04 março 2007

O grande jogo



Não creio que a generalidade dos chamados analistas políticos tenha compreendido a radicalidade do plano que Paulo Portas carreia nesta reaparição que tantos pruridos tem provocado, sobretudo no Bloco Qualquer-Coisa (que se habituara a fruir do privilégio da oposição solitária), mas também entre um certo centro apático, acéfalo e a-ideológico adestrado nas artes do comentário televisivo dominical do Professor Marcello.




Julgo não estar a ousar em demasia ao insinuar que Paulo Portas defende o fim, a extinção, a desaparição do CDS. Sim, quere-o com o mesmo entusiasmo que Pedro Santana Lopes quererá o fim, o apagamento e as exéquias desse enorme lugar vazio que dá pelo nome de PSD. No fundo, os dois partidos são consequência do Pacto MFA-Partidos, organizações datadas sobreviventes ao PREC, de um tempo em que era preciso pedir autorização a Melo Antunes, a Costa Gomes ou a Kalinine para que alguma expressão de pluralidade pudesse mostrar ao mundo que em Portugal não se vivia a repetição do processo de instalação de mais uma democracia popular.




O PPD e o CDS sobreviveram, buscando ao longo dos últimos 30 anos as vestimentas que os tornassem queridos e votados por um amplo eleitorado não socialista que sempre se opôs - digamos a verdade - ao espírito da Constituição de 76. O eleitorado do CDS nunca foi centrista, assim como o eleitorado do PSD nunca foi social-democrático. Para agravar a dissimulação e a esquizofrenia, os líderes do CDS e do PSD nunca foram, importa referi-lo, particularmente eloquentes na fixação de um limes ideológico - nem tão pouco programático - que legitimasse fronteiras naturais e espaço para qualquer das duas formações. Ambos os partidos passaram por fases, ao sabor dos gostos e sentido de oportunidade dos seus sucessivos líderes. O CDS foi "rigorosamente ao centro" com Freitas do Amaral, liberal com Lucas Pires, democrata-cristão com Adriano Moreira, conservador e nacionalista com Manuel Monteiro,conservador-liberal com Portas. Por seu turno, o PSD foi social-oportunista com Sá Carneiro, liberalão com Balsemão, liberal com Cavaco e liberal-conservador com Santana Lopes.




Não, entre nós, nada há que se assemelhe a um RPR ou uma UDF franceses, um Partido Conservador ou um Partido Liberal à britânica, uma CDU ou uma CSU à alemã. O CDS e o PSD são, apenas, "partidos populares" ao estilo do pós-guerra, organizações onde lá se está por mero clubismo ou interesse particular daqueles que ainda têm paciência para a esterilidade da actividade partidária, cada vez mais pobre e mais degradante no que toca ao respeito devido a quem faz da política uma actividade. Se perguntarem a um filiado ou a um dirigente do CDS e do PSD que valores são pertença exclusiva de um e outro, não saberão responder. Não saberão responder porque, de facto, nada os pode separar.




Tenho para mim que o grande jogo que Portas agora desencadeou envolve, in extremis, a junção do CDS por ele reconquistado com o PSD de novo dirigido por Santana Lopes. Este grande partido, limpo de toda a adesivagem profissional dos pequenos burocratas e das nulas vaidades seria, afinal, o Partido Conservador ou a União Democrática, pois que a titularidade da Nova Democracia repousa em outras mãos. Portas e Santana poriam fim ao longo e doloroso imbroglio em que a direita investiu ao longo de décadas. É uma jogada arriscada, mas necessária para que se defina de uma vez por todas a europeização da vida política portuguesa.

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