07 março 2007

Atlântico: a consolidação de uma excelente revista de ideias

Mais um número da Atlântico, exorcizando o velho demónio português da efemeridade das publicações periódicas destinadas a públicos mais exigentes. Passando os olhos pelas referências catalográficas obrigatórias para a história do periodismo nacional (Jornais e Revistas Portugueses do Séc. XIX, de Gina Rafael e Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX, de Daniel Pires), conclui-se não haver, entre nós, a tradição dos títulos de leitura obrigatória para uma, duas ou três gerações, tal como acontece em França, no Reino Unido ou na Alemanha.
Aqui, as iniciativas carregadas de boas-intenções morrem quase ao nascer. Um número tonitroante, dois números compostos e, depois, o cansaço, a falta de colaborações, a míngua de leitores, as lutas internas, a separação zangada e promessas da "novos projectos". Que me lembre, só a Águia (da Renascença Portuguesa), a Seara Nova (democrático-socialista), a Vértice (comunista), a Nação Portuguesa (integralista) e, mais recentemente, a Futuro Presente conseguiram a proeza de manter visibilidade, com maior ou menor assiduidade, na vida cultural e política portuguesa ao longo de mais de um década.
As "direitas" batem recordes na longa lista de títulos sepultos. Para tal fracasso não terá sido estranha a permanência de um regime que detinha o monopólio da actividade política, isentando (e muitas vezes impedindo) as direitas de pensar. Em vez de ler, reflectir, renovar e comparar, a direita adormeceu. Salvo uma ou duas exepções - aqui destaco a Tempo Presente - a direita portuguesa perdeu voz, auto-censurou-se e dedicou-se mais aos tombos e aos códices que à defesa das suas ideias. Em 1974, já a totalidade do periodismo de ideias servia os diferentes matizes das oposições, dos chamados "católicos progressistas" (O Tempo e o Modo) aos títulos da extrema-esquerda. Foi necessário que desabasse o perigo comunista para que as direitas abandonassem o catecismo anti-comunista, limitado ao jornalismo de combate (O Diabo, a Rua, O Dia) e tolerasse o inevitável desafio de um patamar superior. Esperou-se e, finalmente, surgiu a Atlântico. Os números já saídos auspiciam o melhor. Esperemos que, desta vez, tenhamos um título para longos anos.

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