09 março 2007

"Não se trata uma senhora por você, mas por senhora"


Nada me move contra a Dr.ª Maria Cavaco Silva. Aliás, até a defendo sempre que no tom e sorriso irónico dos seus críticos - habitualmente esquerdistas de boas famílias - pressinto a mácula daquele preconceitozinho social com que as "senhoras" antigamente falavam de uma "rapariga" que entretanto havia ascendido socialmente. Tenho, decididamente, alguma reserva por aqueles que colocam a riqueza de nascimento e a pedatura acima das qualidades humanas - inteligência, dedicação e esforço, vontade de vencer - pelo não tolero desconsiderações cuja natureza ninguém pode alterar.




Ao contrário do que imaginam as boas mentes, ninguém pode reverter os dados da família, da cor da pele, da religião e da cultura do meio em que nasceu. Simultaneamente, neste mundo tudo parece moldável: do tamanho dos seios à adiposidade da cintura, do nariz abatatado à pilosidade, da calvície à miopia, da voz à barbela, há por aí milhares de cirurgiões-Pigmaleões à espera das senhoras e cavalheiros cheios de problemas de relacionamento com os espelhos. Contudo, a personalidade e o jogo em que esta participa está lá, mais ou menos burilado: acumulação de estratos geracionais, memória do tempo longo de uma cultura familiar e e social que não se muda de uma década para outra. São atitudes, gestos, motivações de cunho regional que antecedem e acompanham os indivíduos.




De há três décadas a esta parte passou a vulgarizar-se entre nós a ideia segundo a qual há "uma primeira dama". Esta moda, tirada de empréstimo dos EUA, tem dado mau resultado. O chefe de Estado republicano, eleito por sufrágio directo, não contempla qualquer acompanhante, seja feminino ou masculino, pelo que a "primeira dama" não cabe, decididamente, na hierarquia do Estado. Fazer da esposa do Chefe de Estado uma figura pública, atribuindo-lhe responsabilidades - ou cumulando-a até de cargos, como aconteceu com Maria Barroso - constituiu um atropelo que pode chegar ao favor. Para não ser mais explícito, julgo que não se pode fazer de uma simples cidadã aquilo que só as rainhas o são por formação, tradição e expectativa. Tudo o mais são cópias, e más ! Abro o site da Presidência da República e dou com uma secção que me surpreende: "escreva a Maria Cavaco Silva". Por que raio tenho eu de escrever à esposa do Chefe de Estado ? Se tenho um problema merecedor da atenção do Chefe de Estado, escrevo ao Chefe de Estado. Ou haverá uma secção nos sítios dos ministérios dos Negócios Estrangeiros, Cultura, Educação ou Administração Interna destinado aos cônjuges dos titulares ? Em suma, a D.ª República a brincar às monarquias.

Sem comentários: