15 fevereiro 2007

Panorthosia do terceiro-mundismo contra-cultural



Nada de novo sob o sol. A cultura oficial da esquerda cerebral - que em tempos foi contra-cultural e agora é ditadora do pensamento único - está, afinal, espalhada por textos com 100, 300, 500, 3000 anos. A "reforma universal" - um mundo renovado, unido pela inteligência e boa-vontade dos homens aspirando à perfeição numa comunidade mundial - tão presente na boa-nova dos alter-globalizadores, foram-na buscar a Comenius. A panreligião do supermercado das espiritualidades de "auto-ajuda", self improvement e outros sincretismos new age não passa de uma canhestra adaptação do universalismo e do pluralismo reconhecido por todas as religiões, tanto as reveladas como as inspiradas. A "religião universal", em sentido literal, foi caminho obrigatório para os deístas dos século XVII e XVIII (Burton, Locke, Hume e Voltaire), reduzindo-se hoje a "deísmo construtivo" por exclusão do sobrenatural e a uma mera conversão em programa de viver-conforme-a-sabedoria [de todas os textos sapienciais]. No fundo, como o disse expressamente Rozak em The Making of a Counter Culture, as sociedades multiculturais pretendem encontrar estabilidade num meio onde o consenso não pode funcionar, porquanto o consenso está para além da tolerância e esta requer uma cultura dominante que reconheça às restantes minorias culturais o direito a existir. Todos os debates, choques e vacilações em que mergulham as sociedades privadas de unidade cultural vem demonstrar a impossibilidade de uma alter-cultura plural, pelo que a esquerda alter-cultural, mais que uma sólida alternativa a um mundo velho que se estilhaça, é, apenas, reflexo dessa queda e do vazio que se instala. A alter-esquerda é, afinal, o pensamento dos pobres de espírito de uma civilização que desconstruiu-se ao ponto de nada poder compreender, de nada poder julgar e agir. Temo que o New World que venha a ocupar o lugar do caos esplendoroso em que vivemos tenha muito pouco a ver com esse novo horizonte de plenitude e sabedoria. Temo, como conservador, que o Novo Mundo seja a reposição da tirania absoluta desses impérios mundiais que sempre se impuseram quando o ruído ameaçava a sobrevivência dos homens. Temo que a resposta a essa globalização caótica esteja mais em Hobbes que nas ideocracias. Afinal, a história repete-se.

Sem comentários: