25 janeiro 2007

País do garfo, da bandeja e do naperon



Aqui não há feiras de indústria, comércio e serviços, não há marcas portuguesas internacionalizadas, não há invenção, investigação científica com aplicação tecnológica. As câmaras municipais, prevendo a morte das actividades produtivas, estão-nos a transformar num baldio Massai para o nicho do turismo selvagem. Não há indústria mineira, como também não há agricultura, trocada em jeeps e apart-hotéis pelos fundos corruptores da PAC e do desinvestimento. A província limita-se a oferecer "percursos temáticos" e "percursos pedestres" para putativos turistas de fim de semana, mais "turismo de habitação" em ermos para anacoretas, mais artesanato local, rude e infantil como lavores de escola primária. Aqui há velhos sentados ao sol, anos a fio, vendo passar os carros, velhotas de negro espantando o tédio nas janelas de casinhotos semi-arruínados, cães cheirando e esgravatando restos.
O centro nevrálgico das aldeias, dos vilarejos e cidadezinhas congeladas no tempo é o café onde a maldita televisão despeja decibéis com esfuziante mediocridade de futebol e programecos que enchem manhãs e devoram tardes na expectativa da tal novela. Pela noite, por toda a província, abrem-se as luzes do alterne. Ao longe, no betão e no asfalto, passam em velocidade supersónica os camiões de Espanha em direcção ao Corte Inglês, às grandes superfícies e mesas dos portugueses suburbanos do Cacém, da Amadora, da Cruz de Pau, do Barreiro e de Setúbal. Dizem que por aí vem o TGV e o novo aeroporto. Sim, mais turistas de baixos recursos à procura do tal mel silvestre, da bonecagem tosca dos barros e das cortiças, dos tintos carrascões, dos pastéis de bacalhau e das tascas de maõzinha de coentrada, das migas e das moelas de cebolada. Creio que daqui a duas gerações só haverá duas profissões registadas: criados de servir e proprietários de tascas.
Os Portugueses ainda não descobriram o capitalismo, a iniciativa individual , o atrevimento de ousar, a liberdade de correr riscos. Enquanto tivermos alma de criadas de servir, enquanto persistirmos em fugir ao que é e ao que mundo de hoje nos exige; enquanto persistirmos na ilusão de um país pacato, sonolento, aqui e ali agitado pela ganância agiota dos banqueiros, dos patos-selvagens e dos almocreves do lucro imediato, seremos o que somos: um país de velhos e velhotas à espera da morte, de futebóis, de novelas e de alguns aventureiros dos negócios, da especulação compra-para-vender, da política politiqueira e de tudo o que nos reduz a isto !

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