23 janeiro 2007

Domingo sangrento


APOCALYPTO: verdades e inverdades
O meu Domingo foi sangrento. Fui ao Apocalytpo. O escândalo que Apocalypto carreia não reside, evidentemente, naquela estúpida, banal e desleixada violência sangrenta com que Mel Gibson ocupa o enredo das suas fitas. Já a havíamos presenciado em Brave Heart e Jesus Cristo, como a vemos espalhada por toda a cinematografia para multidões pouco dadas a subtilezas. No fundo, Gibson é o homem comum, de hoje e de sempre - de Babilónia, de Roma, de Cartago e de Nova Iorque - ávido por sensações fortes não elaboradas, convencionais e previsíveis. O seu encanto reside, precisamente, na linearidade e segurança com que manuseia o conhecimento do homem comum - opinativo, moralista, maniqueísta, seguro e assertivo - sobre temas por todos conhecidos, sem ter de se arvorar em divulgador; logo, Gibson é "como nós", pela sua voz escoa-se a "nossa voz", os "nossos valores", as "nossas certezas". No fundo, evoca o mágico folhetim de Oitocentos, a capa-e-espada que todos liam em suspenso mas cujo fim era por todos ansiado e conhecido. É a banalidade burguesa em todo o esplendor.


Contudo, a fita não deixa de ser polémica, concitar debate ideológico aceso e permitir uma interessante revisão de lugares-dados da cultura esquerdista que se foi instalando desde a década de 40.


O primeiro, mau grado o anacronismo (a chegada dos castelhanos) é o da Leyenda Negra. Como me lembrou há dias o Professor Vasconcelos Saldanha, o principal veículo desssa lenda infamante da reputação ibérica foi Bartolomeu de las Casas, bispo de Chiapas e autor da tristemente célebre Brevíssima Relación de la destrucción de las Índias (1552). Las Casas era um louco, um mitómano e um obecado, um daqueles ardorosos pregadores cujo equilíbrio não resistiu ao calor dos trópicos. Infelizmente, à delirante safra de Las Casas não se apõe a leitura de Cabeza de Vaca, bem mais contido na descrição dos usos e costumes dos índios e observador atento das suas práticas. As sociedades ameríndias - sobretudo aquelas que atingiram culminâncias de complexidade, vida urbana e organização pré-estatal e estatal - assentavam na depredação, na escravização, etnocídio sistemático dos seus vizinhos e devastação ambiental. Quando Cortez desembarcou no México, teve de imediato ao seu serviço senhores e reinetes de tribos subjugadas, chacinadas e atormentadas pelos Astecas. Quis a lenda edílica das "sociedades perfeitas" - ah, como Marx deixou sulco, como tantas Ruth Bennedict continuaram a contar mentiras douradas até aos dias de hoje - fazer crer que a raíz do descalabro das civilizações pré-colombianas fora a chegada do bandido branco. O branco levara o tifo, a gonorreia, a sífilis, os tormentos do chicote, das grilhetas, do trabalho e da alienação a povos pacíficos, "naturais", livres e sábios. Para os sonhadores desse paraíso realizado, os Maias seriam o epímote de uma sociedade de matemáticos e astrónomos onde o saber era a virtude cardeal.


Um outro aspecto que merece discussão prende-se com a formação do realizador. Sendo Gibson um católico tradicionalista, algumas das suas preocupações sobre a sociedade contemporânea fazem eco de uma estrita interpretação da Bíblia e da ideia de um pacto com Deus, cuja desobediência incorre na ira divina. Os sacerdotes maias fazem o retrato perfeito dos idólatras e das "falsas religiões" que abundam no Antigo Testamento: seres cúpidos, arrogantes, mentirosos e manipuladores ( o sorriso do sacerdote perante o medo da multidão em pleno eclipse solar) desconhecedores dos mandamentos pela prática de "coisas terríficas". Para Gibson, a cidade Maia é uma Sodoma e uma Gomorra, condenada, doente e votada ao desastre pela desobediência ao plano de Deus para os homens. Esta piedosa perspectiva pode fazer as maravilhas de um público mono-cultural, mas esconde a complexidade da evolução do cristianismo primitivo - com a sua longa genealogia de sínteses e aproximações a outras religiões idolátricas - e, também, a evidência de ter sido o cristianismo, desde a sua génese, um fenómeno urbano. Aqui nasce a contradição. Se a cidade maia era a quinta essência da perversão e da desobediência à lei divina, por que razão elegeu Gibson como herói um selvagem ? O "bom selvagem" - justo, respeitador da natureza, monogâmico, bom pai, valente e bom camarada - pratica a religião natural. Se está intocado pela peste do vício urbano (sem mercado, sem Estado e sem propriedade) pode até ser um "cristão inconsciente"; logo, passível de salvação pelos actos e intenções. Mas vendo tudo aquilo, o poder abstracto que faz da religião maia uma "religão complexa", aproximamo-nos mais dessa forma de viver a religião. Em suma, Gibson encontra-se dividido entre o impulso do deserto dos anacoretas e a aceitação da boa-nova, que salvará in extremis a todos, pecadores, impuros e criminosos por atacado com justos e bons.
É um filme de "direita", sem dúvida, o reflexo do lento apagamento de uma sub-cultura popular de esquerda que dominou os ecrans desde os anos 60 e que teve, no género, um último e grandioso assomo de vitalidade em A Missão, de Roland Joffé.

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