11 fevereiro 2007

Derrota da racionalidade ética, triunfo da racionalidade técnica


Chegou ao fim a luta em que tantos se envolveram ao longo de meses. A derrota do Não decorre de determinantes estruturais claramente identificáveis, de circunstâncias epocais facilmente elencáveis, bem como de responsabilidades bem evidentes no plano táctico.


Abstendo-me de quaisquer comentários a respeito do primeiro e segundo níveis, não posso deixar de me espantar pela gritante incompatibilidade entre uma certa ideia de civilização fundada nos direitos humanos e a ausência de princípios pelas quais essa dignidade e esses direitos supostamente intrínsecos se podem preservar na ordem política. Na esfera da cidadania não cabe, decididamente, outra positivização que a da política entendida como espaço de liberdade, opinião e confronto entre programas de diversa índole, mas expressão do mesmo substracto a que se chama civilização.


Perdendo-se a unidade invisível, perdendo-se os fundamentos sobre os quais repousa a unidade civilizacional, transfere-se para as circunstâncias, os estados de alma e os caprichos a essência de uma civilização. Não cabe à pólis decidir, votar, banir ou assimilar aquilo que está antes e acima da sociologia. A pólis não pode, pois, exprimir-se em matérias cuja relação com os homens e com a comunidade são condição para que os seres humanos sejam homens e para que a comunidade seja uma sociedade, uma nação, um Estado.


Pedir ao voto que se pronuncie sobre a existência ou inexistência de Deus, sobre o interesse ou desinteresse da preservação da independência nacional, sobre a verdade, o bem, o belo ou a justiça - ou seja, pedir ao voto qualificação em questões metafísicas, teológicas, filosóficas e estéticas - surge-nos tão absurdo como pretender pedir a um teólogo, a um filósofo ou um criador consulta sobre pesos e medidas, taxas de juro, câmbio e regulamentos rodoviários. Esta confusão de planos encontra eco na sociedade de consumo, sem passado nem futuro, em que as ideias deixaram de ser entendidas como radicais e absolutas na sua universalidade partilhada, mas como matéria de discussão no mercado da opinião.


Contentando-me inverter a hierarquia das coisas, localizo nos comportamentos atitudes denunciantes de quantos, sabendo tudo isso, se remeteram ao silêncio colaborante, à transigência e à neutralidade. Refiro-me, evidentemente, à postura da Igreja portuguesa, tão pujante e opinativa noutras questões, aqui tão caladinha, quase envergonhada. Refiro-me, também, ao PSD e ao seu líder, cuja inqualificável cobardia será decerto aplaudida como carta de alforria para outras questões filosóficas que venham a ser colocadas ao povo-rei.


Posto falarmos de biologia e bio-ética - um assunto em que o homem da rua é, como se sabe, perito encartado - não seria desinteressante submeter ao povo-rei outras questões do foro académico.

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