30 março 2007

Pacheco Pereira e os mirins


Se há pessoas na casa dos 60 pelas quais sinto, mais que respeito, verdadeira admiração, essas dão pelos nomes de António Barreto, Vasco Pulido Valente e José Pacheco Pereira. No pântano de homenzinhos e criaturinhas em que se transformou a vida pública, a simples menção de qualquer um deles liberta-nos da ideia da inexorabilidade da queda. São, os três, homens de obra firmada, senhores de grande erudição e capacidade de trabalho, sem tiques de auto-segregação e, como tal, merecedores do tributo do nosso agradecimento. São AB, VPV e José Pacheco Pereira educadores e formadores de vastos públicos que ainda não se renderam à fatalidade do embotamento, do não-pensar e da publicity, esse primarismo de comunicação que trouxe para a ribalta as flores do mal das democracias descerebradas: o populismo, a demagogia, o sloguismo e o ordinário emocionalismo.



Se a propósito de Odete Santos alguma irritabilidade assomou a tribuna que Pacheco Pereira assina com dever quase religioso na blogosfera, isso ficar-se-á a dever a um conflito geracional entre os homens de 60 anos e os homens de trinta e muitos, quarenta anos, que agora abrem novos sendeiros no nobre ofício da análise crítica da vida política portuguesa. Pacheco Pereira foi, perdoe-se-me a franqueza, paternalista, incorrendo involuntariamente naquela atitude sobranceira que entre nós tem basta tradição. Portugal é uma típica gerontocracia, pelo que aqui o lugar dado aos mais jovens é, invariavelmente, o de bagageiros, turiferários e moços de fretes. O culto pelas cãs veneráveis tem sido responsável pela imobilidade e pela destruição dos novos talentos, obscurecidos, repudiados ou amestrados ao ponto de perderem a mais pequena molécula de originalidade. É por esta e por outras que somos governados por homens de quarenta com uma visão do mundo de homens de oitenta; é por esta e por outras que os problemas de incomunicabilidade com o mundo contemporâneo lá de fora nos vão reduzindo a um extremo curiosidade antropológica. Senti-o bem quando Pacheco Pereira se confrontou com Mário Soares no célebre debate televisivo que antecedeu as últimas eleições presidenciais. Pacheco Pereira calou-se, li-lhe no olhar piedade por Soares, o que só abona a respeito das qualidades humanas e de cavalheirismo de Pacheco Pereira, mas foi, também - importa dizer - a repetição daquele respeitinho que noutros tempos se manifestava pelos "venerandos" pais da pátria.



Quanto às elegantes palavras que achou por bem dirigir a Odete Santos, ficam-lhe bem mas julgo-as excessivas, porquanto Odete Santos - que não é uma mentecapta, bem pelo contrário - tem dado repetidas provas públicas de grosseria, chocarreirismo e fanatismo, qualidades absolutamente negativas que não compaginam com a urbanidade, a serenidade e elevação com que Pacheco Pereira apõe a tudo o que faz. Os "mirins" estão aí e deviam ser estimados, mimados e apoiados por um regime que atingiu o grau zero da qualidade, no que aos seus servidores respeita. Afastar os "mirins" do regime é, creia-me Pacheco Pereira, o dobre de finados da 3ª República.

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