24 janeiro 2007

Lebensunwertes Leben


Ouvia ontem uma maltrapilha intelectualóide - feíssima e intocável, por sinal - dissertar sobre a propriedade do [seu/dela] útero, quando me dei conta da escandalosa similitude entre a defesa do aborto e as teses do sr. Karl Binding, o vate da eutanásia moderna, inspirador da cultura de morte dos nazis e do seu sinistro programa T-4.

Em Die Freigabe der Vernichtung Lebensunwertem Lebens, literalmente Licitude na Eliminação da Vida que não Merece Viver, arrumava-se a moldura que permitia matar um doente sem que este fosse interpelado e sem que daí decorresse qualquer remorso, sanção e inibição para o perpetrador da morte misericordiosa. Para cumprir todos os requisitos de contemporaneidade, apelava-se a uma "peritagem médica" (um médico e um psiquiatra), a uma "peritagem jurídica" (um jurista) e ao vox populi expresso por um comité de jurados.
Sei que a interrupção da gestação é um crime aos olhos da deontologia e do juramento de Hipócrates, que o aborto não é, nunca foi, um "acto médico", que a gestação não é uma doença e que a decisão de abortar - dolorosa, sem dúvida - é produto da vontade de quem o quer praticar. Tenho medo - e há já sinais claros que tal se vai realizar - que o avanço do abortismo abra portas a todas as formas de eugenismo, suicídio assistido e demais práticas de eliminação. Chegaremos ainda ao tempo em que a velhice será encarada como uma doença, pelo que surgirão defensores da legitima destruição dos velhos imprestáveis. Neste admirável mundo da opinião e da vontade combate-se a pena de morte - justíssimo - mas esta passa a ser aplicável a criaturas que não transportam qualquer dívida e culpa para com a sociedade. No fundo, não há crime nem criminosos. É tudo uma questão de capricho, decisão, liberdade individual e utilidade social.

Vá, vão aos hospitais psiquiátricos e matem todos os doentes mentais; vão às escolas de ensino especial para autistas, trissomáticos, surdos-mudos e paralíticos cerebrais e matem-nos a todos; entrem portas adentro nos lares para idosos e aliviem-lhes a dor de existir com uma injecção de fenol. Ripostam os defensores da morte assistida dos fetos que estou a fazer "amálgama". Não, pois que estas são, todas, derivações do mesmo desrespeito pelo acto de existir.

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