27 março 2007

Ministério da Identidade Nacional


Zás, Sarkozy propusera um ministério incumbido de aprofundar o amor-próprio dos franceses em tempos de multi-culturalismos desvairados e logo todos os sacerdotes do pensar envergonhado e do terceiro-mundismo europeu se levantaram em coro de denúncias. Agora, até Madame Royal esbraceja para ser mais nacionalista que Le Pen, numa escalada de umbiguismo nacionalitário que atira para dimensões liliputianas os textos de Maurice Barrès, Maurras e Edouard Drumont. O orgulho nacional tem estas coisas: ou parece não existir, ou comanda o calendário político. Tudo isto vem demonstrar que, afinal, as pátrias existem, que o muticulturalismo não passa de uma moda, que não há vida comunitária, nem Cidade, nem essa vontade de viver em comum se não houver um forte arrimo de consciência colectiva, orgulho no passado e vaidade na diferença que faz dos franceses os Franceses, dos espanhóis os Espanhóis e dos portugueses os Portugueses.



Nós, que ainda vivemos imersos nos miasmas da lenda negra de um Vasco da Gama "fascista", de um Albuquerque "imperialista" e de um Infante "esclavagista" - sim, aprendi isso no liceu, a par de pérolas literárias de Samora Machel e Agostinho Neto - só temos licença para exaltar Portugal quando limitado à barbaridade moderna do desporto rei. No imediato pós-comunismo, Alain Minc publicou um texto, hoje profético, intitulado La Vengeance des Nations (1). Minc afirmara que as nações, mesmo colonizadas, lobotomizadas e alienadas pelo sistema de ensino, exiladas do discurso político, caricaturadas e parodiadas, subsistem através da sensibilidade comum, da língua, dos mitos colectivos e dos pequenos actos, gestos e atitudes do quotidiano, não havendo governo, império ou cultura oficial que as possa apagar por decreto.



A soberania popular, a democracia e a liberdade só podem subsistir enquanto persistir a noção de bem-comum - bem comum de um povo, de uma sociedade e de uma cultura precisas - pelo que o patriotismo, ao invés de constituir um elemento de conflitualidade, aprofunda o sentido de integração e o civismo. Os britânicos compreenderam-no. Agora, para obter a nacionalidade, é requerida proficiência na língua, conhecimento da História e informação média sobre literatura de expressão inglesa. Os franceses - que até já quiseram fazer crer aos senegaleses que eram descendentes de Vercingétorix, antes de lhes terem querido fazer crer que a raíz de todos os males da África eram os europeus - seguir-lhes-ão as pisadas. Tenho para mim que o retorno do patriotismo, fenómeno que se desencadeou nos EUA em 2001, se não é a chave para a transposição para a crise de identidade e legitimidade das democracias contemporâneas, é uma trave sem a qual todo o sistema deixa de funcionar.

(1) MINC, Alain. La Vengeance des nations / Alain Minc. - Paris : B. Grasset, 1990

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