15 janeiro 2007

Os "nacionalistas" indianos






O nacionalismo indiano anda desesperado à procura de causas que o justifiquem. Aliás, a história é velha, tão antiga como a colonização europeia, da qual o "nacionalismo indiano" rapinou os conceitos, as palavras, as bandeiras, os mitos, os gestos e os tiques.

Vejamos qual a genealogia das duas correntes deste "nacionalismo": a não-violenta e a fascista.
A "não-violência" das Satyagraha de Gandhi, mais que emanação do jainismo e de algumas correntes do hinduísmo, parece uma cópia em papel de carbono do "amor pelo inimigo" pregado por Cristo. Esta tese foi suficientemente exposta de S. K. George no célebre mas hoje esquecido Gandhi's challenge to Christianity, depois repelido pelos adeptos do Congresso pela revelação de uma filiação não indiana do pensamento do Pandita. Com a ala radical e violenta do Congresso passou-se o mesmo. O Netaji Chandra Bose licenciou-se em Cambridge e bebeu das fontes do vitalismo europeu, em tudo diferentes do quietismo hindú. O seu fascismo indianizado - não racista e quase indiferente à questão religiosa - assentava num claro propósito de ocidentalização (planificação e racionalização económica, criação de um Estado unitário e centralizado), aceitando a via do reforço da Índia pela importação da técnica ocidental, opção que se revelou eficaz no Japão e seduziu gerações de jovens burgueses, citadinos e ocidentalizados em todas as colónias europeias na Ásia (Sukharno nas Índias Orientais Holandesas, Aung San na Birmânia, os adeptos do Ketuanan Melayu na Malaya/Malásia).


No fundo, como lembram Ian Buruma e Avishai Margalit em Ocidentalismo, o "nacionalismo" asiático - o ódio contra o Ocidente, o ódio contra o homem branco, a criação das identidades "nacionais", a construção de um passado que reconhecia in ovo a futura criação de Estados pós-coloniais, a mitificação da "via espiritual asiática" face ao "materialismo europeu") nasceu a partir da impregnação ocidental. A "Índia" de que falam os "nacionalistas" indianos soa tão falso como a angolanidade e a moçambicanidade de Neto e Machel. É uma abstracção. A Índia dos marajás, dos rajás e nababos, a Índia das 22 línguas regionais e dos mil e seiscentos dialectos, a Índia das oito religiões, a Índia da influência britânica, francesa e portuguesa é tudo menos una, pelo que os "nacionalistas" recorrem amiúde a simplificações grosseiras para fundar ex nihilo uma "identidade" em tudo postiça. A sanha indianizadora, isto é hindú, virou-se contra tudo o que pudesse contrariar a unidade que a geografia, a demografia e a história contradizem. Há anos, num assomo de demagogia sem precedentes, os "nacionalistas" rebaptizaram Bombaim - Boa Baía - e inventaram uma Mumbai tirada a forceps do panteão dos deuses insoletráveis.


Ontem coube a vez aos portugueses. Um punhado de maluquinhos exaltados quis estragar a festa que a Universidade de Goa preparara para o chefe de Estado português. Os "nacionalistas" têm andado a atacar cristãos indianos em "Mumbai", Nova Delhi, Goa, Díu e Pondicherry, como já atacaram muçulmanos indianos, jainistas indianos, zoroastristas indianos e budistas. Esse ódio parece ser, na Europa, como na Ásia, um combate antecipadamente perdido, porque assente em parcas meninges, porque reactivo de um movimento global de aproximação e diálogo inter-cultural, porque condenado pela força da riqueza de um sub-continente que entra com o pé direito no clube das grandes economias. A maior praga que se abateu sobre a Europa do século XIX foi o nacionalismo. Foi o nacionalismo que levou a duas guerras mundiais que afundaram o nosso continente. Se a Ásia caísse na tentação dessas simplificações grosseiras cometeria o suicídio. Na Índia, esse "nacionalismo" tocaria em feridas milenares, em fronteiras pouco mais que artificiais, em justificativos pouco mais que primitivos. Esse nacionalismo é o caminho do tribalismo, da pobreza, do isolamento e do ódio.


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