09 dezembro 2006

08 dezembro 2006

Repondo a verdade sobre Lourenco Marques

Tenho andado numa roda viva de obrigações que se me impuseram pela inesperada visita de amigos vindos do outro lado do mundo. Museus, exposições, jantares e outras saídas forçadas pela etiqueta de receber quem não vemos durante anos impediram-me de manter a quota mínima de participação neste banco de opiniões.
Chamou o caro Jansenista a atenção para um texto de outro blogue da minha predilecção. O tema interessa-me. Rodeado há 32 anos pela ignorância, hostilidade e espiritozinho de inveja, características tão lusitanas, abstenho-me de falar na África minha que deixei para sempre naquele inesquecível 30 de Agosto de 1974. O Eduardo Pitta tem toda a razão. Não, nós, brancos de Lourenço Marques, não éramos como pinta a tal reportagem da Sábado. Tudo aquilo soa a remoque de quem, vindo da "Metrópole", por lá permanecia apenas durante as semanas ou meses necessários para o carregamento do galeão. Nós éramos portugueses mas, no que me toca, portugueses africanos, com duas, três e quatro gerações nascidas naqueles paragens que amávamos como a nossa pátria portuguesa africana. Não precisávamos de ranchos minhotos, nem fandangos, nem marchas populares, pães de ló de Ovar, presuntos e fumados de Trás-os-Montes ou filigranas para sermos mais portugueses que aqueles que chegavam da metrópole enrolados num despacho ministerial para nos dizerem como governar aquela terra. A verdade, custa-me dizê-lo, é que os maiores erros que ali se produziram foram produto da total arrogância de pessoas que aportavam a Moçambique carregadas de mitos, uns benignos mas perfeitamente absurdos, outros malsãos, produto do aceno da riqueza fácil. À cabeça, coloco o nome de uma vil criatura que ainda há dias lançou um arremedo de "memórias". O dito insigne jurista - que ali se encheu como os velhos soldados práticos de Quinhentos - epitomiza o mais selvagem dessa colonização de costas voltadas para os africanos, pretos, brancos e mulatos. Da minha infância só guardo instantâneos de violência física contra mainatos, perpetrada por recém-chegado;, aqui pouco mais que criados de servir, lá déspotas vorazes capazes de todas as ignomínias para mais uns tijolos no casarão na "Metrópole".
Se tivesse prevalecido o bom-senso, se tivessem dado a naturais - pretos, brancos e mulatos - a mínima possibilidade para encontrarem uma solução portuguesa africana para o destino daquela parcela desta nação, não teria havido outra independência que não a NOSSA, não teria havido nem Machel nem a Renamo, campos de concentração, guerra e destruição como a que afogou em sangue, miséria e morte o NOSSO Moçambique.