22 janeiro 2007

Führerismo, autofagia e ficções delirantes


Aquilo anda em polvorosa pelas bandas do Partido Popular. Fazendo jus a uma das mais acarinhadas tradições da direita aborígene - a guerra civil, os ódios de estimação e as devastações automutiladoras - o quase defunto partido do Caldas esgota-se em querelas bizantinas, vaidades irritadas, cegueiras suicidárias, venenos de Locusta, defenestrações e autos-de-fé. Há uma tendência congénita nesta direita nativa em acertar o passo com causas perdidas, atitudes odiosas e gestos grosseiros. Assim foi. Os melhores, aqueles que escolheram o caminho longo do estudo e do saber, foram [sempre] preteridos pelos impulsivos, pelos irracionais e pelos intriguistas.



Desde os tempos do Senhor D. Miguel que a direita portuguesa dá mostras da mais refinada imperícia, da mais alarve estupidez, da mais supina arte da demissão da inteligência e exaltação do chocarreiro analfabetismo. Lembro que as vozes mais perspicazes, os cérebros mais trabalhados e os homens mais sensatos - aqueles que podem lançar pontes, refazer o quadrado, certificar o discurso, ensinar os rústicos - sempre receberam o salário da dor e do desprezo daqueles por quem deviam pensar. Lembrei aqui há dias o 2º Visconde de Santarém, demitido em 1833 das funções ministeriais que ocupava por haver ousado sugerir que a causa tradicionalista estava votada a perder aquela guerra civil e, portanto, que se impunha negociar e impedir a débacle que se veio a dar volvido um ano.


A história da direita portuguesa é a crónica infinda de partidos, partidinhos, partidecos, movimentos, associações e grupúsculos nascidos uns dos outros, uns contra os outros, todos contra todos. Repetem o mesmo há século e meio - os mais actualizados sonham com Salazar, os mais coerentes com o Trono e o Altar, os mais iletrados aspiram ao Centro, que não é ideologia nem coisa alguma - mas em todas expressões desse imenso desastre, abstraindo as ideias - infelizmente bem poucas, de pouca valia, datadas ou ridículas na forma escolhida - há o mal português.


O portuguesinho, assim que afivela a pequena molécula de poder simbólico, assim que se senta na mesa e aparece na tal lista, sente-se um pequeno césar. Como não tem o poder, simula o poder intra-muros. Conheci, nas minhas andanças, muitos Mussolinis de trazer-por-casa, muitos Hitlers de café, muitos Salazares de papelaria, muitos Estalines de pantufas. Ali não há uma ideia, um discurso, uma frase escrita, um texto publicado, uma profissão aplaudida. Fulanos cheios de si, redondos de presunção, medíocres arrogantes e confusos, só fazem aquilo que as débeis circunvoluções permitem: arremeter contra uma bandeira, um trapo ou uma palavra, explodir em iras de hospital psiquiátrico contra tudo o que desconhecem, cultivar ódios contra pessoas que nunca viram. Faz-lhes falta a tal bibliotecazinha caseira, faz-lhes falta saber o que vale uma profissão certa e decente, trabalhar 10 horas por dia, experimentar mundo, um passaporte carimbado, uns museus e, sobretudo, um pingo de humildade.

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