25 março 2007

Europa sem Europa


A Europa dita da União apresenta-se-nos como uma soberba moldura inscrevendo a ausência de uma tela, uma bela encadernação sem miolo, um rico serviço de mesa sem refeição, uma partitura sem músicos. É uma construção nascida de genuínas boas-vontades, mas falta-lhe a razão integradora e o sentimento unificador. A Europa, tal como nos foi servida, duplica a visão que os burocratas, os homens dos dossiers e os tecno-juristas têm do real: esquemático, funcional como uma maquineta, previsível e sujeito a intervenções correctivas. É a síntese do pior Iluminismo, do mais pobre voluntarismo, da engenharia e da especialização, secções menores do positivismo. De fora ficaram aquelas realidades rebeldes que são, no fundo, os agentes determinantes da especificidade europeia: etnicidade, nacionalidade, cristianidade e humildade filosófica, mãe da aventura da especulação.



De uma série de lições dadas em Tubinga e Munique, entre 1947 e 1949, Romano Guardini produziu um texto que chegou ao português com o título O Fim da Idade Moderna. Nele, riscava com convincente verismo as sucessivas Weltanschauung prevalecentes no Ocidente da Antiguidade, na dita Idade Média e na Idade Moderna. Se para os Antigos os limites do mundo eram o limite do homem - não havendo um ponto fixo exterior, ao ponto da ideia de perfeição suprema não se afastar do Universo, um além no interior do todo último (Platão), ou um motor primeiro que anima o Universo, mas em estreita unidade causal com essa ordem (Aristóteles) - para os medievais, o ponto fixo exterior punha o mundo na essência e na realidade a partir do nada. Quanto à Filosofia Moderna, partiu das manifestações sensoriais da natureza para uma fenomenologia gnoseológica que se propunha ordenar e intervir na natureza (natura naturanda) , domesticada pela razão (natura naturanda) e instrumentalizada para servir a humanidade .



Da Antiguidade nasceu, pois, uma ideia de Homem (por antonomásia civilizado), sujeito de deveres e direitos na República, igual entre iguais. Da Idade Média, a ideia que o bom governo e a representação da sociedade política não mais seriam que a reprodução do plano divino, e da Idade Moderna o entendimento da política como servidora da realização e felicidade do homem.

Ao limitar a política a um conjunto de práticas tidas por simpáticas, mas às quais falta o entendimento do que é o bem comum europeu - cada vez mais reclamado por velhos regionalismos e pela cultura dos Estados-nação soberanistas ciosos de interesses de fronteira e prestígio - a Europa Unida transforma-se em adereço retórico sem substância. Ao negar a essencialidade matricial do cristianismo - somos cristãos pela cultura, quer o queiramos quer não - a Europa transforma-se numa vaga expressão cumulativa de experiências históricas desencontradas, até mesmo antagónicas, sem outro vínculo unitário que o dos dados históricos. Ao negar a herança de uma comunidade de saber - e da arrumação dos saberes - não pode a Europa reclamar a autenticidade de tudo o que a cultura, a sociedade e as ciências aqui produziram ao longo de séculos. Logo, uma Europa sem Constituição, uma Europa sem valores e uma Europa sem tradição intelectual em nada se pode distinguir de quaisquer outros projectos a surgir.



Falar de União Europeia sem a invocação destes três pilares, ou omitindo qualquer um deles, é negar a Europa.

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