25 fevereiro 2007

Homens levados da breca




O gesto heróico, a loucura temerária e a desabrida coragem suicida daqueles que agem no gume da faca e empurram montanhas foi sempre alimento bem acolhido pelos aquietados e domestidados homens de civilização. O género heróico, literariamente fixado no Ocidente desde o poeta cego que cantou as façanhas e a fúria de Aquiles às portas de Tróia, confunde-se com o mortal aborrecimento da vida urbana, pelo que é entre nós, domésticos, que a sublimação da aventura maiores entusiastas encontra.



A escrita portuguesa é bem pouco propensa ao género, que se parece ter esgotado com Fernando Mendes Pinto e apenas ressurgiria como caricatura pouco veraz, afectada e sem força, com Carlos Pinto de Almeida, Pinheiro Chagas, Arnaldo Gama e Campos Monteiro. A nossa sofrida, intimista e triste resignação escoa-se pelos silêncios, pelos monólogos, pela narrativa sem acção exterior, tão morna e soporífera como o melhor Manuel de Oliveira. Mas tivemos heróis contemporâneos, aos quais só o estro de poetas desgarrados da dormente infelicidade colectiva parece ter sacado do esquecimento. Lembro o Ausente (Rodrigo Emílio), António Manuel Couto Viana e, até, Manuel Alegre, cuja obra, não sendo nada por aí além, é inflamada pela gesta e pela grandeza. Há três anos, juntamente com Manuela Rego, preparei uma exposição e um catálogo sobre a recepção portuguesa de Dumas. Posso dizer que passei as passas do Algarve para cumprir o objectivo. Os portugueses são verdadeiros monges lamaístas quando comparados com os espanhóis e seus capitanes, os italianos e seus condottieri, os britânicos e seus corsários, os alemães e seus Freiherren.



Confesso que gosto dos heróis, do heroísmo e das figuras de excepção. Abstraindo quaisquer juízos morais que sobre esses guerreiros possamos fazer - El Cid, Geraldo Geraldes, Nuno Álvares, Joana d'Arc, Matias de Albuquerque, Aniceto do Rosário, Daniel Roxo, Zumalacárregui, Milan Astray, El Campesino, Léon Degrelle, Otto Skorzeny, o Che - são eles que balizam os tempos e enchem o espaço emocial da vida colectiva dos povos. Por seu turno, detesto os anti-heróis, o "heroísmo dos homens comuns" do neo-realejo e o culto da fraqueza. O grande problema do nosso tempo tem sido o de fazer crer que a liberdade e a democracia são incompatíveis com o exercício da heroicidade. Esse erro terrível tem sido responsável pelo atrevimento dos tiranos, dos agressores e dos belicistas, os quais, tendo criando um esterótipo de vulnerabilidade, fragilidade e cobardia dos ocidentais, se sentem impunes. Nos EUA e Reino Unido conseguiu-se, finalmente, virar a página sobre essa inibição mortal. Das guerras do Afeganistão e do Iraque, não obstante as más escolhas tácticas no combate aos terroristas, ressurgiu a ética de sacrifício, denodo e entrega que há muito julgavamos afastada dos ocidentais. A democracia deve ser pacífica mas não pacifista, pelo que os seus inimigos dela não devem poder esperar outro argumento que o da força, sempre que postos em causa aqueles valores sem os quais não vale a pena viver. O recente surto de filmes de guerra exprime o renascimento do respeito devido aos guerreiros. Tal enche-nos de esperança, depois de quarenta anos de um pacifismo extremista que fez, primeiro, serviço de quinta coluna ao imperialismo comunista, e mais recentemente de colaborador do terrorismo islâmico.

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