03 janeiro 2007

A glória feita de engenho




A pedido de Yamada, professor de arquitectura ambientalista numa prestigiada universidade nipónica, andei nos últimos dias ocupado em seleccionar materiais bibliográficos, cartográficos e iconográficos referentes aos vestígios do urbanismo português de Quinhentos a Setecentos espalhados pelas costas da Ásia, África e Brasil. Não sendo, decididamente, um grande conhecedor de arquitectura, não posso, porém, deixar de repelir com veemência aquela pateta afirmação de Hegel, segundo o qual a arquitectura, mobilizando tanta matéria - pedra, estuque, areia - deixaria muito pouco por onde se pudesse expressar o espírito.


É óbvio que na pintura, que rende tributo a Mnemosine - a memória - o recurso ao truque, à habilidade e ao artifício oferecem um manancial de soluções que exercem maior ou menor impressão sobre o observador na directa proporção do maestria técnica, talento do criador e tema. Na pintura pode, até, não haver tema. A arte é, assim, deo gratias, absolutamente inútil, absolutamente excedentária e totalmente privada de utilidade.


Na arquitectura não há espaço para tal: ou serve ou não serve. Temos, infelizmente, alguns exemplos acabados de peças arquitectónicas destituídas de função, ou cuja função foi grosseiramente manipulada por critérios cenográficos que levaram à falência ou inviabilização do fim a que se destinavam ou de reutilização para outros fins tidos de interesse público. Exemplos flagrantes: a Universidade de Lisboa, uma imensa fachada escondendo miseráveis instalações, o CCB, cujo auditório não comporta uma orquestra sinfónica completa, o Pavilhão de Portugal, no Parque Expo, que devia ter sido demolido, pois fechado o certame, está condenado a morrer ingloriamente.


Mas houve um tempo - um tempo longo em que Portugal não fazia obras faraónicas, mas obras de gigante - em que a arquitectura feita por portugueses aliava a sóbria majestade à função do serviço da Coroa, da Igreja e da sociedade nas diferentes vertentes administrativa, militar, comercial, religiosa e assistencial. As grandes fortalezas da Ilha de Moçambique, de Diu e Damão, o colar de baluartes, fortins, torres e atalaias da costa do malabar e Ceilão, os entrepostos, igrejas, ermidas, feitorias, hospitais, seminários e colégios um pouco espalhados pelo Índico e mar da China - para não falar nas grandes obras de engenharia civil e militar ao longo da costa brasileira - são mais que uma marca nostálgica de um tempo que passou. São prova da eficiência, do engenho e capacidade de projectar o futuro. Aliás, temos vivido os últimos dois séculos à custa desses belos edifícios de "arquitectura chã" roubados às ordens religiosas por sucessivos regimes e governos, todos muito anti-clericais, mas useiros na utilização - para hospitais, tribunais, universidades e quartéis - de tudo o que dominicanos, franciscanos e jesuítas construíram. Portugal foi grande, muito grande, em extensão como em sonho, suor e trabalho dos seus. Hoje, finalmente "europeus", contentamo-nos com obras para dez ou vinte anos, destinadas a abrigar a colecção do Sr. Berardo, as cimeiras do grand tour da UE e um ou outro acto solene !
PS: Pedido de desculpa aos meus atentos leitores. Estou a utilizar um teclado made in España, pelo que algumas gralhas poderão ocasionalmente aterrar nos textos. Obrigado pela V. compreensão.

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