12 março 2007

Carta para o faraó



Entrei no gabinete do secretariado. Secretárias meninas e menos meninas: as meninas, morenas, as menos meninas, louras. Fazendo jus àquele comentário de Salazar a Garnier, segundo o qual há um mistério com as portuguesas, que são todas morenas em novas e todas louras a partir dos 40, lá estavam, impávidas, quase arrogantes, respondendo entre dentes sem se dignarem levantar os olhos a tão insignificante criatura.



Falei, com védica candura, tratando-as pelo Sr.ª D.ª Qualquer-Coisa a que obriga a nossa etiqueta, com deferência mansa. Uma respondia por monossílabos, a outra olhava para um papel garatujado e fazia contracções nas comissuras, com aquele ar de importância que torna os portugueses quase hostis aos estranhos. Ali estive em pé dez minutos na gélida chafarica atapetada. Esperava e desesperava que as meninas novas e velhas me dessem uma molécula da sua divina atenção. Até que uma menina, por acaso a mais loura (i.e. a mais velha) me arrancou os documentos da mão. Arranhou-os apressadamente, à procura da inevitável falta que me obrigasse a lá voltar uma, duas, dez vezes.



De súbito parou, deteve-se, viu a assinatura de uma carta anexa, olhou para mim com uns olhos arregalados de espanto e disse, com voz alterada e aterrada: "mas esta carta é de [.....] e destina-se ao Senhor Presidente". Anuí silencioso. Foi um corropio. Uma cadeira, quer um café ? O chefe das meninas novas e morenas - também chefe das meninas louras e velhas - apareceu e sentou-se para ler a missiva. Ao pousar a vista pela carta, levantou-se quase em sentido. Aquela carta era para o Faraó. É assim que se porta a nossa gente. Aqui não há igualdade de tratamento para ninguém. Só merece atenção quem for portador de uma carta para o Faraó !

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