14 março 2007

Tigrezas germânicas


A nossa Bomba blogosférica, que tem excelente gosto, pois até venera a minha deusa do celulóide, chama a atenção para um mito (e uma fobia) muito franceses: o mito da agressividade alemã e a fobia dessa grande cultura - literária, filosófica, historiográfica, musical - que é a cultura alemã. Tenho para mim - cá estou eu com as minhas generalizações - que os italianos têm a bela música, os britânicos a bela objectividade, os franceses o belo rocaille, os holandeses o belo pincel, mas que cultura-cultura, profunda, torturada, sem artifício e sem afectação é a alemã. Sabe a Charlotte que naquela língua nada existe por acaso. No pensamento alemão, tudo o que se manifesta está lá por necessidade absoluta da inteligência. Se essa inteligência teve perversões - diria, acessos de demência, nestes incluindo à cabeça o nazismo, essa sub-religião dos pobres de espírito, bem como o marxismo, essa doença nervosa de invejosos e recalcados - nunca deixou de me espantar pela capacidade de aspirar à totalidade daquilo que é alcançável (o saber enciclopédico) e daquilo que o não é (a metafísica). Tudo o que de mal se disse e redisse a respeito dos alemães tem selo e assinatura franceses. A França, descobri-o ao longo dos anos de estadia na Alemanha e França, tem um complexo profundo face aos alemães, que repetidas vezes os esmagaram militarmente, que produziram génios na mais fina das filhas do espírito (a música) e que os destronaram nos domínios das ciências exactas, das ciências aplicadas e até nas ciências ditas sociais. O ódio a tudo o que é alemão é uma estupidez rematada. Nunca conheci, com excepção dos japoneses, povo tão curioso e tão desprendido das "suas coisas culturais" como os alemães. Ao contrário dos franceses, que só se observam, os alemães possuem uma visão dilatada e estereoscópica, sabem apreciar e valorizar as diferenças e são, no que toca a amor-próprio, bastante humildes. Tenho, cara Charlotte, uma admiração enorme pelas Alemanhas.

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