13 março 2007

As boas causas




Só muito tarde na minha vida aprendi a evitar os "idealistas", aqueles que se escravizam a uma abstracção, consagram-lhe toda a energia e por ela se dizem capazes da imolação. O que caracteriza essa gente é um total desprezo pelos outros, uma absoluta especialização onde não cabe a dúvida, o contraditório, a acareação e a comparação. São os "idealistas" os analfabetos da alteridade, os cegos da certeza, os surdos da dúvida e os paralíticos da ética. No fundo, os que se entregam a uma causa com apego religioso, fanatizados e cercados por muralhas de certeza, são cobardes apaziguados pelo conforto de algo que pensa por eles, funciona acima e antes deles. Como fracos de espírito - ou doentes da razão imóvel - raramente conseguem impor-se aos outros pela sedução do discurso. Optam, amiúde, pelo culto da força bruta, da violência purificadora ou pela fuga para o nada experimentado, que tanto pode ser o mito como a Utopia.




Há maluquinhos destes um pouco por todo o lado. Hoje coube-me um leninista ao almoço. A criatura vive num universo onde tudo surge, aparentemente, em relação com tudo, um verdadeiro relógio de corda. Se no correr da conversa se menciona um romance, uma pintura, uma viagem, uma sinfonia ou uma cançoneta, zás, lá vêm as relações de produção, as contradições, as alienações, a exploração do homem pelo homem, os peitos tísicos dos deserdados, os banquetes dos ricos, a fome dos pobres, o regime da propriedade, as "lutas" e as "resistências". Como monomaníacos, revelam-se de uma espantosa erudição. Passaram anos a percorrer as capelinhas, coleccionando todas as pagelinhas, amuletos e talismãs e, como os mau-mau dos Kikuyu, sentem-se invulneráveis às balas. Dá dó ver a que ponto seres dotados se deixam esvaziar e anular pela crença. Saí dali com uma imensa pena do homenzinho. O que seria ele capaz de me fazer se um dia tivesse oportunidade de me impor os seus delírios.


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