12 janeiro 2007

Esqueçamos Goa e Macau e ataquemos em Nova Delhi e Pequim


Um dos erros mais insistentemente praticados pela diplomacia portuguesa assenta na errada avaliação de perspectiva com que nos sentamos à mesa com indianos e chineses. Presumimos que a importância conferida a Goa e Macau na história portuguesa é simetricamente correspondente ao lugar que as mesmas ocupam nas histórias indiana e chinesa.


Se continuarmos a cultivar tal erro de perspectiva e escala - ferindo, gratuitamente, os nossos interlocutores, como nos sentiríamos feridos se ambas as potência se relacionassem com Portugal através de Vila Real de Santo António ou Ermesinde, caso as duas cidades tivessem sido um dia chinesas ou indianas - corremos o duplo perigo de sermos mal educados, ameaçando inutilmente o estatuto de que Goa e Macau gozam nas constituições chinesa e indiana, bem assim como levantarmos entraves à mobilidade de futuras investidas dos empresários portugueses.


Chineses e indianos sabem à saciedade que Portugal foi diferente, mas tal não significa que o devamos lembrar em cada minuto. É ridículo, é insultuoso e é negativo para novos entendimentos. Nunca nos aproveitámos da vulnerabilidade de uma e doutra para ganhar vantagem territorial em períodos não muito distantes em que bastava uma canhoneira varejar pelo fogo de repetição uma cidade para, ipso facto, se impor um tratado desigual, concessões comerciais e até cedências territoriais. No caso da Índia, bastava que nos tivessemos associado aos britânicos no esmagamento da Revolta de 1857-58 para recolhermos o fácil quinhão. No que toca à China, bastar-nos-ia integrar uma das "expedições punitivas" - das muitas que invadiram, saquearam e violaram o Império do Meio - para vermos alargados os limites de Macau e deitarmos para o caixote do lixo o estatuto da soberania partilhada que aí conseguimos manter ao longo de quatro séculos.


A Índia e a China são grandes potências, mas por razões psicológicas preferirão encontrar interlocutores ocidentais de pequeno e médio porte a terem de conviver com países que os dominaram pela espada e pelo bastão. Um indiano tem sempre, queira ou não queira, uma relação de ex-colonizado com um britânico. Os indianos nunca esquecerão o Raj britânico, mesmo que saibam que, sem a colonização, a Índia - uma grande ficção - jamais seria uma União, mas uma manta de retalhos de pequenos Estados divididos pela língua, pela religião e querelas intraregionais. Os chineses, por seu turno, olharão sempre com alguma e mal escondida inferioridade para quem os obrigou a mudar o seu mundo.


A Índia e a China têm ambições de influência e protagonismo fora do quadro regional em que se situam, nomeadamente a Ásia do Sul e o Extremo-Oriente. A Índia quer ver a sua influência projectada em África, tal como a China. Neste particular, não contem os nossos empresários com a bonomia e compreensão desses intrusos perante quaisquer "razões históricas" que possamos invocar a respeito de Angola e Moçambique. Porém, se formos capazes - isto é, se alguma luz e bom senso se fizer nas cabeças de governantes e empresários portugueses - poderemos obter algumas parcerias estratégicas importantes no processo de fixação de interesses indianos e chineses em África. Paralelamente, o mesmo poderia ocorrer em relação a Timor, ao Brasil e, até, no espaço comum europeu em que nos movimentamos sem grandes entraves.


Trabalhar pela preservação da identidade de Goa e Macau implica não as misturarmos com as relações bilaterais com os dois Estados em que os enclaves se situam. Preservar Goa e Macau envolve as fundações, o Instituto Camões e o IPOR e demais instituições públicas e privadas vocacionadas para a cooperação cultural e científica. Mas, por favor, não voltem a falar de Goa em Nova Delhi e Macau em Pequim. Não estraguem a vida aos goeses e macaenses, nem estraguem a vida aos empresários portugueses.

Sem comentários: