21 março 2007

Instituições Portuguesas (VIII): o barraquismo


Pensei não haver mais matéria para uma série de postais que aqui em tempos dediquei a coisas que são exclusivas dos portugueses - 1 , 2 , 3 , 4 , 5 , 6, 7 - mas ontem lembrei-me de outra instituição que dá pelo nome da barraquismo. Como os ciganos, os portugueses pelam-se por barracas, barracos, barraquinhas, tendinhas e outras construções efémeras. É o único país europeu - com exclusão dos balcânicos, que não o são - em que vigora esta singular tendência mourisca para acantonar pessoas, géneros e objectos em casinhotos de duvidosa resistência. A coisa é tão antiga como a Real Barraca da Ajuda, mas ganhou especial relevância urbana desde os anos 60 e 70, quando meia Lisboa passou a viver em barracas, umas de zinco e madeira, outras, mais recentes, saídas do engenho da EPUL, com seis ou sete andares, onde centos de barraqueiros-velhos se juntam com barraqueiros-novos em violenta tensão.


Mesmo que tenha um cortiço de cimento em Benfica, na Cruz de Pau, St.º António dos Cavaleiros, Caselas ou na Quinta das Murtas, o lisboeta tem um sonho: voltar à barraca. Daí que proliferem parques de campismo onde famílias extensas, de novo regressadas às maravilhas do convivialismo pé-sobre-a-cara-do-vizinho por ali fiquem, no verão como no inverno, dispensando o calor aconchegante da casa, a inutilidade da água quente e da banheira, a dispensável sanita, o guarda-roupa e outros excessos de conforto. Nesses parques reinam os decibéis das tv's desencontradas, as intermináveis discussões (aos berros, como gosta o bom povo) sobre o estado do tempo, o futebol, as doenças e outras maravilhas. Ali, o povo sente-se nas sete quintas da ruralidade, do gregarismo protector e do viver-em-cima, com permanente devassa do parceiro, ausência absoluta de intimidade e com mil e uma oportunidades para cheirar o panelão da dona de tenda anexa, trocar iguarias e tintos.



Não, ao contrário do que se possa pensar, o português não gosta da natureza. Esse medo - da floresta, das flores e dos animais - herdou-o dos monoteísmos mediterrânicos que aqui assentaram ao longo dos últimos milénios. Para o português, a verdura serve para comer, os bichos para divertimentos sangrentos, o ar livre para o estendal, o churrasco ou a sardinhada. Aqui, um cão serve para caçar, um gato para ser apedrejado, um pássaro para ser alvo dos bacamartes, uma flor para ser arrancada e colocada numa tumba. Como rurais, a natureza lembra-lhes tudo o que querem esquecer, pelo que só encontro explicação para o barraquismo nessa vertigem irresistível para a anarquia, a confusão e a turbamulta. Urbanismo, urbanismo, sempre houve pouco e imposto. Mal vem um governo fraco, um marcelismo, um guterrismo qualquer, pois lá regressa em força a pulsão barraqueira. Está-nos no sangue.

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