19 março 2007

Penas bíblicas


A prezada Bomba Inteligente que me perdoe a omissão da resposta à sua última réplica, mas estive com o episteme congelado ao longo do fim-de-semana, deliciando-me com leituras imperialistas a que ontem aludi. Fiquei siderado ante a sua convicção no direito à aplicação da justiça à descendência de criminosos, pois, que saiba, a Carla Quevedo não fará suas a tradição germânica do wergelt nem a do olho-por-olho semita, muito menos a inculpação colectiva a que os ciganos dão largas nos ajustes de contas entre clãs e parentelas. Percebendo o que quer dizer, pois tal remete para a esfera da culpabilidade colectiva por via da cultura, penso, sinceramente, que da assunção dos erros se constrói a redenção. Os alemães fizeram-no e neles não há hoje o mais pequeno vislumbre de hipocrisia. Contudo, lamento que outros não o façam, pois o genocídio perpetrado pelos nazis não foi nem o primeiro, nem o mais extenso nem o último dos genocídios praticados. E como julgo abusivos, patéticos e mesmo contraproducentes pedidos de deculpas por actos e factos ocorridos há séculos - chega de pedirmos desculpas a todos - julgo que, no que concerne ao extermínio dos judeus, se fez o que se impunha: condenar os criminosos, enforcá-los ou aplicar-lhes pesadas penas de cárcere, indemnizar os sobreviventes, restituir-lhes os bens saqueados e danar a ideologia que propiciara tal monstruoso crime.

Mas o que fazer com o genocídio dos Arménios, às maõs dos turcos ? O que fazer com os Tasmanes, exterminados pelos britânicos ? O que fazer com os guanches, erradicados pelos castelhanos ? O que fazer com os Khazares, aniquilados pelos mongóis ? O que fazer com os aborígenes da Austrália, dizimados até deles subsistirem apenas 50.000 em meados do século XX ? O que fazer com os Fueginos da Argentina, mortos a tiro, à paulada e pelo tifo pelos colonos ? O que fazer com os peles-vermelhas da América do Norte ? Com os Aino do Japão ? Com os hotentotes, praticamente desaparecidos pela caçada que os povos Banto lhes moveram ?

A imagem que escolho é intencionalmente chocante. Estamos habituados a literatices, a fórmulas postiças e arranjos retóricos, mas as pessoas que ali estão existiram, tiveram profissão, família, casa, empregos, afectos, objectos e rotinas. Pensavam, como todos pensamos, que há coisas que ninguém nos pode retirar, que há um limite de decência a que todos têm direito, que por maiores tragédias que se cruzem no nosso caminho não vamos terminar ali, numa vala imunda, naquela promiscuidade de corpos em decomposição. Ao olhá-los, apavora-me a falta de humanidade, decência e dignidade de quem os matou. Mas quem o fez não foram apenas os nazis. Gente assim, morreu aos milhões desde sempre, pelo que cabe à antropologia filosófica e não ao jornalismo, ao ideologismo estreito e ao pronto-a-pensar dos supermercados das ideias light abordar tais matérias.

A reflexão sobre o homem é, por excelência, a questão mais profunda da Filosofia, da cultura e da política. Falo do homem entendido como essência e não como somatório de características humanas. É desta reflexão que deve sair uma cultura que o coloque como fim e não como instrumento; é desta meta-antropologia - que coloca o homem essencial como manifestação do absoluto (Schiler) - que deve sair o ordenamento político, jurídico, ético e moral que torne impossível qualquer genocídio. Ora, não estimo inteligente circunscrever a ideia de genocídio àquilo que se passou num momento histórico, sob pena de o voltarmos a reviver sem ousarmos pronunciar-lhe o nome, confiscado a um crime limitado historicamente.

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