01 fevereiro 2007

República e salazarismo




A revolução devora sempre os seus filhos dilectos. A revolução republicana não escapou à regra. Aquela gentuça violenta, medíocre e arrivista, que galgara a tiro, bombas, difamação e demagogia a escada do poder, logo que instalada, praticou com esmero - com moderado cinismou ou com escancarada coerência - a pedagogia do porrete, das prisões arbitrárias, do assalto e queima das redacções dos jornais oposicionistas, do desterro dos inimigos e dos ajustes de contas mafiosos.



A república anunciou-se com um horrendo crime, impôs-se a tiro e manteve-se pela intimidação do poder da rua, das organizações civis armadas do terror jacobino e da confiscação do aparelho do Estado, destruíndo quase cem anos de esforço civilizador que começava, finalmente, a entreabrir as portas do país ao compasso da Europa.



A república foi uma involução, fechou-nos numa singularidade "mexicana" - com os pronunciamentos, guerras civis, matanças rituais, intolerância anti-religiosa - e partejou tudo o que a esquerda mitómana persiste, erradamente, em atribuir à criatividade liberticida do Estado Novo. Foi sob a República que morreu o Estado de Direito, foi sob a república que se instaurou o policiamento do espírito, foi sob a república que se deu rédea solta aos senhores militares e seus apetites de mando e fortuna, foi sob a república que se anulou a separação de poderes, foi sob a república que se instrumentalizaram a Escola e a Universidade para a inculcação do credo político dominante.



Salazar apenas operou com tecnologias repressivas e materiais seleccionados e testados durante a "República Velha" e a "República Nova": censura, polícia política, leis extraordinárias, anulação da oposição, juramento de fidelidade ao regime, obrigatório para todos os servidores do Estado, desterro e exílio para os recalcitrantes. Em certa medida, a república foi mais abusiva, menos legalista e tendencialmente mais totalitária que o salazarismo, na medida em que continha um programa que misturava regime e sistema (a diversidade política sob a república era, tão só, a de uma pluralidade intestina), que confundia soberania do Estado com direito de intervenção do Estado na esfera da religão, do ensino e da família e declarava ser seu propósito mudar a cultura, as tradições e crenças do povo português.



Finalmente, a república, ao contrário do que afirmam os seus panegiristas - Carlos Ferrão, Medina, Oliveira Marques - colocou os interesses do regime acima dos interesses nacionais, desenvolvendo uma política externa lesiva da segurança nacional, expondo o país a uma guerra mundial de todo evitável, alienando simpatias com os aliados (Grã-Bretanha) e criando relações de má-vizinhança com a Espanha.

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