23 abril 2007

Ah, estes "intelectuais"


Não há raça mais inclinada à dramatização e à justificação que a dos intelectuais: quando premiados, adulados e incensados, julgam que nada devem agradecer; quando preteridos, vitimizam-se. A história está cheia de intelectuais que serviram os maiores facínoras, como está cheia de ingratos que, após se terem servido dos ditadores, contra eles se viraram logo que os ventos da desgraça se abateram. O Estado Novo, ao contrário do que conta a lenda negra, apaparicou os intelectuais, facultando-lhes meios e status como jamais a inteligentzia detivera em Portugal. Quando sobreveio o 25 de Abril, muitos dos medalhados e publicados a expensas do SPN/SNI inventaram biografias de resistência ao regime, omitindo pudicamente o apoio e amizade que haviam recebido de António Ferro. Lia ontem Prémios Literários (1934-1947), de António Ferro, uma colectânea de discursos do fundador do SNI e verdadeiro cenógrafo do Estado Novo, quando deparei com um apêndice elencando "obras e autores premiados". Li-o distraído até que os meus olhos pousaram sobre o premiado na secção Prémio Anselmo de Andrade, ensaio de doutrina política ou económica de 1945. Ali estava José Sebastião da Silva Dias, que a lenda diz ter sido afastado de funções pelo "regime" em 1946. Não deixa de ser estranho que um premiado em 1945 tivesse sido expulso da função pública em 1946, tanto mais que, anos volvidos, em 1949, ocupasse relevantes funções como Inspector da Polícias Judiciária, e logo depois entrasse em Coimbra como regente da cadeira de História da Cultura.


Folheio mais duas páginas e novamente a maldita atenção detem-se em José Bruno Carreiro, autor, quiçá, da maior biografia de Antero do Quental, justamente lembrado há tempos por um ilustre confrade. Bruno Carreiro, ao contrário do que diz o preclaro Livre e Humano, não foi minimizado: recebeu o Prémio Ramalho Ortigão em 1948, directamente das mãos de António Ferro. Salta outro nome: o de Maria Archer, que beata biografia quase transforma numa Mademoiselle X da resistência. Archer só se antagonizou com o regime quando o seu protector e amigo Henrique Galvão caiu em desgraça. Em 1938, aceitou, ufana, o Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho. Logo, seguindo-se-lhes, vêm Hein Semke, Maria Keil e outros notórios resistentes. Moral da história: também quero ser resistente. Quero o próximo Camões para comprar um apartamento em Chiang Mai e sair em glória.

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