, por oficiais britânicos, mas uma força admirada pelos sempre parcos em elogios britânicos e franceses. Custa-me contradizer o mito. O mito faz parte do nosso amor-próprio. O mito da Grande Guerra serviu para libertar o Exército da vergonha mas, sobretudo, para dar à república uma justificação que a salvasse aos olhos dos portugueses, pois pela obra interna há muito estava desacreditada.


Não deixa de ser curioso o facto de, em 1918, para o desfile da vitória celebrado em Londres, os britânicos terem ao lado do rei Jorge V, não o embaixador português, mas D. Manuel II. Os britânicos, exímios nas artes da diplomacia, mandavam um recado educado a Portugal: se a V. participação foi uma lástima, tal deveu-se ao regime que V. governa. Se a ninguém é lícito duvidar do sofrimento dos nossos soldados - como não o será para os italianos na 2ª Guerra Mundial - a questão deve ser colocada noutros termos: eram os governos português e italiano responsáveis pela sorte a que destinaram os seus jovens ?
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