26 fevereiro 2007

Comunização e escravização da cultura


Quando a "literatura" usava a foice e o martelo à lapela

"Em Esteiros não vemos ainda o proletariado organizado, mas é bem evidente a análise das formas e meios de produção, assim como o propósito de desvendar os antagonismos de classe (...). Em Esteiros a natureza (histórica) das relações humanas é determinada pelas relações de produção. Observam-se as classes sociais ligadas ao desenvolvimento económico. Vemos, no próprio acto do trabalho, os estivadores, os descarregadores de carvão da Fábrica Grande, os garotos do Telhal, de lágrimas nos olhos e palavra solta, com os ombros escaldados pelos tijolos. (...) No fundo, as relações económicas - valor de troca, mais valia, dinheiro, capital - são sempre relações que se realizam entre seres humanos, à custa de seres humanos. Em Esteiros são-nos mostradas pessoas deformadas pelo poder que o dinheiro confere (o Sr. Castro) e outras deformadas pela impossibilidade de chegar ao uso, ao consumo. Mas nestes mesmos se vai construir um universo de valores, uma consciência dos direitos que assistem àqueles que dos seus direitos são espoliados. (...) É também importante aspecto de Esteiros o seu alcance desmistificatório, anti-idílico, de romance que inter-relaciona razão e sentimento. Esta unidade realiza-se dialecticamente no receptor da mensagem, e nele progressivamente se constitui a consciência da exploração capitalista e da escravização do proletariado (...)".

(Urbano Tavares Rodrigues. O real e o imaginário em Esteiros de Soeiro Pereira Gomes. In Colóquio Letras, n.51, Setembro 1979)


Foi com pérolas destas que se destruiu o espírito académico e científico em Portugal no período do PREC. Não contentes com a prostituição da academia, os comunistas lançaram-se num frémito de purgas de lesa-universidade, em resultado das quais os mais importantes catedráticos portugueses foram submetidos a humilhações públicas inenarráveis, dignas da Revolução Cultural, como aquela em que Almeida Costa, ex-ministro da Justiça e professor na Faculdade de Direito foi atacado e arrastado pelas ruas por uma multidão de facínoras. Submetidos a "saneamentos por justa causa", também Jorge Borges de Macedo, Joaquim Veríssimo Serrão, Vitor Manuel de Aguiar e Silva, Rui de Albuquerque, Adriano Moreira, Gama Caeiro, Veiga Ferreira, Moreira de Sá, Costa Ramalho, Cruz Pontes, entre outras dezenas de docentes, tiveram de abandonar o ensino. Assistiu-se à chegada à ribalta universitária de uma turbamulta de aventureiros, improvisadores e tarados ideológicos que fizeram tábua-rasa do princípio da independência da Universidade, colocando-a ao serviço da vulgata comunista. Os comunistas, que já haviam adquirido invejável património de acção contra a cultura noutras latitudes - mormente em França e Itália (vide Jules Monnerot, Sociologie du Communisme; idem, Desmarxizar a Universidade) - realizaram entre nós uma experiência da qual ainda hoje pagamos pesada factura. O declínio de competitividade e prestígio do ensino superior em Portugal decorre desses anos de 74 e 75. Volatilizados os curricula, subvertidos por preocupações alheias à alta cultura, manobrada por desclassificados que de imediato se lançaram sobre o remanescente do professorado qualificado, entre eles homens de esquerda (Magalhães Godinho, Oliveira Marques), a Universidade entrou em coma, só resistindo aqui e ali em instituições que conseguiram contrariar o poder da rua. Hoje, todos somos vítimas desse momento hediondo. Convém lembrar sempre !

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