18 março 2007

As batalhas do jovem Churchill


De Winston Churchill disseram os seus inimigos o pior: que era um viciado no jogo, um negociante de direitos autorais, um bebedor inveterado, homem de uma violência apostrofadora quase primitiva. Mas não lhe podem negar três ou quatro grandes qualidades que se sobrepuseram aos adversários que defrontou e venceu: uma vontade de ferro, ausência absoluta de medo, uma inteligência que nunca se deixou submeter à irracionalidade e, last but not least, um extraordinário dom para a escrita literária.


Publicado pela Fronteira do Caos Editores, acaba de chegar às livrarias o River War: reconquista do Sudão, a primeira obra de Winston Churchill, um relato prodigioso da guerra que a Grã-Bretanha imperial moveu a um místico que em Ondurman (Sudão) se proclamara o Mahdi do Islão. Na origem da explosão milenarista dos derviches estivera a inflexão ocidentalizadora do Egipto, iniciada em meados do século pelo albanês Muhammad Ali Pasha, vice-rei nominal da Sublime Porta, mas, de facto, soberano do país. As reformas continuaram sob o seu sobrinho Isma'il Pasha, resultando num crescente endividamento externo à Grã-Bretanha e França, que se foram assenhoreando da região.
A primeira fase da revolta terminou com um banho de sangue entre os egípcios e os oficiais britânicos que enquadravam o exército enviado pelo Cairo para debelar a rebelião. Essa guerra remota, impiedosa e sem quartel comoveu uma geração de oficiais britânicos, pelo que deixou um sulco profundo na imaginação popular. Quam nunca viu Quatro Penas Brancas, filme dos irmãos Korda, inspirado na novela homónima de A.E.W. Mason ? Ora, Churchill, que lutou sob as ordens de Lord Kirchner na pacificação do Sudão, deixou desse choque de civiizações um relato cuja actualidade não passa despercebida. Não se tratou de mais uma guerra imperialista, das muitas que as grandes potências travam em regiões inóspitas da sua vasta fronteira. Churchill compreendeu-o. Aquela brutal luta era diferente, como diferente é a que hoje se trava no Afeganistão e no Iraque entre o Ocidente - vá, concedo, incluindo negócios e domínio de recursos naturais - e os maluquinhos da guerra santa.


Perante a força do fanatismo e as trevas da superstição, o Ocidente reuniu a sua sofisticada tecnologia. Perante a inaudita coragem dos guerreiros jihadistas, o Ocidente opôs a eficácia da sua organização, método e disciplina guerreira. Perante o número, o Ocidente contrapôs o profissionalismo. Churchill voltou a encontrar o mesmo cenário na África do Sul, quando destacado para a guerra anglo-boer (1900). Ali, frente aos calvinistas cujo presidente, invocando a Bíblia, recusava até a esfericidade da Terra, Churchill assistiu ao triunfo da modernidade sobre um mundo rural, patriarcal e religioso que se debatia pela sobrevivência. Hoje, essas guerras pelo Império, reproduzem, quase sem novidade, os fastos de finais de Oitocentos.

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