13 março 2007

A espada e o crisântemo













Ken Watanabe enche o ecrã vestindo a pele do general Kuribayashi. Uma força respeitável, um poder afável e cavalheiresco, uma determinação serena inculcada pelo dever e pelo serviço da pátria. Em Cartas de Iwo Jima desaparece, de vez, a propaganda racista, a caricatura e o difamante estereótipo do nipão sangrento e desalmado. A elite nipónica - sim, num tempo em que os cavaleiros ainda persistiam em não abandonar o palco da história - debatendo-se contra a maquinização e industrialização da guerra, desesperadamente consciente do fim de uma certa ideia de ética de sacrifício, hoje morta.


O filme é um requiem. A Ásia que remanescera à ocidentalização - e que desta aprendera apenas os segredos que a levariam ao desastre - morreu ali nas praias vulcânicas e nos montes escalvados de Iwo Jima. Sobreviveu o pobre rapaz do povo, humilde padeiro cuja alma se dilacerava entre as pequenas grandes coisas - a filha recém-nascida, a sua padaria, a sua casa em papel - e as grandes causas que merecem o sacrifício derradeiro: a pátria exausta e quase derrotada, as crianças que vão ser bombardeadas e calcinadas pelo fósforo das bombas ou pelo demónio atómico. Iwo Jima exprime o desespero de homens concretos na impossibilidade de manterem um posto avançado no meio do Oceano, necessário ao inimigo como pista de aviação para a destruição final do Japão.
Um filme comovedor que não é um filme de guerra, ao estilo de Sam Peckinpah. Ao sair do cinema, dei comigo a fazer contas aos meus afectos e à razão. Se no quadro da Segunda Guerra Mundial a minha razão tende para o Ocidente, o meu afecto está com o Japão. Apaziguando as minhas dúvidas, pensei: naquele conflito que matou o velho Ocidente, estaria ao lado dos Aliados no Ocidente (com exclusão dos soviéticos, ainda piores que os nazis), e neutral no conflito asiático.

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