19 janeiro 2007

"Biografias"

Confesso que gosto de ler biografias, posto nos facultarem o acesso às indiscrições e intimidades de figuras que se cruzam permanentemente nas nossas leituras, se impuseram à toponímia e alcançaram aquela imortalidade cívica com que vamos enchendo o tempo morto. Esses "grandes mortos", glosando Maurice Barrès, são venerados, odiados, desprezados ou incensados pela obra, testemunho e rasto que deixaram. Ao longo dos anos, nas férias de praia, nas casernas onde passei cinco anos de minha juventude, nas horas de desocupação da universidade e até em autocarros, comboios e aviões, passei milhares de horas com as biografias que Xenofonte, Suetónio, Carlyle, Emil Ludwig, Stefan Zweig, Gregorio Marañon, Eugène Tarlé e Maurois produziram sobre os homens-mito, os heróis e vilões que preenchem, dão sentido, engrandecem ou danam a espécie humana.


Só há muito pouco tempo, porém - confesso que a ingenuidade só muito tarde se foi esbatendo - me dei conta que biografias e auto-biografias são a ficção da não-ficção, fazendo jus à terrível descoberta de Adler, segundo o qual nunca nos conhecemos para além daquilo que estabelecemos como ficção de inteireza. Os podres, as misérias, as perversidades de carácter e outras maleitas, sempre as afastámos dos gigantes ou, pelo contrário, sempre as absolutizámos para os tornar menos humanos, mais absolutos na síntese de heroicidade trágica ou de encarnação do mal.


Para adensar o mistério humano, o género biográfico foi-se cindindo entre a biografia vital e a biografia espiritual e intelectual dos biografados. O homem que pensa, cria e ascende torna-se diferente do homem que abriga o espírito genial. Temos, assim, que os homens dos estudos literários separaram a obra do autor, chegando ao ponto de repudiar com veemência qualquer possibilidade do fantasma do autor - esse homem mesquinho, ciumento, mentiroso, crápula, odioso e violento - poder interferir com o espírito responsável por obras grandiosas e sublimes. Duvido, pois não compreenderia nada de Miguel Ângelo, Rosseau, Voltaire, Camões, Camilo ou Salazar se não os visse na inteireza dos seus actos, dos mais íntimos aos públicos.


O que me espanta nas biografias dos príncipes das letras, das artes e do pensamento especulativo (Goya, Picasso, Pessoa, Descartes, Hume, Hegel, Nietzsche) é a aridez de umas vidinhas sensaboronas, pouco diferentes daquelas a que estão condenados os comuns mortais. Aliás, se com eles tivessemos privado, só com dificuldade os poderíamos manter no altar da veneração. Um dos homens mais chatos da Königsberg da segunda metade de Setecentos dava pelo nome de Immanuel Kant. A criatura era uma metáfora do bocejo !



Há casos extremos em que a obra parece ser a negação do criador. Benvenuto Cellini, um dos maiores do Renascimento, era um vulgar fora-da-lei, envolvido em homícidios, roubos e demais tropelias, reconhecendo-se-lhe, porém, genialidade e utilidade pública pelo papado. Não tendo qualquer inclinação por platonismos, sempre contrariei a ideia da dupla personalidade das pessoas com quem me vou cruzando. Agora, que se fez luz - finalmente - reúno certificados e provas vitais para ler a projecção espiritual dos homens, ou afiro dos indícios intelectuais marcas da vida biológica e passional antes de me pronunciar sobre as pessoas concretas. Lia há tempos uma biografia de Garrett - Garrett, a vida ardente de um Romântico, de José Calvet de Magalhães - quando dei comigo a sorrir. Se os meninos do liceu, obrigados a ler as Viagens na Minha Terra, soubessem de que pó era feito aquele génio - ah, penso na Midosi - talvez mobilizassem maior atenção e gosto pela tecitura. Se muitos soubessem quem é a "Ofélia" de Pessoa, talvez se apicantasse o interesse pelo deus Fernando. Quem diz Pessoa, poderá dizer Sá Carneiro, Verlaine, Byron, Whitman...


As livrarias estão, literalmente, cheias de biografias. Há quem diga que a coscuvilhice é uma pecha dos espíritos inferiores, que o voyeurismo cresce na proporção da imaturidade e que o prazer pelas revelações inferiores - no exacto sentido da palavra - não passa de um divertimento grosseiro. Recuso, em absoluto. Pelo contrário, inverto os termos. Transformar os "grandes homens" em coisas sem vida, em ideias pairantes, é, sim, prova de imaturidade, inferioridade, crendice e mitomania. Não há melhor meio de revelar um grande homem/mulher que os sentar, absolutamente nús, perante o olhar da história.


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