19 fevereiro 2007

O colapso do modelo

Pede hoje o Diário de Notícias ,em editorial incendiário, a extinção da CML. Sempre habituados ao compromisso, à contemporização e ao consenso, velha chaga de carácter dos portugueses, fiquei aturdido com a acutilância do gesto. A nossa velha fórmula - berrar, invectivar e espantar demónios, para logo deixar tudo como antes - tem permitido a esta sociedade carregar, incorporando-os por assimilação e adesivagem, os erros, as práticas e homens de todos os regimes passados. O país gosta, pois mantém intocados os interesses, as conquistas e benefícios dos antigos, não pondo em causa as conquistas, os interesses e benefícios daqueles entretanto chegados. Assim foi em 1910, em 1926 e 1974; assim será de futuro. Como lembrou acertadamente Marc Ferro nos Tabús da História, esta estúpida tentação platonizante e intelectualista de separar homens e ideias decorre da crença - igualmente estúpida - de considerar as ideias como algo que existe antes, fora e acima dos homens. Nada mais errado, pois são os homens que fazem e desfazem as ideias, são os homens que movimentam a história e é deles que se faz o tempo. Se se verifica que o modelo não funciona, se este é despesista, corrupto, ineficaz e insusceptível de se corrigir, então pense-se um outro. Conquanto se salvaguardem aquelas liberdades fundamentais que são dados imediatos de civilização, qualquer alternativa de regime, sistema, instituição ou prática tidos por benéficos à realização de fins colectivos deve ser respeitada. Não há modelos acabados e perfeitos, pelo que continuar a perseverar em tabús é, mais que prova de reverência primitiva, uma tremenda injustiça lançada sobre aqueles que depois de nós virão. Se isto se aplica ao turvo mundo das autarquias, aplica-se de igual modo ao modelo de representação escolhido pelos constituintes de 76.

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