05 janeiro 2007

Há diálogo possível com os terroristas ?



Lembro que nos idos de 75, a ETA e outras organizações terroristas da parafernália saída da manga do KGB ou por este generosamente alimentadas - BR, RAF, IRA, GRAPO, FLP - gozarem de grande popularidade entre os tontos da extrema-esquerda nativa. Lembro, ainda, o júbilo com que Albarrans e outros pilharam, vandalizaram e queimaram a embaixada de Espanha ante a quase apatia das forças da (des)ordem, então muito patilhudas, muito hirsutas e muito pouco fiáveis nos gestos e vestimentas. Era o preia-mar do terrorismo, havendo verdadeiros torneios poéticos para saber de que garganta saía o mais alvar dos poemecos homicidas.


O mundo mudou. O comunismo morreu, o cancro jihadista ocupou o seu lugar, cevando em instintos bombistas e outras acrobacias espectaculares milhares de vítimas perfeitamente inocentes. Como anti-americanismo primário é coisa de bom tom em alguns países europeus - sintomaticamente aqueles que foram filhos dilectos do comunismo - muitos dos antigos admiradores do gang Meinhof, de Renato Curcio e outros psicopatas afins passaram a acender velinhas no altar dos "mártires do Islão" e de outras "causas justas". Se Bin Laden não distingue quem o venera, há quem continue a romantizar os bandoleiros da ETA, tal como gerações romantizaram os de Schiller. Zapatero foi um deles. Agora aparece arrependido, cabisbaixo, dizendo haver sido enganado pela trégua dos etarras. Se já é estranho que um cidadão temente das leis se deixe sugestionar pela possibilidade de no terrorismo subsistirem quaisquer raízes de bondade, é verdadeiramente inaceitável que um chefe de governo se atreva confessar publicamente acreditar nas promessas de uma organização armada e terrorista. Zapatero, neste como noutros instantâneos, apenas vem confirmar não ser o homem para chefiar o governo de um Estado de Direito.

Raj

Sobre o fim das civilizações

Isto a par de outros exemplos, conhecidos ou menos conhecidos, com que Miguel Castelo-Branco ilustra a falsidade de muitos suspirarem pelas sociedades tradicionais e o seu exemplar relacionamento com a natureza. Tem razão, salvo em povos, como direi, muito primitivos aos nossos olhos, tenho encontrado muito poucas indicações que assim tenha sido — Celtas, tribos norte-americanas, sul-americanas, africanas… Parece ser um indicador seguro que desenvolvimento e ecologia, são conceitos bastante incompatíveis. O que faltou a esses povos foi eventualmenta a moto-serra.À pergunta “saberão essas sumidades que as sociedades polinésias morreram por efeito da destruição dos recursos, numa escala proporcional bem mais devastadora que as maiores depredações causadas pelas sociedades industrializadas contemporâneas?”, apesar de não ser sumidade, respondo que não sabia, mas tenho enormes dúvidas quanto à justeza da escala proporcional apresentada. Aliás, tenho praticamente a certeza que é incomparável o que se passa hoje, em escala, com tudo o que nos precedeu na história conhecida. E a rapidez.

03 janeiro 2007

A glória feita de engenho




A pedido de Yamada, professor de arquitectura ambientalista numa prestigiada universidade nipónica, andei nos últimos dias ocupado em seleccionar materiais bibliográficos, cartográficos e iconográficos referentes aos vestígios do urbanismo português de Quinhentos a Setecentos espalhados pelas costas da Ásia, África e Brasil. Não sendo, decididamente, um grande conhecedor de arquitectura, não posso, porém, deixar de repelir com veemência aquela pateta afirmação de Hegel, segundo o qual a arquitectura, mobilizando tanta matéria - pedra, estuque, areia - deixaria muito pouco por onde se pudesse expressar o espírito.


É óbvio que na pintura, que rende tributo a Mnemosine - a memória - o recurso ao truque, à habilidade e ao artifício oferecem um manancial de soluções que exercem maior ou menor impressão sobre o observador na directa proporção do maestria técnica, talento do criador e tema. Na pintura pode, até, não haver tema. A arte é, assim, deo gratias, absolutamente inútil, absolutamente excedentária e totalmente privada de utilidade.


Na arquitectura não há espaço para tal: ou serve ou não serve. Temos, infelizmente, alguns exemplos acabados de peças arquitectónicas destituídas de função, ou cuja função foi grosseiramente manipulada por critérios cenográficos que levaram à falência ou inviabilização do fim a que se destinavam ou de reutilização para outros fins tidos de interesse público. Exemplos flagrantes: a Universidade de Lisboa, uma imensa fachada escondendo miseráveis instalações, o CCB, cujo auditório não comporta uma orquestra sinfónica completa, o Pavilhão de Portugal, no Parque Expo, que devia ter sido demolido, pois fechado o certame, está condenado a morrer ingloriamente.


Mas houve um tempo - um tempo longo em que Portugal não fazia obras faraónicas, mas obras de gigante - em que a arquitectura feita por portugueses aliava a sóbria majestade à função do serviço da Coroa, da Igreja e da sociedade nas diferentes vertentes administrativa, militar, comercial, religiosa e assistencial. As grandes fortalezas da Ilha de Moçambique, de Diu e Damão, o colar de baluartes, fortins, torres e atalaias da costa do malabar e Ceilão, os entrepostos, igrejas, ermidas, feitorias, hospitais, seminários e colégios um pouco espalhados pelo Índico e mar da China - para não falar nas grandes obras de engenharia civil e militar ao longo da costa brasileira - são mais que uma marca nostálgica de um tempo que passou. São prova da eficiência, do engenho e capacidade de projectar o futuro. Aliás, temos vivido os últimos dois séculos à custa desses belos edifícios de "arquitectura chã" roubados às ordens religiosas por sucessivos regimes e governos, todos muito anti-clericais, mas useiros na utilização - para hospitais, tribunais, universidades e quartéis - de tudo o que dominicanos, franciscanos e jesuítas construíram. Portugal foi grande, muito grande, em extensão como em sonho, suor e trabalho dos seus. Hoje, finalmente "europeus", contentamo-nos com obras para dez ou vinte anos, destinadas a abrigar a colecção do Sr. Berardo, as cimeiras do grand tour da UE e um ou outro acto solene !
PS: Pedido de desculpa aos meus atentos leitores. Estou a utilizar um teclado made in España, pelo que algumas gralhas poderão ocasionalmente aterrar nos textos. Obrigado pela V. compreensão.

02 janeiro 2007

O fim das civilizações: os limites da geo-história



A reflexão sobre a decadência - emanação da Punição e da Queda veterotestamentária aplicada à história profana - deslocou-se ao longo dos últimos séculos da esfera da cultura para o domínio da relação do homem com a natureza. Se durante muito tempo a decadência fora interpretada como fenómeno cujo elemento sobredeterminante seria o embotamento daquelas qualidades espirituais a partir das quais se alicerça uma sociedade, uma cultura ou uma civilização, hoje, tudo se parece reduzir à procura das causas da falência das sociedades a partir da sua relação com o meio natural. Da Filosofia da Cultura passou-se para a História das Ideias, da História das Ideias passou-se para a História Social das Ideias e hoje privilegia-se a "História natural do homem", entendido este como um mero agente da ordem natural.


Depois de ler Jared Diamond, autor do aclamado Collapse - merecedor de entrevista de luxo no último número de L'Histoire - deduzimos a que ponto chegou o determinismo ambientalista na agenda política dos governos e na percepção daqueles a quem cabe pensar as políticas para o futuro. Para Diamond, as sociedades são perecíveis, encontrando-se no seu ocaso elementos fáticos (repetitivos, permanentes) que permitem estabelecer uma lei universal para a decadência e morte dos agregados humanos. No Collapse, JD indica-os:


1) Devastação e sobre-utilização dos recursos naturais levando ao súbito esgotamento das condições que tornam possível viver de acordo com o ritmo inerente a uma sociedade (desflorestação, erosão dos solos, esgotamento dos recursos hídricos, esgotamento dos recursos minerais);

2) Alterações climatéricas ditadas pelo comportamento humano predador ou por fenómenos naturais ("efeito de estufa", glaciação, aquecimento, seca prolongada, subida do nível das águas, cataclismos: vulcões, maremotos);

3) Invasão e morte violenta das sociedades ocasionada por pressão migratória armada oriunda do exterior;

4) Súbita privação de abastecimento de recursos vitais determinada por corte de contactos com sociedades fornecedoras desses bens;

5) Incapacidade de adaptação social, cultural e política a novos desafios.


Para os fanáticos da geo-história, o elemento político (3) é menos comum do que supunha a tradição da história entendida como grandioso palco de batalhas, guerras e outras façanhas bélicas. As sociedades morrem devagar, sem comoções excessivas, mal se apercebendo do fim que lhes está destinado. Assim morreram o Antigo Egipto, a civilização Maia, a civilização Khmer, as "sociedades hidráulicas" do Indo, os colonatos viking da Gronelândia, o Zimbabwe e até a Antiga Roma: tragadas ora pela selva e pelas areias, ora pela infertilidade demográfica e pela chegda e assentamento de povos estranhos, pelo lento apagar da vida comercial, pela morte das tradições religiosas e literárias, ou ainda pelo embotamento das instituições políticas.


As excepções, essas contam-se pelos dedos: os Minóicos, os Micénios, os Incas, as civilizações da rota da seda e as civilizações agro-pastoris da África Ocidental morreram pela espada, sendo casos extremos e atípicos na longa necrologia de sociedades defuntas.


O erro mais evidente desta análise assenta na desvalorização do factor humano. Vidal de la Blache - um clássico da escola possibilista francesa - dera ênfase à capacidade humana em arrostar as dificuldades e desafios. As sociedades que encontram saída para as dificuldades, robustecem-se. Aquelas que se deixam vencer pelo medo, morrem.


Andam por aí muitos discípulos do Sr. Ramonet - uma versão soft do profetismo cataclísmico de Marx - imputando ao "capitalismo" as responsabilidades pelas negras previsões ambientalistas. Julgam essas sumidades que as "sociedades tradicionais" sabiam relacionar-se sabiamente com a natureza. Ora, nada mais errado. Saberão essas sumidades cultoras das teses regressionistas que a Suécia do século XVII era, por efeito da desflorestação, uma terra escalvada, sem árvores e exposta às maiores inclemências naturais ? Saberão essas sumidades que as sociedades polinésias morreram por efeito da destruição dos recursos, numa escala proporcional bem mais devastadora que as maiores depredações causadas pelas sociedades industrializadas contemporâneas ?


Os nossos ambientalistas - alguns dos quais foram entusiastas seguidores do industrialiamo soviético que matou o Mar de Aral e quase matou o Mar Cáspio - teimam em flagelar a "sociedade capitalista" pelos males ambientais hodiernos. Contudo, lembramos ser a sociedade capitalista aquela que melhores antídotos consegue reunir para contrariar a erosão dos recursos naturais. A aliança entre o mercado, o consumo, a ciência e a tecnologia, às quais se associam os direitos de cidadania - pressão política, debate livre e discussão - são os únicos com capacidade para operar políticas ambientais progressivas, isto é, sem recuo civilizacional. Tudo o mais são idílios sem pés nem cabeça !
Termina Diamond com um aceno de esperança, afastando o fatalismo e aceitando a ideia que cabe aos homens responder aos desafios. Oferecendo o paradigmático exemplo de duas repúblicas das caraíbas (Haiti e Rep. Dominicana), gémeas na natureza, na população e na história, destaca o papel decisivo que na escolha da perdição e do sucesso tiveram as lideranças políticas de uma e outra sociedade. O Haiti caíu no despostismo regressivo de Papa Doc e Baby Doc, a República Dominicana transformou-se numa relativamente próspera economia.

01 janeiro 2007

Da Literatura

Faz hoje anos Da Literatura: excelente qualidade, catálogo sempre em dia do movimento editorial, crítica literária imbatível, serena, inteligente e absolutamente confiável. Os meus 20 valores para a equipa.