31 dezembro 2007

Ano para esquecer


2007 foi um mau ano. Como as pragas, celebremos hoje com júbilo o seu passamento. Que 2008 seja menos nefasto. No meio de tanto desapontamento, colhi egoísta porção de felicidade proporcionada pela generosidade dos amigos, colegas e familiares, abandonei a barra do Tejo e reconstruo nova vida em paragens ainda não conspurcadas pela sombra da medíocre sujeição que vai alastrando por terras lusitanas. A todos os leitores de Combustões, um 2008 mais feliz.
E como terrível foi o ano, uma bufa interpretação da Viúva Alegre, cujos filhos andam em furiosa sarabanda comemoracionista.

27 dezembro 2007

Pertinente pergunta do Corta-Fitas



O Corta-Fitas submete o seu auditório a pertinente questão: quem é actualmente o melhor colunista na imprensa portuguesa? A resposta possível, parecendo dilemática, não o é, pois limita-se a colocar em confronto a velha elite e a nova elite ascendente. A velha elite exibe nomes que ficarão como referência para uma certa mundivisão anos 60 e 70 - António Barreto, Pacheco Pereira, Vasco Pulido Valente - mas está a perder o pé, fala para si e para as suas memórias. É a repetição de excitações e furores que pouco ou nada dizem à maioria dos portugueses. A nova elite, essa faz na imprensa aquilo que os velhos a não deixam fazer na vida política. Destaco o papel de Rui Ramos, combatido, criticado mas entendido por aqueles que nada querem mudar. No fundo, a nova elite nunca chegará ao poder, o que é duplamente triste, pois não haverá rotação na esfera do poder nem fixação de novos valores alternativos. É por isso que os regimes, em Portugal, estão condenados a morrer de reumático. A prová-lo, o elucidativo vídeo que escolho para ilustrar esta evidência.

26 dezembro 2007

Fardismo


Para os adoradores de passadeiras, galões, divisas, bandas e berloques, a Tailândia é um paraíso. Aqui, quem não tem uma farda não existe. Há farda para a escola primária, farda para o secundário, farda para a universidade, farda para cerimónias académicas, farda para funcionários públicos e empregados de supermercados, farda para gasolineiros e empregados dos correios, farda para taxistas e empregados de hotel, farda de passeio e serviço para ministros e directores-gerais, farda para empregados da limpeza. Até os candidatos ao parlamento disputam a mais bela farda para o cartaz da seriedade. Antes que o lixo eleiçoeiro recolha ao seu cemitério, tirei algumas fotos aos cartazes fronteiros à minha casa. Aqui, três candidatos de um partido monarquíssimo, nacionalistíssimo e religiosíssimo. Parecem três actores de telenovela, que aqui leva o nome de lakhon-tee-wee, mas não: são políticos empedernidos prontos para as mais duras batalhas da oratória parlamentar. Ao menos têm um palminho de cara. Estão a ver a Odete Santos, a Maria de Belém ou a Matilde Sousa Santos metidas numa farda ? Pois, seria algo entre um salsichão a rebentar pelas costuras e um queijo da Serra amanteigado a sair de dentro de uma casaca medalhada.

24 dezembro 2007

Feliz Natal



Para o João Gonçalves, o meu despertador matinal, que me faz gargalhar e indignar, um Natal cheio de Paz e Irreverência, duas coisas desaparecidas do espírito e dos modos dos portugueses.

23 dezembro 2007

Visita obrigatória


A história breve de como os estrangeiros nos roubaram a alma.

O jovem idealista e o dragão da plutocracia



Hoje é dia de eleições na Tailândia. O confronto opõe o Partido Popular (PPP), dirigido por uma personagem de terceira fila, mandarete do deposto primeiro-ministro Taksin - exilado em Londres - e o Partido Democrático, dirigido pelo jovem Abhisit Vejjajiva. O retorno à democracia carrega, resrvados prognósticos quanto ao futuro imediato do papel que caberá ao Rei, até hoje árbitro e referência obrigatória. Taksin Shinawat, o mais rico homem do país, pretende regressar se o PPP obtiver maioria no parlamento. Afastado do poder por um golpe de Estado, tem manobrado nos arcanos, abrindo imensa saca de dinheiros para comprar candidatos e apelar à reforma profunda da vida política nacional, o que aqui quer dizer - sem o dizer - retirar protagonismo e peso à instituição real. É o velho choque entre o poder da tradição e o poder do dinheiro. Taksin quer, todos o sabem, diminuir a intervenção da coroa e, quiçá, vir a colocar-se como putativa alternativa à monarquia. O grande capitalista dá-se ares de preocupações sociais. De discurso populista e demagógico, os candidatos do PPP apontam baterias à "aristocracia conservadora", às Forças Armadas e ao Funcionalismo do Estado, acusados de monopolizar e perpetuar o peso do aparelho do Estado. Contudo, a história recente tem-no demonstrado, a possibilidade de retirar ao Rei prerrogativas envolve tremendos perigos para a unidade nacional, tanto mais que a Tailândia é um puzzle de etnias e religiões e qualquer mudança tendente a concentrar poder num sector da sociedade civil far-se-á em detrimento da harmonia conseguida ao longo de 50 anos de intervencionismo do actual Chefe de Estado. Anteontem fui às compras e cruzei-me com Abhisit em plena rua. Pedi-lhe que me deixasse tirar uma fotografia. Sorriu e, com afabilidade, perguntou-me de onde era. É o típico quadro superior da urbana, educada e influente classe dirigente que cerra fileiras em torno do Rei. Este jovem idealista, que fala de pátria, unidade nacional, justiça e desenvolvimento sustentado é o oposto de Samak, o homem de Taksin, uma figura truculenta, maciça e agressiva cujo passado carrega o mais reservado juízo a respeito da seriedade com se entrega à vida pública. Samak foi ministro do interior em 1973 e foi sob ordens suas que milhares de estudantes foram presos e massacrados no campus universitário. Depois, foi governador de Banguecoque e o desempenho saldou-se por um fiasco clamoroso. Ultimamente rendeu-se à munificência do Midas tailandês e por ele fará tudo para ocupar um lugar, por sinal bem triste, numa eventual reviravolta dramática da vida deste país.

22 dezembro 2007

Extinguir partidos políticos


Nada há de mais incongruente numa democracia que o acto jurídico de extinguir partidos políticos. Os partidos, grandes ou pequenos, com ideias ou sem elas, honestos ou desonestos devem ser extintos pela ausência de votos. O eleitorado que os extinga virando-lhes as costas, votando-os ao desprezo. Não cabe a nenhuma Mesa Censória, a nenhum Conselho Nocturno, a nenhuma vestal da pureza ou a nenhum vigilante impedir que cidadãos participem em actos eleitorais. Se os partidos incorrem em actos considerados lesivos das regras do jogo, que sejam punidos, mas punidos pela natureza das infracções. Alertado pelo recurso apresentado por Pedro Quartim Graça, nada mais posso fazer que exprimir solidariedade por todos os "pequenos partidos", da extrema-esquerda à extrema-direita, agora ameaçados de desaparição por uma nova Lei dos Partidos que vai transformar o nosso sistema democrático numa torpe caricatura da liberdade. Com quejanda legislação serão extintos sem apelo o PPM, o POUS, o MRPP, o PNR, o PND, o MPT e o PH. Ora, estes partidos exprimem correntes, minoritárias é certo, irrelevantes eleitoralmente é claro, mas merecedoras da protecção e atenção devida a todas as sensibilidades que, juntas, oferecem o retrato da sociedade portuguesa. Acresce que alguns dos pequenos partidos sem representação parlamentar são detentores de invejável património programático e que pelo pioneirismo com que se entregam à difusão de novas ideias são verdadeiros aceleradores das discussões magnas por onde passa o futuro da vida política nacional. Sem eles, habituados à roncante mediocridade que impera nos partidos com representação parlamentar, a democracia portuguesa ficará, definitivamente, nas mãos de pequenos habilidosos de discurso redondo. Como serão tristes e convidativos à abstenção futuros pleitos eleitorais sem a rebeldia dos "pequenos partidos". Veremos, brevemente, perante a desertificação que avança, surgir uma lei obrigando, sob terríveis penas, o corpo eleitoral a votar. Uma democracia fundada na coercividade é uma não-democracia. Para lá caminhamos.

21 dezembro 2007

Leandermania

Para os grandes ornamentalistas


.... do Oriente com votos de um Santo Natal e um Ano Novo plein de cadeaux para Je Maintiendrai (como é bela a nossa Zarah Leander), Exactor, Bic Laranja, Jansenista, Miss Pearls e Afinidades Afectivas.


Heimat, deine Sterne, por Hans Wocke (1942)

Heimat deine Sterne,
Sie strahlen mir auch an fernem Ort.
Was sie sagen, deute ich ja so gerne,
Als der Liebe zärtliches Losungswort.
Schöne Abendstunden,
Der Himmel ist wie ein Diamant.
Tausend Sterne stehen in weiter Runde,
Von der Liebsten, freundlich mir zugesandt.
In der Ferne träum' ich vom Heimatland.
Stand ich allein in der dämmernden Nacht,
Hab ich an dich voller Sehnsucht gedacht.
Meine guten Wünsche eilen,
Wollte nur bei dir verweilen
Warte auf mich in der Ferne.
Heimat! Heimat deine Sterne,
Sie strahlen mir auch an fernem Ort.
Was sie sagen,
deute ich ja so gerne,
Als der Liebe zärtliches Losungswort.

20 dezembro 2007

A "fuga" para o Brasil: um exercício de história comparativa


15 de Novembro de 1940. Uma imensa frota composta pela totalidade dos efectivos da Royal Navy, deixa os portos da Grã-Bretanha, prevendo-se a sua formação em comboio nas imediações da Islândia. No navio-almirante da RN, o cruzador de batalha HMS Hood, seguem o rei Jorge VI e a rainha Isabel, enquanto o recentíssimo King George V transporta as princesas Isabel e Margarida. Os restantes membros da família real viajam em outros couraçados e cruzadores, assim como os soberanos e governos exilados da Holanda e Noruega. O primeiro ministro Winston Churchill, acompanhado pela família e por altas patentes da Armada, segue no Repulse, encontrando-se o gabinete de guerra britânico espalhado, também por razões de segurança, por outros navios.Couraçados, cruzadores, porta-aviões e todas as unidades menores e auxiliares são acompanhadas por centenas de navios de comércio, carregados de documentos, oficiais do exército, marinha e RAF, além do tesouro do Banco da Inglaterra. O destino é o Canadá, refúgio onde o legítimo governo estabelecerá a base para a continuação da guerra contra a vitoriosa Alemanha. As Ilhas Britânicas estavam na iminência de ser totalmente ocupadas pela Wehrmacht, após o sucesso do Adlertag e da Operação Leão Marinho. Centenas de quilómetros a sul, a esquadra do Mediterrâneo Ocidental, escapando à destruição no porto de Gibraltar, recolhia em Lisboa o governo de Salazar e o presidente Carmona. Acompanhada pela pequena mas recente esquadra portuguesa, tinha como destino provisório os Açores, onde a soberania seria mantida. Esta retirada tornara-se imprescindível pelo desencadear da Operação Isabella, que reunindo o exército espanhol de Franco e os efectivos alemães destinados à ocupação de Gibraltar e de Portugal, previa a transformação da Península numa base avançada do Eixo, fechando o Mediterrâneo e o Atlântico Norte à navegação aliada.

Era este um cenário possível, no caso do colapso britânico no Verão-Outono de 1940. A transferência do governo inglês para um outro território da Commonwealth, deixaria intactas as possibilidades quanto ao desfecho da guerra mundial iniciada um ano antes. Negando-se à rendição, não existia qualquer probabilidade de entrega forçada da esquadra e de qualquer território ultramarino, ao mesmo tempo que os Estados Unidos eram forçados a reagir à nova situação criada. Essa retirada, seria hoje encarada como um alto serviço prestado ao mundo e à causa Aliada e uma clara demonstração de firmeza e determinação. Podemos imaginar apenas o que escreveriam os historiadores do nosso tempo, mas decerto a avaliação não poderia deixar de ser positiva.

***

Em absoluto contraste, temos uma vez mais a realidade portuguesa, que após 200 anos decorridos sobre a invasão franco-espanhola, ainda discute a conveniência ou o acerto da transferência do governo e corte para o Brasil, apodando-a muitos - os mesmos de sempre -, como fuga. Não se foge quando a bordo da quase totalidade esquadra real parte o governo em peso, a rainha e o regente com a família, o tesouro do Estado, a biblioteca real (que ficou para sempre no rio de Janeiro), documentos e bens de toda a espécie. Acompanhada por muitas dezenas de navios de comércio, a esquadra de guerra furtou-se à sua utilização por Napoleão. O príncipe regente e a família, símbolos da soberania, não vão negociar nem espolinhar-se aos pés do Corso. Chegado ao Rio, o soberano tem como primeira medida declarar guerra à França, guerra esta que se prolongará até à entrada do exército português em Toulouse (1814). Em toda a Europa, o presidente-coroado Napoleão I tinha manipulado, ofendido e humilhado os soberanos e as nações. Retalhara impérios seculares, criara novos Estados à medida dos seus interesses e da sua família. Espezinhara direitos adquiridos e violara todas as regras da diplomacia, levando Talleyrand a pronunciar a célebre frase ..."o que é excessivo torna-se insignificante"... Bonaparte estabeleceu uma tirania em todo o continente, impondo pautas aduaneiras abusivas, saqueando recursos dos países ocupados e estabelecendo a desigualdade como base de consolidação da França imperial. A política de destruição e de saque, acompanhada por todo o tipo de atrocidades sobre as populações era o quadro geral que se oferecia. Contudo, sempre houve quem entendesse ir ao encontro do invasor, procurando o entendimento possível que permitisse o exercício de um qualquer tipo de poder, por muito ilusório que fosse. Assim aconteceu com a deputação enviada à pressa a Baiona, prestando vassalagem ao conquistador que já tinha como refém o sogro do príncipe regente, o rei Carlos IV de Espanha. Cedendo e negociando, a Espanha sujeitou-se a todas as arbitrarieades imagináveis, tendo mesmo que suportar a colocação no trono do inepto José Bonaparte, arvorado em simples maire de Madrid com o pomposo título de rei da Espanha e das Índias. Numa época em que a honra ainda contava no âmbito das relações internacionais, o futuro D. João VI poupou-nos a tudo isto. No memorial de Santa Helena, Bonaparte acaba por reconhecer o fracasso da sua política no ocidente, quando viu frustrado o seu projecto de capitulação portuguesa. Nada surpreendente é a posição da generalidade dos académicos brasileiros, que julgam esta transferência da corte e governo de uma forma absolutamente positiva. Não se encontrando comprometidos com os interesses e "legitimações" dos regimes que têm vigorado em Lisboa, estabelecem a partida da família real como um marco imprescindível para a compreensão dos acontecimentos que, tendo garantido a sobrevivência de um Portugal independente, conduziram também à pacífica independência do Brasil. E nisto são inamovíveis. Os náufragos da putrefacta barcaça de 1968 encontram sempre motivos para o amesquinhar da nossa História. Desprezando o povo de que fazem parte, são eles, em suma, os principais responsáveis pela actual situação de ignorância, cobardia e desânimo vigentes. Do alto das suas pretensas cátedras, não ensinam: balbuciam lugares comuns, enraízam preconceitos. Intimamente, têm consciência da sua pequenez, não pesquisando e rejeitando todo o trabalho sério que possa abalar as suas periclitantes e rizíveis certezas. Destes, Portugal nada pode esperar. Não alfabetizaram, não despertaram um verdadeiro espírito científico nos estudantes e pior que tudo, são totalmente incapazes de construir a base mais sólida de qualquer verdadeira democracia: o espírito cívico. Estejamos ou não em desacordo com Mário Soares - como geralmente estamos -, há que reconhecer que tem sido a única figura pública a tecer comentários válidos acerca dos sucessos do Outono de 1807, assim como à histórica transcendência da decisão de D. João VI e do seu governo. A sua já longa vida, o sentido de oportunidade e, talvez, um certo renascer de um esquecido orgulho nacional, não o têm calado nesta época do Centenário. Não há dúvida que comparando-o ao nanismo mental vigente hoje em Belém e S. Bento, o homem parece agigantar-se, não perdendo qualquer ocasião para vincar aquilo que verdadeiramente interessa. Nem a sua paixão pela França parece fazê-lo esmorecer. Só lhe fica bem, mas espero que esta capacidade de discernimento lhe venha permitir fazer outro julgamento acerca de outro centenário que se avizinha: o do Regicídio. Esperamos para ver.

E Lucas Pires triunfou no Sião


Chegou com tímida afabilidade, armado de sorriso e obra. Foi ontem no Patravadi Theater em Tonburi, na margem oposta de Banguecoque, que Jacinto Lucas Pires, um dos mais destacados escritores portugueses da nova geração apresentou Universos e Frigoríficos, agora em tradução vertida para língua tailandesa por Puchong Dejakom. Um sucesso absoluto, com casa cheia até à porta, muita imprensa e, sobretudo, muitos lusitanistas. Lucas Pires portou-se à altura e conquistou a plateia confessando o amor recente pela Tailândia. O público siamês, habitualmente pouco expansivo, rendeu-lhe demorada aclamação. Uma vitória para a literatura portuguesa num gesto de verdadeira diplomacia cultural a que não faltou o nosso embaixador no Sião, Faria e Maya, cujo trabalho começa a render frutos. Hoje, na velha mansão apalaçada da embaixada, almoço com Jacinto e meia dúzia de excelentes conversadores. É aqui, longe de casa, que sinto uma pontinha de orgulho - daquele que provoca pele de galinha - sempre que são evocados os séculos ininterruptos de gesta portuguesa no Oriente. Esperemos agora, com o artista refeito do jet lag, que a matéria asiática aflore. À saída, uma foto com Pralom Bunrasamee, outra campeã das coisas portuguesas na Tailândia.

18 dezembro 2007

Os nossos "cães de guarda"


Já nos havia bastado a inépcia dos missionários gauleses para a Ásia expedidos pelo Rei Sol - que aqui semearam sizânia q.b. - para nos vermos livres da concorrência dos pregadores da Boa Nova. Porém, em inícios do século XIX, com a Europa em cinzas e parte das colónias europeias asiáticas ocupadas manu militari pela Union Jack, a London Missionary Society, mas também a American Board for Foreign Missions, começaram a querer reescrever a história do cristianismo na Ásia, mudando-lhe o registo e procurando impor a gramática de Lutero, Calvino e toda essa turbamulta de iluminados que convencionamos crismar como "protestantes". Gente sem qualquer preparação, fanática, intolerante e perfeitamente indiferente ao meio, começou a demandar a China, a Insulíndia e o Sião. É evidente que nada conseguiram, mas do seu porfiado como vão esforço ficaram relatos e memórias desses pregadores do "Gospel"que merecem a maior atenção.
Leio presentemente um fantástico Early Missionaries in Bangkok: the Journals of Tomlin, Gutzlaff and Abeel 1828-1832 para melhor compreender esse outro vector da ocidentalização que foram (e são) as companhias missionárias protestantes. O título peca, infeliz, pela arrogância. Os "Early Missionaries" do século XIX chegaram, por sinal, bem atrasados à reunião: os nossos portugueses já cá andavam na pesca de almas há quase trezentos anos, conheciam a língua, os costumes e instituições e estavam tão envolvidos com a vida dos povos que eram, a um tempo, pregadores, funcionários, médicos, engenheiros e diplomatas ao serviço dos potentados. Que supino atrevimento esse de missionários ad hoc ao presumirem que aqui chegavam e, zás, num toque de mágica, manipular com as suas boticas e sangrias e com o arsenal de medos e apóstrofes, obrigar os gentios a abandonar a "idolatria". Ora, para nos darmos conta de quão entranhados estavam os portugueses nestas paragens, nada melhor que deixar o inimigo falar. O inimigo, neste caso, Jacob Tomlin, que chegou ao Sião em 1828 e foi confrontado, no primeiro encontro com as autoridades siamesas, com o comandante do porto de Banguecoque - um "português", isto é, um católico - e, logo de imediato, com o Praklang/Barcalão [Ministro dos Exteriores], bem assessorado por "portugueses". Nada melhor que um naco de deliciosa prosa para elucidar os nossos leitores:


"Sabbath August 24 th, 1828: "I called Mr. Hunter and went with him to the Captain of the Port. He is head of the Christians residing in what is called the Christian Campong. (...) He speaks a sort of Portuguese English, seems a mild, candid, inteligent spirit (...). We went together to the Phra Klang's and found him sitting on a bamboo platform in the corner of a carpenter's shop contiguous to his house. Gutzlaff was already there. The Captain, who interprets, with several other Catholics, sat crouching behind us like dogs".


O elogio não cabe na letra das palavras. Sim, os católicos "portugueses" eram os cães, mas os cães de guarda do Sião, impedindo qualquer cedência e qualquer manipulação. Acresce que, conhecendo o país ou sendo dele naturais, cumpriam as regras da etiqueta, coisa que não passava pela cabeça dessa gente recém-chegada das pocilgas dos portos londrinos. É evidente que nada conseguiram. Regressaram, cheios e desculpas, aos portos de onde haviam partido. Os portugueses", que aqui já estavam há trezentos anos, aqui permaneceram. Hoje, os 500.000 católicos tailandeses são a memória dessa presença.

17 dezembro 2007

Annunziata do Vantagem Comparativa

Pensava haver perdido os admiradores desde que me mudei com armas e bagagens para as Ásias. Tantos amigos eu tinha que me sentia o mais afortunado dos blogadores. Saí de Lisboa, deixei a barra e perdio-os quase todos. Longe dos olhos, longe do coração ! Qual não foi o meu espanto quando hoje, com tantas ligações do Vantagem Comparativa, fui confrontado com um saboroso prémio, na companhia de outros três virtuosos: Jansenista, Mar Salgado e Portugal dos Pequeninos. Deu para recarregar o Ego. Obrigado.

15 dezembro 2007

A cimeira da mequetrefagem


Vi em diferido a assinatura do tal Tratado. Aquele ajuntamento de burocratas não se trata de ralé, mas muito pior, de uma micro burguesia foleira, grosseira, pindérica e analfabeta que discursa banalidades. O último a chegar foi Sarkozy e o que fez ? Saiu do carro, voltou as costas a quem o esperava junto à entrada dos Jerónimos e foi conversar com os jornalistas! Uma ministra dos Negócios Estrangeiros de um dos 27 - não consegui descobrir de quem se tratava - chegou com um vestidinho estampado e aconchegava-se num casaquinho de malha muito apertado, assim a modos de quem vai à Ribeira comprar grelos. Alguns dos chefes de Estado e de governo eram enormes - creio que vindos dos países que irromperam na Europa Central ou no Báltico - encaixavam-se em casacos muito apertados e a mole de carne imensa de cada um deles rebentava-lhes por fora do corpanzil e tinham um ar mesmo pândego; uns mequetrefes que mais pareciam integrar uma procissão de abortos em exibição. Safavam-se alguns, claro: Gordon Brown - que esteve para ser marido da princesa herdeira da Roménia - só veio no final do almoço no Museu dos Coches. O pagode ministerial nem olhou para os coches! Estavam todos muito contentes com uma "mão cheia de nada e a outra de coisa nenhuma"! Uma saloiada à portuguesa! Afinal, à europeia! Está tudo, cada vez mais igual! Onde estão na Europa verdadeiros ministros e grandes senhores como Disraeli, Gladstone, Salisbury, Churchill, Briand, Schuman, Chaban-Delmas, Cavour, Orlando, De Gasperi, Aldo Moro, Cánovas del Castillo, Sagasta e Romanones, esses verdadeiros profissionais da política com biblioteca montada em casa ?

12 dezembro 2007

O que não se disse na cimeira de Lisboa


Mugabe
Muito se falou acerca da conveniência ou não da presença do senhor Mugabe que é acusado, sobretudo, de violar os direitos da oposição. Quando as genialidades omnipresentes dos nosso media falam contra o seu regime, omitem cuidadosamente as causas do verdadeiro estado caótico da economia do Zimbabwe, vítima sobretudo da expulsão dos farmers brancos que se viram espoliados de tudo o que tinham. Em nome da devolução de terras - aliás um processo agora também em curso na bolivariana Venezuela -, destrói-se de forma irreparável toda a estrutura produtiva do país. Se as injustiças na repartição eram evidentes, os acontecimentos ocorridos já há trinta anos do lado de lá da fronteira, aconselhariam mais prudência. O ódio racial, o simples ódio, demente, malfazejo e vingativo, pode mais. Quem não se lembra dos ataques e morticínios à pedrada a tudo aquilo que era branco? Nada escapava, desde os homens aos animais domésticos! Compreende-se bem o silêncio do regime quanto a certos factos. É que revelá-los ou mencioná-los belisca a boa consciência de uma certa esquerda, perita em retoques à fotografia da história. Criticar a perseguição do regime incapaz de Mugabe aos brancos seria reconhecer aquilo que aconteceu em Moçambique, quando Samora levou à saída precipitada de toda a população branca do território, condenando o novo país à miséria e exploração por parte daqueles que com a Frelimo cooperaram no intuito de substituirem os portugueses: o finado bloco de leste e os nossos "amigos e aliados" dinamarqueses, suecos ou holandeses. Gordon Brown decidiu não comparecer e fez bem. Durante muitos anos, os sucessivos governos de Londres contra Portugal bateram-se para a entrega de Moçambique a gente que em nada fica a dever ao senhor Mugabe. Quem não se lembra do bloqueio ao porto da Beira, das iniciativas na ONU e à acção nefasta das igrejas protestantes na África portuguesa? Os ingleses acabaram por saborear o amargo remédio que nos fizeram tomar durante anos. Agora já é tarde e nem a queda de Mugabe poderá remediar uma situação que se tornou irreversível.

Desenraizados e sem recursos para trabalhar e reconstruir as suas vidas, os chamados "colonos" da antiga Rodésia devem hoje lembrar-se daqueles já distantes anos em que preferiram ignorar aquilo que se passava em Moçambique, onde uma potência europeia impunha a sua presença em África. Para eles, a Rodésia era independente e, assim, estavam seguros. A verdade é que ninguém está hoje seguro em África, seja magrebina ou subsaariana. Os ditadores de pacotilha mandam e desmandam, roubam e matam.


Fomos considerados colonos, mesmo aqueles de quinta geração. Ora, a realidade é bem diferente, porque os senhores que hoje comandam as chancelarias ocidentais poderão ser confrontados um dia com uma opinião pública que já em muitos países - e sem razão - considera
os imigrantes como ... colonos ! O disparate anda sempre acompanhado pela distorção dos factos e faz parte da natureza humana, seja o homem branco ou negro. Duvido muito que os ingleses e a UE estejam demasiadamente preocupados com os matabeles ou os xhosas. Com vergonha em o reconhecer abertamente, insurgem-se na verdade, contra a expulsão daqueles que outrora tinham transformado a Rodésia-Zimbabwe no celeiro da África austral. Na sua habitual patetice, feita da ignoância, preconceito e medo do tribunal da história, o ministério sito nas Necessidades,
vai a reboque. Mugabe é mau, isso é, mas há que não especificar claramente o porquê de tal adjectivo. É que existe em Portugal um milhão de antigos refugiados que podem começar de novo a perguntar demais e isso não é conveniente. Envolve dinheiro, reputações e sobretudo, votos.


Kadhafi
O antigo bombista de aviões de turistas. O velho protector de grupúsculos de terroristas que atacavam autocarros escolares. O financiador de comandos que assassinavam atletas olímpicos. Aquele que sempre recebeu de braços abertos todos aqueles que fugiam à justiça. Esse mesmo, esteve também em Lisboa. Chegou de forma espampanante - pelo menos julga ele- rodeado de gorilas-fêmea e de sedas. Instalou-se em tendas, trouxe um gigantesco Mercedes blindado. A sua deslocação deve ter custado uma fortuna ao pobre contribuinte de Bardia, Tobruk ou Kufra, que de burrico vende tãmaras de souk em souk. São assim os poderosos das novas nações, inventadas a régua e esquadro. Sem chegar ao nababismo de um tal José Eduardo dos Santos,
Kadhafi lá fez o costumeiro discurso anti-ocidente, exigindo ainda uma indemnização europeia aos novos estados africanos, coisa que ele próprio devia fazer relativamente ao seu próprio povo. Toda aquela prepotência e arrogância. Toda aquela impúdica estupidez e brutalidade só existem, porque já há cinquenta anos, alguns permitiram que essa gente se guindasse ao poder. Por interesse, decerto. A recepção feérica que Sarkozi dispensou ao Senhor das Tendas esclarece-nos: é que há um bilionário negócio com aviões e helicópteros. Triste mundo.

10 dezembro 2007

A gruta


Nem por encomenda se poderia ter em Lisboa, dias a fio, com tamanho estadão, a fina-flor do entulho dos ditadores, cleptocratas, genocidas e demais benfeitores da humanidade. O tal "espírito de Lisboa", que João Gonçalves, sem dúvida o maior polemista da actualidade tão bem tem captado é, afinal, a rendição da Europa à estulta como ingénua pressuposição que tal gente, de mãos tintas de sangue, se converterá ao "diálogo", à "tolerância" e aos preceitos que a ética democrática ocidental inscreve no frontão do templo da Liberdade. Os ditadores, se de esquerda, têm sempre atenuantes. Lembro a vergonhosa adulação com que Tito, Ceaucescu, Samora e Castro eram recebidos nos areópagos internacionais, como lembro também, a oposta recepção que era feita aos "ditadores incorrectos": Pinochet, Mobutu, Marcos e Suharto. Nisto há dois pesos e duas medidas. Os mortos de esquerda triplicam em valor os mortos de direita; as vítimas da esquerda são vítimas do "processo histórico", enquanto as vítimas das direitas são "mártires da Liberdade". Lisboa conseguiu, finalmente, transformar-se em gruta de Ali-Babá, com muitos ladrões e sem nenhuma vergonha.

05 dezembro 2007

Um dia para não esquecer (6): fogo real


Extenuado, não quis seguir o cortejo que se concentrou frente ao Palácio Real. Manda a prática que pelas sete e meia, quando o Rei abandona a cerimónia budista no Wat Phra Kew, a multidão acenda uma vela e entoe as velhas canções patrióticas que fizeram deste reinado o mais longo e próspero da história recente do país. Regressei a casa. Porém, uma surpresa aguardava-me. Os meus vizinhos apinhavam-se no hall do prédio para, juntos, celebrarem o aniversário com cânticos de louvor a Rama IX. Tendo faltado à cerimónia das velas, foi aqui que a segui. Entoado o hino nacional e os vivas ao Rei, cada um foi plantar a sua velinha no canteiro da entrada.


Long live the King of Siam

Um dia para não esquecer (5): o monarca e o seu povo


O Rei da Tailândia, que subiu as escadas do trono em 1946, é um verdadeiro prodígio político. Quando assumiu funções, a monarquia havia sido confiscada por ditadores-regentes, uns fascizantes com sonhos presidencialistas, outros deslumbrados pela ideia de uma "República Popular" à imagem dos tristes satélites e peões da URSS e da China maoísta. Rama IX foi-se impondo ao respeito do povo e desmontou, um a um, os argumentos da clique politiqueira que desde 1932 transformara o país numa fruste cópia dos regimes autoritários que fizeram história no entre-guerras, ou no imediato pós-guerra. A Revolução que Rama IX desencadeou assenta, desde então, na fusão de nacionalismo, budismo e democracia representativa, forças potencialmente explosivas mas aqui direccionadas para uma síntese que se tem dado bem. O rei promoveu a reforma agrária, fomentou e dignificou a agricultura, decretou o ensino obrigatório para todas as crianças - a Tailândia só tem 1% de analfabetos - e lançou uma rede de grandes planos de fomento social e contenção dos estragos causados por uma imparável industrialização. O homem é idolatrado e os tailandeses sabem que lhe devem a vitória militar sobre o comunismo - o PC da Tailândia desencadeou guerrilhas a partir de 1966 - e a promoção da sociedade civil. Deve-se-lhe, também, a protecção e promoção dos direitos das mulheres, a luta contra a toxico-dependência, a solidariedade para com as vítimas do SIDA, a protecção às crianças orfãs e um interminável esforço na luta contra a corrupção e o autoritarismo, velhas doenças do Estado. Vi-o hoje no sua blindada limousine. As pessoas ajoelharam-se, choraram e chamaram pelo seu nome. Um coro tremendo saudava-o com um Son Phra Ja-roen, o que na língua real - os reis possuem, como no Japão, uma língua exlusiva - se pode traduzir em "tenha uma vida longa e cheia de saúde". Pela segunda vez comovi-me. Quem me dera ter um chefe de Estado assim !

Um dia para não esquecer (4): os pilares da autoridade







Hoje não há parada, mas as Forças Armadas - que estão no poder, diz-se com o beneplácito real - vieram em peso para desiludir quem pense em contra-golpes. Estamos a duas semanas das eleições que reporão a legalidade democrática, mas a Tailândia, mais que uma democracia constitucional, mantém-se uma monarquia. Aqui o Rei tem a última palavra a dizer. Oficialagem dos três ramos (tahan bok/ Exército; tahan rewa/ Marinha; tahan agard/ Força Aérea), mais Guarda Real, Milícias e Polícia enxameiam os passeios. As fardas são esplêndidas, impecáveis e altivas. Aqui respeita-se o uniforme. Soldado que se preze não o larga e a população adula-os com sorrisos e vénias. Vejo, também, aqui e ali, com o seu semblante ausente e meditabundo, monges budistas, de açafrão enrolados e sobrancelhas rapadas, como manda a tradição eremita siamesa.

Um dia para não esquecer (3): a força do povo




Apanho um tuk tuk - motorizada-táxi com caixa para dois passageiros, sucedâneo do velho riquexá - e atravesso a grande metrópole em direcção a Ratchadamreong, a enorme artéria de oito pistas que rasga o coração histórico da capital siamesa, local dos grandes ajuntamentos e sala de visitas do país. É aí que se situam os ministérios, o velho palácio real de Dusit e o Wat Phra Kew (templo do Buda Esmeralda). Um mar de gente - serão 300.000, 400.000, 500.000 - desloca-se para o maior evento do ano. Uma mole de amarelo vestida, bandeiras nacionais tricolores e bandeiras douradas da casa real. Com a impunidade de farang (europeu) circulo ao longo da avenida, coisa a que nenhum thai se atreveria, pois aqui a polícia é senhora e dona. Vou tirando fotos avulsas. Crianças de colo, idosos, ricos e pobres, a burguesia dos negócios, a burguesia do funcionalismo, os calceteiros, carregadores e operários do Isan (região deprimida da Tailândia), estudantes das universidades, , gente minúscula e gente de cabedais junta e sorridente, fazendo jus ao turístico slogan do "país do sorriso". Dizem que ali estão desde ontem, para melhor poderem ver o seu Rei. Curioso não ter assistido a altercações, gritos, discussões e empurrões. Até os sisudos policias estão descontraídos e, coisa rara, sorriem como o povo paisano. É o grande povo tailandês, de sorriso quase infantil, que ali está em peso. Comovo-me e não me revejo em nada que vi até hoje na velha, manienta e afectada Europa.

Um dia para não esquecer (2): a alegria do povo chão


Saio de casa em em plena soi (ruela), cruzo-me com dúzias de pessoas cujos rostos me são já familiares: vendedores de rua, mulheres da limpeza, varredores, donas de casa, cauteleiros, polícias, idosos e crianças. Dir-se-ia não haver outra cor. Todos trajam de amarelo: o meu velho amigo que poderia ter saído de uma gravura orientalista de Oitocentos, o tal que me vende as papaias, as bananas e os abacaxis cumprimenta-me com um "viva o Rei". Adiante, um condutor de táxi-motorizada, diz-me que hoje não trabalha, pois está de festa e vai participar nas cerimónias do aniversário do Dia do Pai (o dia do Rei). O seu cão traja a rigor com o amarelo dourado da realeza.

Um dia para não esquecer (1): o sol vermelho

Seis horas da manhã, 22 graus, tempo "frio" para os tailandeses; o pino do inverno tropical (redoo nau). Acordo ao som de fanfarras. Na mesquita atrás da minha casa, o muezin chama os fiéis do alto do minarete. Uma enorme fotografia do Rei, em oração com muçulmanos, lembra que neste país budista todas as religiões e credos são tolerados, sendo o monarca o protector que a todas ouve, protege e pede lealdade. Faz hoje precisamente 80 anos que Bumibhol, rei da Tailândia, nasceu no exílio numa pequena cidade dos EUA. Sem paixão, mas sem juízos precipitados, desço do meu apartamento. À porta, no hall, um altar foi preparado ao longo da noite pelos funcionários do condomínio, mostrando o soberano com a regalia dos grandes dias, sentado e hierático como cabe a um homem tido como um deus pelos seus compatriotas.

A Grande Farra


A Point de Vue acaba de publicar os dinheiros de algumas listas civis de chefes de Estado. É edificante e merece reflexão:
Isabel II, 15.500.000 Euros
João Carlos, 8.050.000 Euros
Beatriz I, 5.600.000 Euros
Margarida II, 8.600.000 Euros
Carlos XVI, 5.200.000 Euros
Harald II, 15.000.000 Euros
Alberto II dos belgas, 9.542.000 Euros
Henrique do Luxemburgo, 650.000 Euro
Cavaco Silva, 16.000.000 Euros
Sarkozy 100 Milhões (!)
É claro que a dotação para Belém passa sempre entre as malhas da discussão parlamentar, sem que se fale no caso, especialmente na comunicação social. Que contraste com o passado. A estes gastos, temos que somar três presidentes passivos, cada um com as suas mordomias (escritório, carrão, chauffeur e secretária). O atelier da rainha D. Améli, passou para a posse de Sampaio, custando mais 800.000 ao erário. É claro que sai logo um republicano a terreiro dizendo que urgia recuperar o edifício ! Sugiro que para a comemoração da república, o presidente passe a consumir a mesma soma de há setenta anos atrás, como acontecia com D. Carlos. Na verdade, a dotação de D. Carlos I era exactamente a mesma desde o tempo de D. João VI e ainda por cima 20% era imediatamente cedida ao tesouro para minorar o défice. Ficava apenas com o dobro do salário de um ministro. Proponho, em conformidade, que em 2010 o Senhor Presidente receba o mesmo que o marechal Carmona em 1930, assim como o palácio de Belém passe a consumir o mesmo com que tinha de se arranjar naquela data. Havia de ser bonito, lá se iam as dótóras todas, os Mâcedes SLK e os assessores.

03 dezembro 2007

Victoria's Wars


Embrenhado no estudo da história do Sião nos umbrais da contemporaneidade - i.e, da formalização da identidade de um Estado asiático moderno à luz das concepções de soberania, tradição e nacionalismo importadas do Ocidente de Oitocentos - não deixo de acompanhar lateralmente o vertiginoso ritmo editorial de bibliografia dedicada à res asiatica, surpreendendo-me a cada passo pela qualidade, profundidade e actualidade das matérias contida nos títulos que me vão chegando às mãos. É sabido que tais temas não interessam à generalidade dos nossos leitores, nem aos académicos, nem aos decisores políticos. Não fosse o labor de três ou quatro reputados estudiosos dessas questões - Jorge Flores, Vasconcelos Saldanha, Luís Filipe Tomás, Maria Ana Marques Guedes - e para nós, portugueses, esse momento axial da formação do mundo globalizado passaria à margem, tão afanosos andam os nossos historiadores agarrados às minudências de catarpácios dedicados às lutas sociais nas campinas e lezírias do Ribatejo em finais do século XVIII, ao estatuto da mulher camponesa na Vidigueira de 1930, aos cacos de barro encontrados numa herdade de Castro Verde ou à problemática das "lutas femininas" e do "medo do falo" nos contos populares. Tudo questões relevantíssimas, destinadas à poeira das bibliotecas ou à aprovação de uma tese que não altera uma molécula que seja no minúsculo e tristonho ambiente da Universidade Portuguesa.



Devoro neste preciso momento a mais recente obra de Saul David, autor de grande fôlego que já conhecia de um admirável Indian Mutiny e de um arrebatador Zulu. O autor tem-se especializado em questões de história militar britânica, nesse preiamar do imperialismo e do colonialismo que catapultou a Velha Albion victoriana para a posição de império mundial. Tenho mudado de opinião a respeito dos britânicos. Vira-os, durante muito tempo, intoxicado pelo despeitado francesismo ou pelos ecos do republicanismo saloio, como um povo de piratas e aventureiros ávidos e sem pingo de respeitabilidade; a velha tese posta a correr desde os tempos de Napoleão, de Hitler e Estaline, ou seja, dos continentalistas sem visão do mundo. Nestas Guerras Victorianas abre-se-nos em visão panorâmica o cadinho de lutas em que os britânicos se envolveram, da Crimeia à Índia, do Afeganistão à China, ao Sudão à Birmânia para imporem a sua Pax, mas sobretudo a concepção de um mundo aberto ao livre comércio e a ideia de uma comunidade internacional fundada na aceitação de uma cultura diplomática e de um direito internacional que tornasse possível evitar os conflitos armados. Sei que os britânicos - quem não teve pecados no tribunal da História ? - exorbitaram dessa força, que cometeram massacres, desencadearam guerras de agressão não provocadas, que exploraram até às últimas consequências as vantagens da metralhadora (e até do avião, no Iraque dos anos 20) para se apossarem dos pontos vitais por onde passava o comércio e a riqueza mundiais. Mas fizeram-no por uma ideia que veio a triunfar. Fizeram-no, também - preconceitos à margem, racismo à margem - em sintonia com o espírito do tempo. Nesse particular, a força do imperialismo britânico foi, aceitemos ou não, o artífice da globalização da ideia de Estado moderno, da imposição de elites urbanas e letradas e, até, das independências. Sem essas guerras, sem esse grande império, o mundo teria sido diferente, autárcico, fragmentário, regional.


Elgar: Pompa e Circunstância, 1

30 novembro 2007

Quando um Rei celebra os 80 anos


Aquele que é tratado pelo seu povo por Chao Chiwit (Senhor da Vida), o mais antigo chefe de Estado em exercício, artífice da única "Contra-Revolução" bem sucedida no século XX, detentor de poderes extra-constitucionais de natureza estritamente moral vai celebrar, dentro de dias, 80 anos de vida. Banguecoque está coberta de bandeiras, efígies e armas reais, os tailandeses preparam em cada casa - nas fachadas como no interior - verdadeiros altares votivos. Hoje assisti a um ensaio para imenso desfile de jovens de liceus, escolas técnicas, universidades e escuteiros que se prepara para o dia 5. Nos escritórios, nas estações de Metro, no hall dos estabelecimentos públicos e nas ruas, em frente de grandes retratos do soberano, livros e livros carregados de mensagens deixadas pelos passeantes. Pedi a uma amiga que me lesse os comentários deixados pela turba que sem pestanejar aguarda dez minutos, meia hora, uma hora para assinar os livros forrados com pano dourado, símbolo da realeza. De um miúdo de 10 anos, o comovedor "Meu Rei e meu Pai, fica connosco para sempre". De uma mulher do povo, de ortografia infantil e rasuras, um espantoso "Ao menos que a minha vida, que nada vale, servisse para te dar mais mil anos". O Rei está doente, os rumores correm desencontrados, mas não há um só tailandês que não sinta o dia 5 de Dezembro que se aproxima como o mais importante dia do ano. Convido os senhores presidentes a oferecerem-se à apreciação da voz do povo.



Hino Real da Tailândia

Kha Wora Phutthachao,
Ao Mano Lae Sira Kran,
Nop Phra Phumiban Bunya Direk,
Ek Baromma Chakkrin
Phra Saya Min,
Phra Yotsa Ying Yon,
Yen Sira Phrao Phra Boriban,
Phon Phra Khun Tha Raksa,
Puang Pracha Pensuk San Kho Bandan,
Phra Prasong Dai,
Chong Sarit Dang,
Wang Wora Harue Thai,
Dut Thawai Chai, Chai-Yo.

We, Your Majesty's loyal subjects,
Pay homage with deep heartfelt veneration,
To the supreme Protector of the Realm,
The mightiest of monarchs complete with transcendent virtues,
Under whose benevolent rule,
we your subjects,
Receive protection and happiness,
Prosperity and peace.
And we wish that whatsoever
Your Majesty may desire,
The same may be fulfilled.



26 novembro 2007

A vida é uma caixa de surpresas


Em plena festa das flores, o inesperado. A multidão congestionava-se em torno do caís. A princesa real discreteava com um senhor de grande porte, ria-se e pedia mais conversa. Aproximei-me. Espanto dos espantos: falavam sobre Portugal ! Era um dos nossos diplomatas, um amigo que não via deste 2004 ou 2005. Senti, pela primeira vez que aqui estou, orgulho em ser português. Ainsi va le monde.

Unanimidade sem totalitarismo


Wan jan see leang, o que quer dizer "segunda-feira amarela". Todos os tailandeses vestem camisola amarela com as armas reais em sinal de respeito para com o Rei. É a unidade sem constrangimento, a afirmação do respeito pela instituição acima dos partidos, das facções e indivíduos. A Tailândia tem destas coisas espantosas. Um povo livre, orgulhoso da sua independência, tolerante e diverso étnica e religiosamente que todas as semanas presta um belíssimo como comovente tributo de respeito à instituição que simboliza o país. Aqui não houve comunismo e o Ocidente foi filtrado. Neste dia, de fora ficam as barreiras da riqueza pessoal, a hierarquia e o poder de cada um. Do taxista ao vendedor de rua, do ministro ao capitalista da city, do professor ao general, um mar amarelo. Resta, apenas, o orgulho nacional.

24 novembro 2007

Nas ruínas do palácio do aventureiro


Fim de semana em viagem na companhia de um dos mais inteligentes homens de cultura da nossa distante terra para lá dos oceanos. Revisitação dos lugares por onde passaram, viveram e morreram gerações de portugueses; ecos grandiosos e esforçados de uma gesta que teima em assomar à lembrança, mesmo quando, regressados e fechados ao autismo da micro-Europa, as pedras das casas, dos entrepostos e das igrejas entretanto caídas em ruínas nos dizem que fomos grandes, que arrostamos perigos, que o mundo suspendeu a respiração perante a nossa feroz ousadia. Passagem por Lopburi, cem quilómetros a norte de Ayuthia, antiga capital do Sião, onde o Rei Narai mandou edificar um palácio. Este lugarejo, agora entregue ao formigueiro do bazar e dos trabalhos agrícolas, foi testemunha de uma tragédia. Constantino Falcão, o aventureiro grego que servira e traíra os britânicos, que se servira dos missionários portugueses para ganhar a confiança do monarca siamês para logo se transformar em factotum dos franceses, aqui mandou construir um verdadeiro palácio. O homem, vindo do nada mas cheio de expediente e inteligência, galgou a hierarquia do mandarinato até se transformar na eminência parda do monarca. Encheu-lhe a cabeça de mirabolantes ideias imperiais, precipitou uma crise nas relações com os holandeses da VOC e com os ingleses da Companhia das Índias e mancomunou-se com os infames padres das Missions Etrangères de Paris, que serviam mais os ânimos do Rei Sol que o interesse dessas muitas comunidades católicas que jesuítas e dominicanos portugueses haviam laboriosamente constituído ao longo de dois séculos. O nosso embaixador Pero Vaz de Siqueira aqui esteve em 1686 na vã tentativa de alertar o Grande Rei para os perigos em que incorria ao franquear as portas a esses sui generis prelados franceses, génios da calúnia anti-portuguesa e mansos servos da megalomania do monarca de Versalhes. Em vão, pois não lhe deram ouvidos. O Grego subiu ao zénite, fez da sua casa o emblema do triunfo e fortuna. Os siameses - o povo, a nobreza, o exército - não gostaram. A água transbordou quando se fez constar que os missionários franceses se preparavam para converter o Grande Rei. A indignação atingiu o rubro quando um exército francês desembarcou em Banguecoque com a pueril desculpa de vir "proteger o Sião". Revolta popular, revolta do exército, aprisionamento do monarca, já doente e incapaz de controlar os acontecimentos. O Grego foi apanhado à porta da sua sumptuosa mansão, arrastado pelas ruas, cortado às postas e dado a servir à canzoada faminta. Os missionários franceses fugiram e só conseguiram sobreviver graças à protecção dos bons padres portugueses. Quanto ao corpo expedicionário francês, meteu a cauda entre as pernas e retirou-se sem dar protecção àqueles que o haviam mandado vir. Ao olhar para estas ruínas, paradigma da inutilidade de tanto esforço, não posso deixar de me lembrar que os padres portugueses e os católicos por eles semeados eram - e continuaram a ser - respeitados por terras do Sião. Em frente à casa do Grego, a suprema ironia. A rua que conduz às ruínas exibe o nome de Avenue de France !



Jean-Baptiste Lully; Ouverture de la Grotte de Versailles

18 novembro 2007

Calinário em alta


A da Batalha de Alfarrobeira e por uma única razão: considero (fazer ar sério e disfarçar o pretensiosismo) que essa batalha marcou toda história portuguesa. Foi a vitória do provincianismo, dos beatos, da pequenez, do “orgulhosamente sós”, do virar as costas à Europa. Com a morte do Infante D. Pedro (a par de D.João II dos poucos reis, regentes, decentes que tivemos) e a vitória de Afonso de Bragança morreu, em parte, a esperança de um Portugal civilizado.


A blogosfera é um portento. Tanta e boa informação assim vertida ameaça fazer fechar as universidades e lançar às urtigas as bibliotecas. Sim, os bons presidentes portugueses, que tantas batalhas travaram e venceram, que tão alto levantaram o esplendor de Portugal, que por obras e feitos fizeram esquecer Alexandre, Caio Júlio e Augusto, esses - Arriaga, Almeida, Machado, Lopes, Eanes, Mário Nobre, Bensaude e Aníbal - marcaram com letras de ouro a passagem de Portugal pela história mundial. Assim vamos nós, felizes e ufanos, neste país de doutos cálamos e prodigiosa inventividade.


Rodrigues dos Santos na Polé


O processo disciplinar movido contra José Rodrigues dos Santos exibe todos os toques e tiques da mais sórdida tradição portuguesa. Num país onde se desconhece em absoluto a frontalidade, pensar é um delito, opinar um crime e não trazer trela ou açaime uma ignominia. O mais escabroso em tudo isto é o facto de, na boa escola dos brandos costumes, nunca se destruir um indivíduo cara-a-cara. "Você é um inimigo, não o queremos por aqui" nunca sairia da boca de um dos pequenos sátrapas mandatados para fazer calar a criação que se entrechoca na cacarejante capoeira do Ministério da Propaganda do governo. Rodrigues dos Santos sai sem picar o ponto; Rodrigues dos Santos vai almoçar e invoca trabalho externo; Rodrigues dos Santos vai à retrete seis vezes por dia; Rodrigues dos Santos bebe oito bicas e consome nove pacotes de açúcar. É nesta terra que se vive: ao sabor do pequeníssimo coxicho, da insinuação torpe, da filigrana envenenada. O essencial não conta: o importante são os pacotes de açúcar, os telefonemas, o fax indevido, o rolo de papel higiénico a mais, o sabão macaco desaparecido. Lá em cima, no ar condicionado, um homenzinho que eventualmente nunca leu um livro, não sabe escrever duas linhas sem pedir um assessor de imprensa, não sabe consultar um dicionário ou uma lista telefónica tem a supina ousadia de destruir um profissional. Onde estão os processos disciplinares contra a legião de desocupados, os ex-directores e ex-administradores que por lá estão, apinhados como resmas sem nada fazer durante décadas ? Onde estão os processos disciplinares contra os imbecis e incapazes que deglutem milhões e milhões sem nada fazer ? Rodrigues dos Santos, ao menos, fez um mestrado e um doutoramento, escreveu livros, investigou e correu o risco de se expor à apreciação do público. Erro tremendo. Em Portugal, as pessoas têm de se parecer umas com as outras; isto é, têm de ser todas, sem tirar nem pôr, como os repolhos. No pórtico das nossas instituições, estando lá sem se ver, inscreve-se a máxima: "Cultivem a mediocridade, sejam mansos como os bovinos e colhereis o reconhecimento".

15 novembro 2007

Do meu cruel anti-manicurismo


É elemento de toda a evidência que da leitura de uma nota aqui deixada há dias não surgia como prioritária a exibição da mais pequena mácula de desdém pelo nobre ofício de cortar unhas, afinar garras, alisar manápulas e pedúnculos. Recebi meia dúzia de críticas, umas apostrofando o meu orgulho e preconceito, outras lembrando a dignidade de qualquer profissão "honesta"e da dimensão "espiritual" e utilidade social do esforço de qualquer trabalho assalariado. Se bem que desconheça a existência de profissões desonestas e me interrogue sobre a elevação nirvânica da maioria das ocupações, nesses comentários induzidos pelo mais sincero e respeitável apreço pelo esforço alheio detectei, contudo, a sombra de tudo quanto me assusta no mundo moderno: o mito da igualdade e da horizontalidade, o mito da incompetência e a indistinção dos direitos dos cidadãos. Reporto dois comentário, por neles se alinharem os argumentos desta curta réplica e por reconhecer nos seus autores estimáveis qualidades humanas merecedoras da minha atenção.


"Depois vem toda a sua dissertação sobre o Kaiser, Hitler, enfim... Penso que não preciso de lhe relembrar as selvajarias cometidas pelo Rei da Bélgica no Congo (apenas para dar um exemplo)! A superioridade moral, ou civilizacional, não advém do berço nem da posição social. A moral, a ética e os valores são resultado de uma equação muito mais complexa onde uma coroa, ou um nome de família são apenas um dos coeficientes e, porventura, dos menos importantes." (Olindo Iglésias)




Caros Olindo Iglésias e Jansenista:
Nada mais errado presumir existirem valores suspensos no ar. Os valores são, para os essencialistas - que acreditam nas coisas em si mesmas - como para os dialécticos - aqueles que neles identificam um confronto de qualidades em relação - parte da vida de qualquer ser humano. Nunca vi a bondade, mas esta revela-se no comportamento de cada um; nunca me cruzei com a piedade pelos fracos, o respeito pelos inválidos, a caridade pelos ofendidos e injustiçados, o amor de pátria e o bom gosto, mas estes manifestam-se como insofismáveis na acareação com os seus contrários. Ora, situando-me apenas no elementar registo historicista e sociológico, verifico que tudo aquilo que consideramos "valores" transporta, pelo menos no Ocidente, uma genealogia e uma genética aristocráticas. Mesmo aqueles "valores"- produto da mundivisão burguesa - que se foram impondo ao longo dos últimos três séculos, mimetizaram ou foram inspirados pela percepção aristocrática de um mundo alinhado por categorias irredutíveis sem as quais não há - não pode haver - entrega, sacrifício, penosa aceitação de deveres e voluntária privação daquela pequena, humana e subjectiva vontade pelo prazer. Há, notoriamente, pessoas cuja preocupação maior é a de tirar, fruir, coleccionar, armazenar. É nestes consumidores de coisas, nestes esfomeados pela posse e nestes ansiosos pela expectativa do celeiro vazio da manhã seguinte que encontramos, sem deslustro, o "espírito classe-operária". Por isso, sociedades governadas por pessoas movidas por tal mundivisão, inventaram a falácia da "assistência social", pois desconheciam a caridade; por isso, sociedades submetidas ao jugo das "manicures-capitalistas" foram resvalando para a demagogia, o populismo e a pieguice lamecheira, pois desconhecem a demo-filia, a indistinção dos cidadãos perante o Estado, a noção de Bem-Comum e, mais importante, o sacrifício da corveia da governação. Para as "manicures-capitalistas", o Estado é um "nós" oligárquico a cuja posse se acede pelo dinheiro, pela influência e pelo lóbismo que vai matando a abstratividade, vai matando o sentimento de pertença a uma comunidade e convidará, mais tarde ou mais cedo, ao ascenso de tiranos e "salvadores". A monarquia, quer queiram quer não - mesmo que as tenhamos limitadas, deformadas e reduzidas - continua a ser o espelho das qualidades a que as repúblicas vão beber a respeitabilidade, a fruição do sagrado, a grandeza e a encenação. Contudo, como o mundo não é feito de Pigmaleões e Galatéias, as pequenas vendedoras de flores não são mais inspiradas por Professores Higgins, mas por ex-vendedoras de cravos que do seu ofício muito sabiam e que tudo o mais desconhecem. E por desconhecerem, odeiam, ridicularizam ou têm medo. O melhor republicanismo português é, assim, fruto da arrogância das estúpidas "classes médias", sempre intolerantes perante aquilo que a auto-estima e a ambição individual não podem alcançar, bem como da inveja da classe-operária por aquilo que não está exposto nas bancadas de um super-mercado. Entre o poder do dinheiro atrevido, a vontade de assalatar a baixela do vizinho e o respeito por aquilo que não sou e nunca poderei ser, mas que me garante a liberdade perante o dinheiro - que só se quer reproduzir - e a inveja - que nos quer ver a todos pobres e iguais - escolho, sem pestanejar, as monarquiais (quaisquer que sejam).

08 novembro 2007

Deixem-se de pedantices e venham aprender a arte da humildade


A convite do Vice-Reitor de uma grande universidade longe da capital, passei dois dias no campus dessa quase cidade inteiramente povoada por jovens. Trinta mil estudantes, dois mil assistentes e catedráticos, mais funcionários administrativos, tecnólogos, arquivistas, bibliotecários, médicos, enfermeiros, psicólogos, animadores culturais e desportivos, burocratas, pessoal auxiliar, jardineiros e guardas enxameiam as amplas artérias de um complexo de edifícios administrativos, moradias, anfiteatros, ginásios, piscinas, refeitórios, centros documentais, lojas e parques primorosamente limpos, pintados e arejados. É, na acepção literal, uma verdadeira Cidade Universitária. Nada que se compare às nossas universidades exíguas, malcheirosas, apodrecidas, grafitadas e decadentes. Nada que se compare à arrogante frieza, aos tiques e manias de falsa grandeza e falsa importância que se respira em Lisboa, no Porto, Coimbra e Évora. Tive autorização para me deslocar sem cicerones, entrar onde quisesse, visitar laboratórios, salas de aula, dormitórios, apartamentos, instalações sanitárias, bibliotecas e centros de convívio. Ali não vi um só jovem de cervejola na mão, não ouvi berros, palavrões, altercações. Ali nunca entrou o "direito à contestação", o "espírito de Maio de 68", a revolucionarite roncante, o marxismozinho demolidor. Falei com sessenta ou setenta alunos em inglês, francês, espanhol e até português. Encontrei uma boa dúzia de docentes, todos dedicados, quase militantes no exercício das suas tarefas, uns com mestrados e doutoramentos tirados nos EUA, na Grã-Bretanha, em França, Alemanha e China. Encontrei ali bolseiros vindos um pouco de todos os azimutes asiáticos. Oito horas de aulas diárias, prática obrigatória de desporto, aprendizagem obrigatória de uma ou duas línguas europeias, alvorada às seis, recolher às dez e silêncio absoluto a partir da meia noite. Na véspera da despedida, um jantar com meia centena de professores. Brincalhões, risonhos, sem pinta de cervejola, discreteando sobre as suas experiências. No fim do repasto, a habitual repartição dos lugares pelas viaturas disponíveis. Foi a primeira vez na vida que vi professores catedráticos, alguns com vinte ou mais títulos publicados, sentando-se com a maior naturalidade nas traseiras de carrinhas descapotáveis. Esta é a juventude que está a bater aos pontos o Ocidente pateta, obnubilado e encerrado na ilusão da superioridade. Com esta gente vamos morder o pó da derrota.

06 novembro 2007

Memorável


Afinal, não foi do Oriental que assisti à procissão de ontem. O meu amigo e colega de universidade que me sugerira a varanda, acabou por me arranjar lugar num pequeno cais existente frente à Universidade de Thammasat, menos confortável, é certo, mas tão próximo do evento que até os flamantes botões dos remadores e a regalia da oficialagem podia ver em detalhe. Um grande espectáculo, que perdurará na memória de quantos o puderam seguir. O Rei, acamado e octogenário, não acorreu às festividades e o seu lugar no Subanahongsa foi ocupado pelo herdeiro ao trono.

04 novembro 2007

Um sonho que se realiza amanhã



Finalmente, testemunharei em directo a um dos mais esplendorosos espectáculos. Amanhã, pelo fim da tarde, da varanda de um quarto do Oriental, assistirei ao desfile das barcas reais do Sião. Para uma estudiosa das relações entre Portugal e o Sião, a Professora Boulong, os uniformes dos remadores foram inspirados nos fardamentos da marinha portuguesa de finais do século XVIII e as barcas denotam indisfarçável similitude com os bergantins da Casa Real Portuguesa. Ecos de um tempo que a Tailândia soube preservar, e nós não.A mística real em toda a sua grandeza.

Não sei porquê...


...mas em trinta e cinco dias de Ásia só me senti chocado com a visão de um alemão, ébrio como uma cervejaria ambulante, urinando em plena rua; com um bando de miudoscos árabes, barulhentos e agressivos, exibindo todos os artefactos da sub-cultura da Harlem, pontapeando as portas do Metro e com um casaleco português,que em pleno centro comercial dirigia à impávida e submissa vendedora todo o arsenal de impropérios, chocarreirices e grosserias em que somos exímios. Aqui evito contactos com europeus, as mais das vezes impelidos pelas pulsões mais reles ou por esse sentimento compensatório que transforma os paladinos setentrionais dos direitos do homem, da democracia e dos "direitos" em feras prepotentes logo que abandonam as fronteiras da "civilização". Decididamente, estou em plena mudança de pele. Talvez amanhã acorde com o cabelo negro e com os olhos em bico. Salvo seja !

01 novembro 2007

Algo em mim diz sim ao intervencionismo


De novo o debate sobre as virtudes e defeitos da iniciativa particular. Se sou absolutamente liberal, anti-estatista, anti-intervencionista e ferozmente avesso à manipulação pelo Estado do aparelho produtivo, bem como ao regulamenteirismo, à codificação e a esse supino abuso que se exprime pelas "políticas sociais" - forma recorrente de usurpação do bem-comum pelo Estado refém de ideologias - mantenho sérias reservas sobre a bondade da iniciativa dos cidadãos em domínios onde não há expressa intenção de lucro.


As pessoas movem-se por interesses, o que numa economia aberta à concorrência (vulgo capitalismo) se deduz da lucratividade de qualquer investimento. Não há investimento sem lucro desejado; logo, não há iniciativa particular que não transporte expectativa de retorno. O fracasso do ensino público não significa, pelo menos entre nós, que o ensino privado e cooperativo representem uma alternativa ao Estado. Bem pelo contrário. Se há instituições em que a sede de lucro, a tentação da ilegalidade, do favorecimento e do nepotismo, a promoção da mediocridade e o estilhaçar do bom nome da vocação encontram pleno significado, estas são - a história recente comprova-o à exaustação - as universidades privadas, os colégios, os pré-universitários e toda essa malha fraudulenta que se foi espraiando pelo país desde a década de 80.


A Revolução desqualificou a Universidade, proletarizou o secundário, exauriu o ensino básico e matou, por preconceito ideológico e igualitário, o ensino técnico-profissional. Neste particular, o maior desastre de 33 anos de regime encontra na Escola expressão carregada de funestas preocupações. Porém, a sociedade civil portuguesa, ao invés de apresentar uma alternativa, cavou ainda mais fundo o descalabro. Atentar nos escândalos da Moderna, da Independente e doutras Donas-Brancas produtoras de diplomas e mentecaptos, mais que um exercício estatístico e factual, deve ser, antes de tudo, uma reflexão sobre a tendência inata dos portugueses em enganar, falsificar, abusar e favorecer amigos, parentes e cúmplices. Falta-nos aquele sentido de pertença comunitária que impede a um britânico, a um alemão, a um canadiano ou a um australiano tirar vantagem pessoal de algo que está ao serviço da comunidade. Em Portugal, do porteiro ao Presidente, todos partilham de uma visão casualista, pelo que ninguém cumpre a lei conquanto esta não traga vantagem pessoal. O ensino privado mostrou quão impreparados estávamos para aceitar uma sociedade de direitos abstractos. Nisto, sou absolutamente anti-liberal. Afinal, para um vulgar gangster, que diferença haverá entre o negócio dos copos, da "movida nocturna", das pensões de má frequência e o ensino ? A meu ver, nenhuma.

30 outubro 2007



VERONIKA, der Lenz is da

28 outubro 2007

Fazendo inveja aos nostálgicos do Raj

O meu "Ashram", lembrando o Jansenista. Trinta e sete graus à sombra. Ventoínha no tecto, um gélido copo de chá com limão - Cha Manao - na mão esquerda e um cigarro de betel na direita, olhando o velho jardineiro de cócoras que ali vai aparando com paciência budista a natureza que cresce imparável. Algures entre as memórias de Paul Scott e as realizações de Jim Thompson.

Na terra dos elefantes

Nas margens do Indo, à sua visão Alexandre ficou siderado; Aníbal fez soar as trombas dos proboscídeos às portas da Cidade Eterna; D. Manuel usou-os em Roma como prova que os Portugueses não blasonavam das suas façanhas em terras do Oriente. Que eu saiba, o último eco da prestabilidade castrense das grandes feras mansas foi a oferta de Rama IV a Lincoln de uma dúzia destas bestas, para que a União as usasse na Guerra Civil. A gentil proposta foi delicadamente recusada. Talvez o Sul se tivesse rendido perante as carapaças invulneráveis. Hoje, vejo-os em verão ecologista da janela do meu quarto.

22 outubro 2007

A desconstrução


A tradição filosófica ocidental moderna assenta na problematicidade do conhecimento, pelo que duvidar e tomar os fenómenos como enganadores, quaisquer que sejam, se transformou numa verdadeira obsessão que mobiliza a totalidade do esforço de pensar. Daí que, entre nós, a "teoria do conhecimento", a hermenêutica, a heurística, a crítica e outras ferramentas de desconstrução tenham ocupado a quase totalidade do espaço da reflexão. Para quem já não busca qualquer certeza, mas tão só se contenta com a contemplação da artificialidade do discurso, o pensamento passa a reflectir, apenas, a melhor forma de lobrigar o erro, voluntário ou involuntário, o mascaramento e aquilo que se esconde por detrás das palavras. Brincar com o ininteligível, confundindo-o com primitivismo, como o quiseram os Iluminismos; recusar outras instâncias para além da razão, tomando-as como formas pré-lógicas, logo insusceptíveis de qualquer forma de conhecimento; recusar o sentimento, desprezar a espiritualidade - absolutamente subjectiva - determinaram a falência das instituições sociais e políticas, lançando sobre a cultura o véu da mentira partilhada. A coisa vem de longe, de Rosseau a Hume, de Marx a Nietszhe, de Freud aos auto-proclamados pós-modernos. E como a Filosofia é o arrimo invisível que mantém o Ocidente, mesmo que o taxista e a mulher-a-dias não queiram saber de Aristóteles nem de S. Tomás, o desastre da desconstrução atingiu esse mesmo taxista e essa mesma mulher-a-dias. Hoje, já pouco se acredita e a suspeição impera, como mancha que se espraia, nas atitudes e nos juízos que se formulam a respeito das pequenas e grandes coisas da vida comum.

Ao invés de se libertar dos profetas e das crenças, o homem ocidental revelou ao longo dos últimos dois ou três séculos uma crescente tendência suicidária e niilista. Se o sem-sentido, o absurdo ou o vazio se substituíram a formas integradoras, ditas "tradicionais", como nos podem exigir o cumprimento das leis, o respeito pelas instituições, o acatamento das decisões superiores, a aceitação da cultura e desses valores sem os quais não existiríamos ? Li, com notável atraso, o inquientate ensaio Le Défi de l'incroyance, de André Grjebine, que recomendo vivamente.
Aqui na Ásia, ainda muito "tradicional", questiona-se o acessório, mas poucos se atrevem atirar a primeira pedra a tudo aquilo que "é porque é". Talvez resida nesta prudente atitude o triunfo do Oriente. Perguntava ontem ao meu porteiro por que razão mostrava um semblante tão triste. Respondeu-me: "o nosso rei (nai muang, que quer dizer "o rei que está dentro de nós") está muito doente e não sabemos o que será de nós sem ele". Tomara nós que ainda persistisse em nós, ocidentais, tal veneração e respeito pelas instituições e pelos servidores da comunidade.

20 outubro 2007

O Conserto das Nações

Para os amantes e entusiastas das artes da diplomacia, um blogue a consultar.

19 outubro 2007

Assassinando alegremente o meu inglês


Com o passar dos dias, cercado e solicitado pela nova língua, aqui vou matando com prazer indisfarçável e uma pontinha de revanche a língua franca da nossa era. Assim, deixei de dizer caviar, que passou a CAÚIAR, lancei às urtigas os subtitles e adoptei os SUB-TITEN, esqueci-me das apple e adoro APPEN, vou à farmácia e peço PARACETAMON, substituo as BE-TA-REE do meu walkman e coloco um novo SÂ-TI-KÂR (autocolante) no meu passe. Para além disso, deixei de saber o que é um melão, pois aqui tomou a graça de FUCK-TONGUE ! A Ásia é um portento de criatividade. Não se copia, reinventa-se. Direitos de autor.... out !

16 outubro 2007

Tout ce qui est excessif est insignifiant !


Para os defensores de formas expeditas de governação - aquelas que se baseiam na aplicação do poder nu, sem negociação e sem controlo, vulgo ditaduras - os partidos políticos constituem, mais que um obstáculo à aplicação da vontade, um freio à realização e à produção de obra. Os ditadores e seus objectos - pois que, em ditadura, o apoiante é sempre um escravo da vontade do governante - confiam na liberdade de acção que o seu poder sem freio faculta para, assim, aspirar a grandes metas históricas. As ditaduras, que vivem obcecadas com a história, transformam o quotidiano em apetrecho logístico para grandes feitos. Aceito sem relutância que algumas ditaduras permitiram operar mudanças necessárias à fixação da modernidade, quando muitas democracias - vulgo sistemas representativos confiscados por elites divididas - fracassaram estrepitosamente. Aceito até de barato que algumas formas degradadas de democracia são nocivas, corruptas e dispendiosas; comprazem-se com o jogo estéril do debate sem ponto de aplicação e se transformam em escolas de mediocridade, de demagogia e mentira. É o velho modelo das "democracias latinas", que sempre convidaram ao retorno das ditaduras e do poder personalizado. Confiando mais no "governo das Leis" que no "governo dos homens" - por melhores ditadores que haja e por piores cumpridores da Lei que existam - não compreendo o afã desculpabilizador de muitas cabeças da esquerda nativa a respeito do processo em curso na Venezuela. As esquerdas, que acreditam na engenharia social, na reconstrução do homem e no governo perfeito, absolvem os ditadores portadores dessas boas-novas. Lembro, ainda, que nos bancos da universidade se ensinava que as "transformações necessárias" se operam com o sacrifício de vidas e que a marcha da história se faz sobre os seus "inimigos" [da história]. Era a desculpabilização marxista do comunismo de guerra de Trotski, do concentracionarismo estalinista e de todas as enormidades que pelo mundo se cometeram ao longo do século XX contra pessoas singulares, grupos sociais, etnias e confissões. Ora, o que nos é dado concluir, tendo presentes os últimos 50 anos, é que as ditaduras - todas, sem excepção, de esquerda - falharam, semearam pobreza, dependência, esvaziaram a iniciativa dos indivíduos e quase mataram a sociedade civil. A Venezuela não será excepção, com a agravante de se saber já, com a experiência vivida, qual o destino de tal aventura.

14 outubro 2007

Vendedores de depilatórios, arrumadores de cinema e portageiros


O congresso do partido sem ideologia, sem ideias e sem programa está a exibir em todo o esplendor o afundamento da dita classe política - cada vez mais sem classe e sem utilidade - que atinge a terceira geração sob o regime. De desclassificação em desclassificação, chegamos a este ponto sem regresso, entregues a fulanos e fulanas de vão-de-escada, semi-letrados e apenas mobilizados pela busca de uma nesga de notoriedade, de um lugar ou de uma promessa de favor. Sigo, aterrado, o tropel da jogatana, de exibicionismo alarve e falência que por ali vai. A Terceira República vai mal; antes, está comatosa. Se ao menos houvesse um De Gaulle; mas não, como sempre aconteceu, o regime cairá de podre às mãos de betas e logo virá um novo regime. A esse regime colar-se-ão os adesivos, os trânsfugas e os parasitas do erário do Estado. E assim continuará a vil tristeza em que o país escolheu viver.