30 janeiro 2007

A nova China e o pensar velho português


Quando há vinte anos se falava da China, da sua imparável emergência e das consequências que fatalmente se operariam na estrutura da economia global logo que o grande país entrasse em cena, a generalidade dos europeus, escudados no proteccionismo da então CEE, regalados no complexo de superioridade pós-colonial e absolutamente rendidos ao mito da invencibilidade do Ocidente, riam-se com despreocupação.



A Europa acordou para o pesadelo há dez anos e tratou de atalhar caminho investindo no país do dragão, deslocalizando empresas, compensando perdas com investimento em tecnologia de ponta, especializando-se em produtos e serviços de qualidade que os chineses não poderiam emular. Por cá, viviam-se os dias dourados da demolição do aparelho produtivo, dos fundos estruturais canalizados generosamente a fundo perdido para o cavaquismo e para o guterrismo, dos empresários portugueses conclamados para o patriótico dever de olhar para a Guiné-Bissau como terra da promissão e para o Brasil como eterna futura potência nascente. Por cá, chineses eram uns homenzinhos amarelos, insignificantes vendedores de quinquilharia. Lembro ainda com amargura ter jantado com alguns embaixadores e empresários na embaixada do Brasil - num daquelas excelentes convívios que José Aparecido de Oliveira acolhia - e ter ouvido, entre outras, colossais manifestações de desprezo pelas novidades da Ásia. Lembro, particularmente, um embaixador português afirmando com certeza kantiana ter "a China os dias contados".

Há dez anos, já não era só a China a escalar as alturas do sucesso. Atrás vinham a Malásia, a Tailândia e, pasme-se, a Índia, associada no imaginário orientalista europeu a miséria putrefacta e à tão repetida "nascem, crescem, reproduzem-se e morrem na rua". Hoje, a Índia é económicamente mais poderosa que a França, a Itália e Espanha juntas. Por cá, indianos eram os "monhés" das chamuças e das lojecas do Martim Moniz. Os governas nada faziam para aconselhar e direccionar o investimento.

De súbito, a nossa indústria e o nosso comércio receberam o impacto, saíndo de imediato a terreiro os proteccionistas apelando ao "patriotismo", à defesa dos "interesses nacionais e sociais" e quejandos sofismas com que nos defendemos sempre que nos sentimos incapazes de competir. Ora, que eu saiba, nunca um governante, um diplomata, um responsável pelo ICEP ou
da nóvel agência para o investimento se preocupou em esclarecer, preparar, advertir. País de ignorantes arrogantes, sem especialistas em questões asiáticas - haverá dois, três, quatro quanto muito - nem nos demos conta que na Ásia se estava a jogar o futuro dos portugueses.

Temo que às duas viagens agora encetadas pelo presidente Cavaco e pelo primeiro-ministro, respectivamente à Índia e à China, falte essa informação de base e o conhecimento estratégico que permita arrimar o que quer que seja, como lembra um preclaro confrade. Ir à China não é o mesmo que ir a Bissau, a Belém do Pará ou a S. Tomé. Lamento, pelo país e pelo Estado, que tanta ignorância persista entre aqueles que podem fazer ou desfazer o nosso futuro colectivo.
No que à Tailândia diz respeito, desisti de incomodar. Durante anos, para Durão Barroso e seus ministros dos Estrangeiros, para José Sócrates, seus ministros e embaixadores, mais presidentes de fundações e institutos, alertei para a urgência do aprofundamento das relações entre Portugal e o velho Sião, mas tudo caíu no esquecimento. Recebi uns bilhetes evasivos, outras vezes nem isso. Penso conhecer aquele país, ter aí excelentes contactos e possuir um programa acertado para o desenvolvimento de importantes parcerias, mas por cá só fala na Guiné-Bissau !
PS: ler, também, nas Portas do Cerco

Sem comentários: