11 janeiro 2007

Aqui ganhei um lugar no Céu




Foi precisamente neste local, há 3 anos, que ganhei a melhor terminação para entrar no Paraíso em tapete florido. Foi na "Aldeia Cultural" do Camboja, uma feira lembrando os parques temáticos do folkish europeu da primeira metade do século XX, incluindo zoo humano com amostras de espécimes vivos caçadores, pescadores, lavradores, dançarinas -as famosas apsara khmers - e funâmbulos, bem como interminável galeria de figuras de cera sem graça e sem vida. Só lá falta a segunda maior atracção do país, logo a seguir, claro está a Angkor Wat, que dista cinco ou seis quilómetros. Falta a reprodução em cera, se possível no leito de morte, do carniceiro do Camboja, uma simpática e sorridente criatura que das Franças trouxe ódio quimicamente puro, adubado generosamente em marxismo-leninismo: Pol Pot.


Voltemos ao meu passaporte carimbado de aspirante a bem-aventurado. Estava ali naquelas escadas a tirar umas fotos, quando olhei para água barrenta e vi uma criança de colo a debater-se pela vida. A mãe, completamente histérica, dava verdadeiros guinchos de aflição, tão agudos que mal se ouviam. Duas velhas, impávidas, olhavam para aquele drama julgando tratar-se, eventualmente, de uma das rábulas que se vão realizando ao longo do percurso da visita. O miúdo, que teria um ou dois anos, lá desapareceu por fim na sopa malcheirosa. Eu tinha uma máquina cara, as calças acabadas de vestir, sapatos reluzentes, óculos escuros novinhos e um relógio acabado de comprar numa fábrica de contrafacção especializada em "cópias autênticas". A minha parte burguesa disse-me: "vá, não saltes, não estragues o dia". A minha costela de Martim Moniz falou mais alto e atirei-me para aquela balbúrdia de limos, barro, sapos e outras coisas que nem me passam pela cabeça. Salvei o miúdo, devolvendo-o à mãe, que se desfez em orações. Ao sair da fétida sopa, ouvi uma ovação. Eram uns trinta americanos que batiam palmas. Gente enorme, gordíssima, camisas floridas, pernas leitosas e chapéus de palha. Fiquei atónito. Aquela gente sempre estivera ali, não se movera e, por fim aplaudira. Um dos paquidermes acercou-se e disse: "amazing show". Foi nesse momento que compreendi que, durante dez seguntos, trabalhara para o certame. Que o miúdo se salvara, o que importa ? O importante foi encher de entusiasmo aquela mole de miúdos de 50 e 60 anos, mais as rotundas bifas vestidas com aqueles incríveis balandráus XXL.

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