02 janeiro 2007

O fim das civilizações: os limites da geo-história



A reflexão sobre a decadência - emanação da Punição e da Queda veterotestamentária aplicada à história profana - deslocou-se ao longo dos últimos séculos da esfera da cultura para o domínio da relação do homem com a natureza. Se durante muito tempo a decadência fora interpretada como fenómeno cujo elemento sobredeterminante seria o embotamento daquelas qualidades espirituais a partir das quais se alicerça uma sociedade, uma cultura ou uma civilização, hoje, tudo se parece reduzir à procura das causas da falência das sociedades a partir da sua relação com o meio natural. Da Filosofia da Cultura passou-se para a História das Ideias, da História das Ideias passou-se para a História Social das Ideias e hoje privilegia-se a "História natural do homem", entendido este como um mero agente da ordem natural.


Depois de ler Jared Diamond, autor do aclamado Collapse - merecedor de entrevista de luxo no último número de L'Histoire - deduzimos a que ponto chegou o determinismo ambientalista na agenda política dos governos e na percepção daqueles a quem cabe pensar as políticas para o futuro. Para Diamond, as sociedades são perecíveis, encontrando-se no seu ocaso elementos fáticos (repetitivos, permanentes) que permitem estabelecer uma lei universal para a decadência e morte dos agregados humanos. No Collapse, JD indica-os:


1) Devastação e sobre-utilização dos recursos naturais levando ao súbito esgotamento das condições que tornam possível viver de acordo com o ritmo inerente a uma sociedade (desflorestação, erosão dos solos, esgotamento dos recursos hídricos, esgotamento dos recursos minerais);

2) Alterações climatéricas ditadas pelo comportamento humano predador ou por fenómenos naturais ("efeito de estufa", glaciação, aquecimento, seca prolongada, subida do nível das águas, cataclismos: vulcões, maremotos);

3) Invasão e morte violenta das sociedades ocasionada por pressão migratória armada oriunda do exterior;

4) Súbita privação de abastecimento de recursos vitais determinada por corte de contactos com sociedades fornecedoras desses bens;

5) Incapacidade de adaptação social, cultural e política a novos desafios.


Para os fanáticos da geo-história, o elemento político (3) é menos comum do que supunha a tradição da história entendida como grandioso palco de batalhas, guerras e outras façanhas bélicas. As sociedades morrem devagar, sem comoções excessivas, mal se apercebendo do fim que lhes está destinado. Assim morreram o Antigo Egipto, a civilização Maia, a civilização Khmer, as "sociedades hidráulicas" do Indo, os colonatos viking da Gronelândia, o Zimbabwe e até a Antiga Roma: tragadas ora pela selva e pelas areias, ora pela infertilidade demográfica e pela chegda e assentamento de povos estranhos, pelo lento apagar da vida comercial, pela morte das tradições religiosas e literárias, ou ainda pelo embotamento das instituições políticas.


As excepções, essas contam-se pelos dedos: os Minóicos, os Micénios, os Incas, as civilizações da rota da seda e as civilizações agro-pastoris da África Ocidental morreram pela espada, sendo casos extremos e atípicos na longa necrologia de sociedades defuntas.


O erro mais evidente desta análise assenta na desvalorização do factor humano. Vidal de la Blache - um clássico da escola possibilista francesa - dera ênfase à capacidade humana em arrostar as dificuldades e desafios. As sociedades que encontram saída para as dificuldades, robustecem-se. Aquelas que se deixam vencer pelo medo, morrem.


Andam por aí muitos discípulos do Sr. Ramonet - uma versão soft do profetismo cataclísmico de Marx - imputando ao "capitalismo" as responsabilidades pelas negras previsões ambientalistas. Julgam essas sumidades que as "sociedades tradicionais" sabiam relacionar-se sabiamente com a natureza. Ora, nada mais errado. Saberão essas sumidades cultoras das teses regressionistas que a Suécia do século XVII era, por efeito da desflorestação, uma terra escalvada, sem árvores e exposta às maiores inclemências naturais ? Saberão essas sumidades que as sociedades polinésias morreram por efeito da destruição dos recursos, numa escala proporcional bem mais devastadora que as maiores depredações causadas pelas sociedades industrializadas contemporâneas ?


Os nossos ambientalistas - alguns dos quais foram entusiastas seguidores do industrialiamo soviético que matou o Mar de Aral e quase matou o Mar Cáspio - teimam em flagelar a "sociedade capitalista" pelos males ambientais hodiernos. Contudo, lembramos ser a sociedade capitalista aquela que melhores antídotos consegue reunir para contrariar a erosão dos recursos naturais. A aliança entre o mercado, o consumo, a ciência e a tecnologia, às quais se associam os direitos de cidadania - pressão política, debate livre e discussão - são os únicos com capacidade para operar políticas ambientais progressivas, isto é, sem recuo civilizacional. Tudo o mais são idílios sem pés nem cabeça !
Termina Diamond com um aceno de esperança, afastando o fatalismo e aceitando a ideia que cabe aos homens responder aos desafios. Oferecendo o paradigmático exemplo de duas repúblicas das caraíbas (Haiti e Rep. Dominicana), gémeas na natureza, na população e na história, destaca o papel decisivo que na escolha da perdição e do sucesso tiveram as lideranças políticas de uma e outra sociedade. O Haiti caíu no despostismo regressivo de Papa Doc e Baby Doc, a República Dominicana transformou-se numa relativamente próspera economia.

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