09 janeiro 2007

Matar o que se ama


Acabou, finalmente, a saga da Bíblia Hebraica furtada por Michel Garel na Biblioteca Nacional de França. Vendida em 2000 por uma respeitável leiloeira a um incauto bibliófilo, foi devolvida ao legítimo proprietário (o Estado francês) após duras negociações com o aquisitor. Michel Garel, um respeitado hebraísta, era conservador da valiosa colecção de manuscritos hebraicos, pelo que tinha acesso aos reservados da BNF sem quaisquer restrições. Homem circunspecto, senhor do seu conhecimento e detentor de obra apreciável, invocava ainda pergaminhos familiares de "filho de Resistente"- uma quase nobilitação laica em França - e sobraçava a vice-presidência de uma importante instituição de apoio à infância. Preso, acusado e comprovada a autoria das malfeitorias lesa-património, penou dois anos numa penitenciária. Regressa à liberdade pobre, desconsiderado e coberto de vergonha.


Caso análogo terminou há meses no Reino Unido. Norman Buckley, assistente da Biblioteca Central de Manchester, terá furtado 250 obras, vendendo-as de seguida através da internet. No acto de detenção foram descobertas no seu apartamento outras tantas preciosidades prontas a seguir a sorte de muitas que jamais retornarão aos depósitos. O criminoso recebeu pena leve.


A mesma sorte não teve, entre nós, António de Faria Ataíde e Mello. Bibliotecário erudito e autor de minuciosos catálogos ainda hoje compulsados por investigadores medievalistas, devastou durante anos as colecções da Biblioteca Nacional portuguesa, mutilando raros códices iluminados, recortando-lhes as capitais e vendendo-as no circuito de alfarrabistas e coleccionadores de raridades bibliográficas. Descoberto, foi preso, expulso da função pública e sentenciado. Suicidou-se por enforcamento na prisão, em finais da década de 40. Esta novela rocambolesca dava um romance ou uma fita, mas constitui rica matéria para reflexão.
Como pode um homem apaixonado por livros, aos quais dedicou toda a vida de labor e canseiras, destruir aquilo que ama ? Como pode um apaixonado matar, mutilar e vender ao desbarato o objecto do seu amor ? O ser humano é um indecifrável enigma. Repreendia-me há tempos um amigo pelo meu casmurro pessimismo a respeito das pessoas. Ora, para fazer um criminoso, retorqui-lhe, é tudo uma questão de local e oportunidade. É por isso que julgo preferível controlar as pessoas, dar-lhes liberdade caucionada e nunca lhes permitir qualquer sentimento de impunidade. A ocasião faz o ladrão, pelo que qualquer homem - Cardeal, juiz, comissário da polícia ou ministro - deve saber que, sobre ele, até prova em contrário, existe uma lei capaz de o levar à prisão. Não se trata de uma questão cívica. As leis servem para impedir o crime, pois o crime está latente dentro de cada homem. É o que é: sou um incorrigível conservador.

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