21 fevereiro 2007

Victory Through Air Power, um mito da geoplítica americana



Soa a truísmo afirmar terem sido os séculos XIX e XX politicamente diferentes de todos os outros. A grande mutação terá sido motivada pela industrialização, pela standardização e mecanização das organizações, pela superação do homem pela máquina e pelo encurtamento do tempo e das distâncias, que deitaram por terra o ritmo natural a que obedeciam os comportamentos, a reflexão e as decisões. O fascínio pela máquina e o poder apercebido da vantagem proporcionada pelos artefactos bélicos gerou, por seu turno, produção teórica que alterou a arte de pensar e fazer a guerra. O avião é, mais que o computador e o nuclear, o emblema da mutação irreversível.




Datam dos anos 10 e 20 as primeiras reflexões sobre o poder emergente do avião, com Giulio Douhet, Mitchell e Seversky relativizando a velha dicotomia poder continental v. poder marítimo ante a ascensão do termo superador destas: o poder aéreo. Já antes da Segunda Guerra, mais que símbolo de modernidade, o avião ascendera a ícone venerado pelos decisores políticos, que julgavam evitável a repetição das carnificinas da Grande Guerra 14-18. A ideia de uma guerra total e fulminante que pudesse destruir o inimigo por detrás das suas linhas - as suas fábricas, as suas cidades, a sua vontade de lutar - encontrava adeptos um pouco por todo o Ocidente. Se bem que os alemães utilizassem o poder aéreo, fizeram-no com meios tácticos restritos aos teatros de operações, e mesmo as célebres blitz (sobre Roterdão, Londres, Conventry e Belgrado), com os Stuka em voo picado aterrorizando populações e militares, nunca tiveram outro efeito que o de abreviar o desenlace das campanhas militares de 1940 e primavera de 1941.




Foram os britânicos, graças a Harris, bem os norte-americanos, discípulos de Mitchell, que absolutizaram a ideia que a guerra aérea sem quartel poderia esmagar e fazer sentar à mesa da capitualação o inimigo. Porém, já desde 1943 se sabia que a guerra aérea terrorista, ao invés de destruir o esforço de guerra adversário, robustecia a vontade deste em lutar. A incineração da Alemanha e do Japão pouco ou nada precipitaram a derrota alemã e japonesa. O bombardeamento estratégico mostrou-se, assim, um completo fracasso. Quando chega o momento de lutar fisicamente com o inimigo, não há avião que socorra. Se no cenário de batalha, o avião táctico, bem como o helicóptero, são preciosos auxiliares, no quadro geral de um conflito, o seu peso é relativo. Os Aliados criaram um mito que se veio a revelar fatídico no Vietname, como já fora na Coreia. Esse mito resistiu e até terá sido reforçado com a facilidade com que os EUA derrotaram o Iraque na primeira e segunda guerras do Golfo, alijaram Milosevic do poder e fizeram calar as veleidades de Kadhafi.




Em conflitos de baixa intensidade, porém, o avião de pouco serve. No Afeganistão, como no Iraque, as aeronaves têm-se mostrado totalmente inúteis na guerra contra os guerrilheiros. Lembro ter falado do assunto a um oficial norte-americano que encontrei numas férias na Malásia. Homem de infantaria, pés na terra e realista, disse-me seguir com apreensão o triunfo dos partidários do poder aéreo. Os EUA, como império, têm de garantir a vitória nas campanhas. Para tal, precisam de sacrificar homens, ocupar território e garantir a pacificação. Não é com aviões que se ocupa e controla um país. Os problemas no Iraque e Afeganistão decorrem de recusa do não acatamento desta evidência imperial.

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