28 fevereiro 2007

Vendemos secos&molhados+ diplomas


O último escândalo envolvendo uma universidade privada não me surpreendeu minimamente. A vida desses cortiços de cursos poligrupo confunde-se com a vergonhosa demissão dos nossos governantes de princípios elementares que dão expressão ao bem-comum (que ideia tão em desuso), oferecendo o retrato acabado de um sistema de ensino que se foi degradando até extremos de caricatura.
Conheço bem a realidade dessas "privadas" - vulgo, cooperativas de ensino - entregues a magarefes analfabetos e prepotentes. Compreendo bem, após uma dúzia de anos de docência nesses tugúrios, o motivo pelo qual o Estado francês proibiu as "privadas", aceitando tão só a honrosa excepção do ensino superior concordatário. As universidades privadas não têm, de facto, autonomia, pois vivem da prestação de serviços de académicos em acumulação; não desenvolvem investigação, pois faltam-lhes as condições materiais e físicas necessárias a tal missão; não contribuem para o enriquecimento do perfil do ensino superior, pois vivem do aceno aos excluídos do ensino superior público. As "privadas" são responsáveis pela degradação da Universidade portuguesa: mercenarizaram a docência, vulgarizaram a posse de títulos académicos incompatíveis com o desembaraço e qualidades dos desesperados que a eles se candidatam, transformaram-se em fábricas de diplomas na directa proporção do desespero de um emprego.
As "privadas" macaquearam a hierarquia, os rituais e praxes académicas, mas nunca conseguiram emular o ensino oficial público. Conheci muitos "Professores Doutores", "Doutores" e "mestres" saídos dessas retortas. Grande parte, para não dizer a quase totalidade, jamais teria aspirado a uma licenciatura ou à finalização de um 5º ano antigo do Liceu se não lhes tivesse sido aberta essa gruta de Ali Babá. O dinheiro corre ali a rodos, assim como o familiarismo, o parentelismo, o grupismo português, pragas velhas que se democratizaram e tornaram possível a prática universal do logro. Pelo que me apercebi ao longo de anos, nesses locais não se respeita o saber, a competência, a entrega. Premeia-se o servilismo mais abjecto, promove-se o atrevimento criminoso e a irresponsabilidade científica, para não referir o pagamento recíproco de favores a políticos, jornalistas e outros que nelas encontram poiso para enriquecimento curricular e exibição de status docente. Em suma, aquilo é um negócio. Em relação à última em que desenvolvi actividade, fiz-lhes precisamente o mesmo que os trolhas: saí do estaleiro sem dizer uma palavra e nunca mais lá fui !

Sem comentários: