29 março 2007

Aos pés de Salazar, de Soares e do futuro regime

Um especial agradecimento aos caros João Paulo Monteiro, Rui Santos, Luís Manuel Rangel, João Pedro Ribeiro, Jorge Ferreira, Adriana Nogueira e Corcunda pelas amáveis palavras de apoio aqui recebidas a propósito das infelizes ameaças a que ontem aludi.

A gentuça que decretou a miserável fatwa contra a minha pessoa ainda não inculcou quatro aspectos, que estimo evidentes nesta tribuna:

1) Quem aqui escreve não é escravo de ideologia alguma, não pertence nem jamais pertencerá a qualquer grupo, organização, movimento, seita e curibeca que contrarie os valores sobre os quais repousa a superioridade cultural, intelectual e moral do Ocidente em questões como o respeito pela liberdade de opinião, respeito pela diferença, aceitação do contraditório e defesa intransigente dos direitos de reunião e associação, mesmo até a expressão de ideias, valores e convicções que não compaginem, em absoluto, com a pluralidade, democracia e aquelas conquistas individuais e colectivas que fizeram do Ocidente o paradigma [possível] do direito à felicidade;

2) Aqui não se propalam e propagandeiam mensagens de ódio, nem acusações ad hominem, nem não se aceita a conversa de café e a gíria do taxista, mas também não merecem acolhimento o falso pensar postiço da mitologia do "politicamente correcto" - seja de direita ou de esquerda - o elogio imerecido ao não-pensar, o ideologismo estreito, o fanatismo com atavios de liberdade e tudo o que reduz, infantiliza e cerceie a aventura da palavra, o risco do juízo e a responsabilidade da crítica;
3) Quem aqui escreve não pretende fazer política, esconder-se por detrás de slogans, angariar prosélitos para o que quer que seja, mudar o mundo, trepar pelos jornais e tv's, impor-se a quem distribui ordenados e tenças, ganhar a simpatia dos outros. Escrevo por necessidade, seja ou não lido, pouco me importa. Se o anonimato se pode compreender - este país é verdadeiramente perigoso para quem se arrisca pensar em voz alta - optei pela exposição do nome. Aprendi, ao longo dos anos, que o país é o que é, os portugueses são o que são. Conheci verdadeiros bandidos na minha área de sensibilidade política (sou de direita e monárquico), mas, verdade seja dita, não conheci melhor à esquerda. O problema português é profundo, quase geológico, pelo que disto não sairemos enquanto as pessoas não se libertarem de vez dos velhos fantasmas que nos reduziram a esta pátria cinzenta, crapulosa, pobre e supersticiosa que encheu a barriga das inquisições, das polícias políticas, das maçonarias e dos santarrões da mediocridade, das águas turvas e do oportunismo.

4) O gozo tremendo que me proporcionou a vitória de Salazar no passado domingo cinge-se a isto: os portugueses passaram anos submetidos a Salazar, vitoriaram-no e endeusaram-no. Não havia, ao contrário do que conta a fábula, cão e gato que não estivesse integrado, acomodado e resignado a um regime que não "matou famílias inteiras" e até dava tratamento de preferência aos filhos de "boas famílias", anestesiando a oposição com barganhas de vária índole. O "resistencialismo" - não, não era aquele do maquis de boina basca e bornal, vivendo de acampamento em acampamento, errando por serras e penedias - mas o dos meninos filhos da alta burguesia, de preferência com as árvores de costados num anel brasonado, em perigosíssimas manifestações que terminavam, invariavelmente, em jantar em casa dos pais e uma leve advertência do inspector da PIDE ao pai senhor doutor: "veja lá se o seu miúdo não se mete mais em problemas". Este país serve tudo e todos. É o país em que todos estão casados com todos, todos são primos de todos, todos se encontram em baptizados e funerais, todos arranjam empregos a todos. Os mesmos que estiveram com Salazar, naquelas enchentes no Terreiro do Paço, estiveram no 1º de Maio de 74, distribuindo-se hoje pelo PC, pelo PS, pelo PSD e pelo CDS. Nada disto me espanta. Não me espanto, mas sinto náuseas. Sei que, um dia, os vou ver a todos vitoriar o futuro regime e arrastar pela lama Soares, Cavacos e outros aos pés dos quais se prostraram à espera de uma esmola.Aos pés de outros se prostrarão, com toda a certeza. Coisas portuguesas !

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