15 março 2007

Alemanha espartana ou ateniense ?

De novo Charlotte, que aqui timidamente parece evocar a grandeza que Madame de Staël lobrigou na Alemanha, aborda uma questão importante: são os alemães um povo tão maníaco pela organização e pela disciplina ao ponto de sacrificar a moral e a decência à obtenção de objectivos políticos ? Julgo, sinceramente, que não.


A história alemã moderna está cheia de calamidades e violência. Esta não é apanágio exclusivo de Hitler e do seu nefasto regime, o qual empurrou a Europa para a colonização cultural norte-americana ou para a escravização à barbárie comunista. A Alemanha do Segundo Império também cometeu coisas abomináveis em África, anunciando com décadas de antecedência a estúpida violência institucional e o ódio ao humano que fizeram do III Reich um monumento ao fracasso político, geopolítico e cultural. Lembro que a Gesellschaft für Deutsche Kolonisation - Companhia para a Colonização Alemã - fundada com o propósito de dar aos alemães um império colonial em finais do século XIX, foi inexcedível na aplicação da brutalidade como instrumento de imposição da pax germanica aos os negros do Tanganyka (Tanzânia). Lembro, também, que no Sudoeste-Africano (Namíbia), von Trotta cometeu verdadeiro genocídio entre os Herero.



Porém, importa lembrá-lo, o animador da colonização do Tanganyka, Karl Peters, foi publicamente desautorizado e senteciado pelo governo alemão depois de conhecidos os métodos inqualificáveis de intimidação e escravatura que envolviam a actividade da sua companhia. A criatura seria reabilitada post-mortem por Hitler. Os nacional-socialistas nele viam um parente ideológico avant la lettre, querendo fazer esquecer que Peter havia sido um verdadeiro predador sexual de mulheres africanas, uma das quais mandou matar por motivos passionais. Quanto a Lothar von Trotha, que concebeu e aplicou com meticulosa barbaridade o Vernichtungsbefehl (ordem de extermínio) dos herero, regressou à Alemanha, foi nomeado general, mas nunca mais recebeu qualquer função de relevo. Os alemães, ao contrário de britânicos e franceses, que também cometeram pavorosos massacres coloniais, nunca deixaram de pedir desculpas às vítimas dos seus excessos. Que eu saiba, nunca a França pediu desculpas pelos massacres de Montagnac, nem a a Grã-Bretanha pelo massacre de Amritsar. Lembro uma passagem das Lettres d'un soldat, assinada por Montagnac e publicada em França em 1885.



« Toutes les populations qui n’acceptent pas nos conditions doivent être rasées. Tout doit être pris, saccagé, sans distinction d’âge ni de sexe : l’herbe ne doit plus pousser où l’armée française a mis le pied. Qui veut la fin veut les moyens, quoiqu’en disent nos philanthropes. Tous les bons militaires que j’ai l’honneur de commander sont prévenus par moi-même que s’il leur arrive de m’amener un Arabe vivant, ils recevront une volée de coups de plat de sabre. […] Voilà, mon brave ami, comment il faut faire la guerre aux Arabes : tuer tous les hommes jusqu’à l’âge de quinze ans, prendre toutes les femmes et les enfants, (...) En un mot, anéantir tout ce qui ne rampera pas à nos pieds comme des chiens. ». Sinceramente, nem Himmler nem qualquer dos seus capangas conseguiria exceder tão eloquente prosa.



Pois, cara Charlotte, tudo o que continuamos a pensar dos alemães é resultado da propaganda de guerra. O nazismo morreu de morte macaca, os seus crimes foram justamente punidos, mas alguns dos que os julgaram não eram inocentes virgens em matéria de atropelos à dignidade humana, guerra de agressão e genocídio. Não há povos criminosos, como não os há isentos de tentação criminosa. Ora, creio, a Alemanha tem feito obra grande neste mundo desde 1945, sendo dos mais destacados obreiros da paz, da ajuda internacional, da cooperação e da caridade. Onde há conflitos, fome e desastres naturais, lá estão os alemães ajudando árabes e judeus, negros e amarelos sem olhar a preconceitos. Tenho grande admiração por todo o esforço de reparação de que os alemães deram provas ao longo de porfiada penitência. Chegou a hora de deixar a Alemanha descansar um pouco e das Grã-Bretanhas, Franças, Bélgicas e Holandas se converterem, como os alemães, em benfeitores das feridas da humanidade.

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