01 março 2007

Torna e vince


Pouco há a dizer a respeito do tema do dia. Paulo Portas vai regressar e vai vencer. Chegou, finalmente, o termo do exílio. Esperou com paciência e grande discrição que Sócrates atingisse total hegemonia sobre o conjunto das oposições ananizadas. Esperou com fibra budista o tempo necessário até que se tornasse evidente a incapacidade das actuais direcções do PSD e do CDS-PP em desenvolverem qualquer iniciativa conducente a uma alternativa de governo. Portas não é um homem da política-emprego, pois detém outros méritos que lhe permitem manter visibilidade e operatividade longe da máquina partidária.
Estou certo que, desta vez, o conservadorismo cinzentão, o medinho do convencionalismo centrão, o turvismo meias-palavras da "direita siciológica" já não lhe poderão recusar aquilo a que tem direito. Que volte, ponha a casa na ordem e ocupe o lugar de um PSD que não representa nem doutrina nem acção. Espero, porém, que Portas, à luz da evolução das ideias e da profunda informação que possui, saiba que o caminho da ascensão e refundação do CDS passe pela adopção de um discurso anti-sistémico que apresente ao país uma radical alternativa ao intervencionismo, ao socialismo de subsidiação - capitalismo de madeixas socialistas - e ao "modelo social europeu", do mesmo modo que compreenda que importa apagar todos reflexos de direita dessas inclinações socializantes que dão pelo nome de democracia-cristã, proteccionismo económico e exaltação da plebe.
A sociedade portuguesa, entre a ambição dos plutocratas dos improdutivos conglomerados da banca e o reaccionarismo dos ventre-ao-sol do sindicalismo, necessita urgentemente de uma política de promoção dos equites, empresários com capacidade de risco, homens de iniciativa que não dependam da caridade, da complacência ou da fiscalização do Estado-polícia. É necessário que o país rural morra para que nasça o país agrícola; é necessário que o país sub-urbano, aculturado e encanalhado, desapareça para que surja uma sociedade livre, exigente e cidadã. Mais, Portas deveria apresentar soluções alternativas para o clamoroso fracasso do regime e do sistema de representação. Deveria ter a coragem para aceitar o veredicto nacional sobre a forma de governo (república/monarquia) e avançar para posições que permitam, sem complexos, na compreensão da tradição do país, reconhecer que o parlamentarismo, a descentralização e a fragmentação do poder tornaram o Estado mais despesista, mais irresponsável, mais corruptível e menos eficaz. Portas deveria, nesta circunstância, advogar uma nova Constituição. Tudo está em aberto. Veremos como fará uso desta nova ascensão ao estrelato político.

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