17 janeiro 2007

Estamos arrumados !



Pediram-me anteontem que falasse do Visconde de Santarém - do homem, do tempo e da obra - a sessenta jovens galegos que a Portugal se deslocam anualmente na companhia dos seus professores. Já o havia feito há dois anos por ocasião de uma exposição sobre Venceslau de Morais e ficara extremamente bem impressionado pelo interesse com que haviam seguido as minhas explicações a propósito das seculares relações entre Portugal e a Ásia.



Ontem, como disposto, lá fiz a pequena palestra introdutória a uma visita à exposição sobre o grande historiador e cartógrafo português de Oitocentos, patente na Biblioteca Nacional. Fiquei redobradamente surpreendido. Aqueles miúdos e miúdas, entre os 14 e os 17 anos, parecem saídos de um outro universo quando comparados com os nossos. Atentos, informados, bem comportados e sorridentes, formulando aqui e ali perguntas pertinentes, respeitadores e disciplinados, são a antítese daquilo que me tem sido dado ver entre os jovens portugueses. A uma miúda de 15-16 anos perguntei se sabia quem eram D. José e o Marquês de Pombal, tendo recebido resposta pronta e conhecedora. Momentos volvidos, perguntei a um rapaz se sabia qual a diferença entre a Guiné Portuguesa e a Guiné Espanhola, tendo-me retorquido de imediato localizar-se a Guiné Bissau na África Ocidental, perto do Senegal e da Guiné Conakry, e a Guiné Espanhola sobre a linha do Equador. Rendi-me, porém, quando, ao apresentar a Memória sobre o Estabelecimento dos Portugueses em Macau, me foi dito que os portugueses se haviam fixado na foz do Rio das Pérolas no século XVI e que os britânicos haviam tomado pela força Hong Kong aos chineses no termo da vergonhosa primeira Guerra do Ópio, em 1842.


À saída, não deixei de charlar com três dos professores que os acompanhavam, tecendo considerações favoráveis à qualidade dos miúdos. Só então compreendi. Um dos professores mostrou-se de uma invulgar erudição em assuntos relacionados com a história portuguesa, outro disse-me sem vacilações que tem um grande amor que dá pelo nome de Portugal e de um terceiro professor a esclarecedora informação que os alunos do liceu galego em que lecciona apresentam, na generalidade, a mesma competência e envolvimento que os jovens ali presentes. Se assim for, deduzo que:

1) Os galegos de 14, 15 e 16 anos sabem mais de História Portuguesa que muitos ministros e deputados da Nação Portuguesa,

2) Que o amor a Portugal é, entre os nossos irmãos galegos, algo que não se esconde nem envergonha;

3) Que os professores do secundário espanhol valem mais que as sumidades pedantes e cinzentas que enxameiam as preclaras universidades portuguesas.


Se assim é, estamos arrumados !

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