14 março 2007

A propósito de Iwo Jima: uma justificada crítica

Legenda da foto: Defense worker N. Nickolson writes to her sweetheart thanking him for his letter and "souvenir." This skull of a Japanese soldier bears the inscription: "Here is a good Jap -- a dead one!"(in Life Magazin, 1943)




"Permita-me recordar-lhe os frutos do nacionalismo Nipónico: os massacres de populações civis e os assassinatos de prisioneiros de guerra aliados. Uma simples pesquisa no Google dar-lhe há algumas luzes. Há descrições cuja brutalidade é revoltante. Não me acredito que o Miguel não as conheça, nem me acredito nas suas palavras quando nos diz que seria neutral. Não me acredito.
Compreendo que o Miguel – tal como eu – goste da “estética” shinto, do zen, do bushido (deturpado durante o período de paz que se seguiu a Guerra Civil dos Séc XVI e XVII por um lírico que nunca viu ou provou uma batalha sangrenta.) Dizem que há dois Bushidos: o da guerra, bastante prático e realista e o da paz, trágico, sangrento e assassino. E foi este último que moldou o espírito dos nacionalistas japoneses com resultados trágicos para todos. É. Não me acredito nas suas palavras. Até hoje a sua excelente prosa revela uma humanidade vigorosa, sempre em combate contra a barbárie. Viu o Miguel um filme que apela aos seus valores. Certo. Eu também gostei, mas não limpa os crimes japoneses. É por isso. Em todo caso: “ Nichi nichi noko-koro!”
Parabéns pelo seu excelente blogue e pela esperança que nos dá com as suas palavras. E nem pense em desistir!
Respeitosamente,
Pedro Flores Marcos"





Agradeço a Pedro Flores Marcos a oportunidade para aclarar um aspecto que presumi pouco oportuno para o texto que ontem aqui deixei a propósito das Cartas de Iwo Jima. Sim, como muito bem lembra Pedro Marcos, os japoneses portaram-se miseravelmente no que toca aos civis chineses, à minoria chinesa na Malaya, aos timorenses, aos prisioneiros de guerra anglo-americanos, aos colonos franceses da Indochina, aos holandeses das Índias Orientais e aos civis britânicos em Hong Kong e Singapura. A brutalidade, o racismo e a total ausência de decência humana deixaram marcas que ainda hoje perduram no extremo-oriente e sudeste-asiático, constituindo uma prioridade da política externa japonesa limpar esses incómodos vestígios da "Esfera de Coprosperidade-da Ásia Oriental". Recomendo uma visão portuguesa desses tempos tormentosos na leitura [obrigatória] dos Relatórios de Vasco Martins Mogado, Cônsul-Geral de Portugal em Cantão, editados pelo Professor Vasconcelos Saldanha.



Porém, lembro que os norte-americanos se portaram de forma verdadeiramente selvagem na guerra que moveram aos japoneses. Sabe-se hoje que o espírito suicida dos nipónicos era mais motivado pelo medo aterrador das sevícias e brutalidade da soldadagem americana que por qualquer suposta impregnação do bushido nas camadas mais humildes do exército japonês. A verdade é que os norte americanos não faziam prisioneiros, abatiam-nos; os norte americanos não recolhiam náufragos, faziam-lhes tiro-ao-alvo; não respeitavam pilotos em para-quedas, chacinavam-nos; não poupavam navios-hospitais nem embarcações de pesca. Os norte-americanos moveram ao Japão uma guerra racial, permitindo que os soldados enviassem para as suas famílias relíquias macabras que nem os nazis - para além desse mundo infecto que eram os campos de concentração - se atreveriam tolerar sob pena de reacções populares: orelhas, escalpes e crânios japoneses.

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