12 fevereiro 2007

Espectros à solta no rescaldo do referendo


"Porque os fantasmas, uma vez criados, nunca mais nos deixam. Acompanham-nos toda a vida. Gerámo-los com os nossos actos, chegando a ter uma existência muito mais real e tangível do que a dos outros seres com quem todos os dias lidamos. Por fim dominam-nos".


Raul Brandão, Memórias


Leio nos jornais da manhã esse longo recitativo de declarações e juras de fidelidade à vida, à esperança e ao futuro, mas nelas pressinto apenas o remorso de quem permitiu um crime e procura com patética inabilidade espantar o obituário que anuncia o suicídio colectivo. Não querendo exagerar, vejo-me numa Roma envenenada pelo invisível chumbo esterilizador. Os antigos mataram-se pela peçonha do metal tóxico presente nos encanamentos da grande capital do mundo. Nós, matamo-nos com a invisível contra-cultura, e como nos matamos alegremente, precisamos de criados que nos assistam nas derradeiras libações. Que venham escravos sírios, fenícios, núbios, etíopes, mouros e persas servir-nos as ameixas e os ágapes - os gafanhotos dourados polvilhados com mel, as patas de urso, os pescoços de girafa, os miolos de andorinha -; que nos limpem os salões dos vómitos da fartura mortal; que nos transportem do triclíneo para o tepidarium. Amanhã, aos doentes, àqueles que não já não podem acudir aos simpósios, será dada autorização para uma morte decente. Depois de amanhã serão os senis. Assim caminha, alegre e sereno, o nosso velho mundo para a vala comum.

Sem comentários: