14 fevereiro 2007

Tão livre como na livre Inglaterra
















Ontem senti-me num país civilizado. Não foi preciso fugir para o meu jardim secreto, portadas fechadas, tv apagada e livro sobre os joelhos para me furtar à atmosfera que me oprime. Prepararam-me um belíssimo tornedó de vitela ao molho de vinho do porto, assisti ao programa de Nogueira Pinto - uma peça livre do ódio, da propaganda infantil e dos suplícios a que somos submetidos - e terminei em beleza com North by Northwest. Um sonho de noite invernosa com assomos de liberdade.
O atestado da nossa escravidão - esta incapacidade para ver o grande onde está o grande, o reles onde está o reles - tem sido a verrina incutida dia-após-dia, ano-após-ano, década após década a propósito de um homem nascido há quase 120 anos, que abandonou o poder há 40 e morreu era eu um menino. Passei toda a vida submetido ao flagelo da diabolização, do insulto, do queixume eriçado de ódio. Passei a conviver com esse ódio com a naturalidade de quem respira. Agora, tudo se dissipa. Afinal, muitos portugueses parecem render-se à evidência da grandeza do roble abatido, comparam-no e reconhecem-lhe as virtudes da honestidade, do labor sacrificado, do sentido de Estado, do viver humilde e do amor por esta pátria. Afinal, ele terá sido o último português antigo.
Sempre detestei a cronofobia, o terror pela inelutável passagem do calendário. Os povos que não conseguem superar o passado estão condenados. Somos dominados por ódios velhos, de velhos e das suas memórias, pelo que a persistência do "anti-salazarismo" constitui uma doença. Não há português que queira viver em ditadura, privado de liberdade. Contudo, sopesando o que o precedeu (república) e tudo o que evitou (a comunização da península, a guerra e a invasão alemã), o seu regime não mais terá sido que uma benigna, paternalista e autoritária alternativa aos totalitarismos que dominaram o mundo essa era de extremos que foi o século XX.

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