02 dezembro 2006

Espalhar mentiras e justificar o terrorismo



A peça merece honras pelo tom verdadeiramente criminoso com que insulta aquele mínimo de decência e amor à verdade sem os quais se torna impossível o normal e saudável confronto de ideias. Apologia da violência de uma minoria eleitoralmente insignificante, apologia do terrorismo e da legitimidade da força - desde que utilizada pelos bons - inverdade nos factos, eis um exemplo flagrante da menoridade cívica a que o republicanismo reduziu esta nação. Isto dura há quase um século.

Corta Fitas

Passa a partir de hoje a figurar nos altamente recomendáveis o afiado CORTA-FITAS.

01 dezembro 2006

Os Estados-império da União Europeia

Não há dúvidas que a estrutura que a Europa política tem vindo a tomar - a legal, a reguladora, a codificadora - se presta a servir, alargando-a, a competência, os hábitos e tradição dos estados-império que atravessam o esqueleto do velho continente: a Espanha, a França e a Alemanha. Estes Estados-império surgiram e consolidaram-se entre o século XV e o século XIX, impuseram-se nas respectivas regiões como "unidades de destino no universal - usando a falácia fraseológica josé antoniana - e fizeram de ficções unidades políticas em que o centro (Madrid, Paris, Berlim) emite o estilo e recebe o eco da sua voz de comando simulando unicidade.
A Espanha fez-se a partir de Castela, usou materiais de diversa extracção, sintetizou-os, mas fica e será sempre Castela. Os regionalismos, os particularismos, os localismos são e serão apenas tolerados na medida em que servirem para coroar o mito castelhado da universalização de uma ideia que cresceu a partir do Manzanares, da Plaza Mayor, do Palácio Real de Madrid, do mosteiro do Escorial e do monólito do Alcazar de Toledo. Para coroar a ficção, a "Espanha" - que usurpou a expressão geográfica da Hispânia para expressar o movimento de apossamento, da meseta para as periferias, socorreu-se de dinastias alienígenas após os Trastamaras (os Habsburgos, os Bourbons, os Bonaparte, novamente os Bourbons) e chega ao século XXI totalmente integrada na corrente do unitarismo europeu e, até, quiçá, de uns meríficos Estados Unidos da Europa.
A França fez-se em Paris, domesticou-se em Versalhes - onde inventou a cultura superior, sem a qual a província estaria condenada à vegetativa marginalidade semi-bárbara - e foi sucessivamente disciplinada pelo zelo dos emissários do Rei, pelas expedições jacobinas, pelo código de Napoleão, pelos maires e maîtres d'école. De fora ficaram, definitivamente, a Borgonha, o Languedoque, a Aquitânia, a Alsácia, a Bretanha e a Provença, onde as pulsões secessionistas crónicas foram sendo extirpadas pelo proibicionismo, pelo ponteiro do professor primário e pelo burocrata parisiense. O Estado-império francês sente-se inquieto com a ideia de pátria, pelo que inventou uma ideia de nação a partir da abstracção do cidadão, cujos requisitos se confundem com os acidentes históricos de Paris. A França de hoje, esgotadas as teorias fantasistas das frontières naturalles e internacionalizada após a Revolução - ou não são os Estados de hoje subsidiários de tudo o que de novo trouxe 1789 ? - já não pode, nem quer, emular os seus rivais históricos continentais (a Espanha e a Alemanha), antes sucumbindo juntar-se-lhes em tandem para repartir o domínio político, cultural e económico daquilo em que se transformou a Europa eurocrática.
A Alemanha é dos mais prodigiosos bluffs do maquiavelismo e do hobbesianismo. Teve sempre fronteiras inferiores ou superiores à sua expressão geo-demográfica, uma língua que se fez a partir de uma riquíssima diversidade de falares aparentados mas distintos, os quais floresceram na intrincada rede dinástica, eclesiástica, feudal e burguesa que fez do centro da Europa a mais rica expressão da inconfundível grandeza europeia tardo-medieval e renascentista. A Germânia poliárquica, policêntrica, diversa e una apenas na percepção de uma grande fronteira exterior aos estados, aos principados e ducados (o Sacro Império), tornou-se, de súbito, um instrumento de uma parcela marginal. A Prússia tomou-a de assalto, abrindo e nivelando fronteiras através do Zollverein, acorrentando-a através da Confederação da Alemanha do Norte - teste para a unificação de 1871 - e impondo-se-lhe como o centro. Os Segundo e Terceiro Reich epitomizaram
essa tentação "nacionalista" de fazer tábua-rasa das evidências, reinventar o passado (o Kulturkampf contra Roma, inventado literalmente a partir do suposto carácter "nacional" do luteranismo). A passagem da CEE - uma criação franco-alemã - para a União Europeia, mimetiza os passos da unidade alemã até 1871. A CEE como surgiu era reflexo de um quadro histórico em que um inimigo exterior próximo - a URSS- tornava impossível exibir quaisquer ambições imperiais. Mal esta caíu - e com ela caíndo todos os Estados satélite, a União marchou para a cidadania europeia, entrou pelo Danúbio adentro e chegou à fronteira russa. A União Europeia seria, pois, a passagem (ampliada) do Vollverein para o Império. Quem mada na Europa ? A chancelaria de Berlim. Quem determina a aceitação de novos Estados na União ? A Alemanha.
Olhemos para a bandeira da União. O que vemos ? As estrelas rodando em torno de um centro. O centro ? A Alemanha. Ouçamos o hino da União. O que ouvimos. Um coro, cantando em "hoch deutsch", composto por um génio da mais exaltante paixão telúrica (alemã).

30 novembro 2006

Uma pessoa não desaparece sem dizer

Os confrades Jansenista, Euro-Ultramarino, Miss Pearls e Misantropo mostraram surpresa pelo anúncio da minha eventual desaparição. Não, o que disse foi mal interpretado. Se no decurso dos próximos tempos sentir incapacidade para manter o ritmo, tentarei encontrar um formato que melhor se adapte ao vício. Só espero que não seja gorado como o "primeiro estranha-se, depois entranha-se" de Macróbio.
Esta tarde, estava eu nas minhas lides de taberneiro - sim, a fazer listas de compras - quando vi passar pela minha porta Paulo Cunha Porto, na companhia de uma famosa bloguer (querem adivinhar quem ?). Estas coisas não são só virtuais. Há um grupo de pessoas que se conhecem e estimam para lá do ecrã. Em certa medida, foram transformando-se em amigos, tão necessários como aqueles que fomos fazendo por outras veredas. Decididamente, não os podemos abandonar sem uma palavra.

29 novembro 2006

Morrer em beleza: plácido suicídio

Passaram 15 meses desde que iniciei esta andatura. O hobby dá gozo mas exige compenetração, ponderação e cuidados, pois serve-se todos os dias à mais diversificada clientela, que deve ser poupada e respeitada. Talvez este relatório de contas - que faço mensalmente - seja o último de Combustões. Sou assim, penso durante meses antes de agir, mas quando me decido só raramente volto atrás. Folheando as semanas e meses precedentes, abrindo e relendo outros blogues aqui sempre presentes, gabados e divulgados, creio ter atingido a fase útil de vida. Não me quero reformar. Prefiro cortar as veias, com a gravitas dos velhos romanos, e escoar sorridente. Talvez, ante o plácido suicídio, resolva mudar o tom do blogue, circunscrevendo-o a matérias menos opinativas. A ver vamos o que o futuro dirá.

Votação no Insurgente

Na coluna direita de O Insurgente, uma inesperada votação: qual foi o melhor blogue de direita de 2006 ? Por generosidade dos animadores do Insurgente, o meu Combustões está lá, coitado, ao lado das sumidades. Nunca testei méritos em eleições, mas não há eleição a que não se vá sem risco. Vejamos como me saio desta !

Grand Monde: a aventura da imagem

Um novo blogue para quem gosta da arqueologia da fotografia, a dar os primeiros passos.

28 novembro 2006

Blogues no feminino


Miss Pearls e Charlotte - duas veteranas da blogosfera, com corte e assistência multitudinária cativa, às quais se juntou há tempos a classicista Senhora Sócrates - têm agora uma nova colega nesta competitiva soma de talentos. Trata-se de Susaninha a Brincar aos Crescidos. Vão ver e opinem !

27 novembro 2006

O Papa e a Turquia


Sinto-me perfeitamente sereno ao abordar o tema, pois não sou crente nem milito em qualquer confissão religiosa. Contudo, esta indiferença perante a religião - que não pode ser indiferença perante o sagrado, tão pouco perante o pensamento de um homem de cultura que se afirma pela fé - não pode deixar de me interessar.


Bento XVI não teve medo. Prometeu que visitaria Constantinopla e não vacilou perante os punhos cerrados do ódio, da irracionalidade e do fanatismo de tantos energúmenos. Em Setembro, no exercício da faculdade de julgar e interpretar - que guarda como homem de pensamento e académico - desencadeou um maremoto de falsa indignação ao citar o fragmento de um texto do século XIV, depressa descontextualizado e canhestramente manipulado pelos niveladores da inteligência que há muito pegam em armas contra a tradição intelectual do Ocidente.


Bento XVI é teólogo e príncipe da Igreja, mas foi sempre, nas circunstâncias em que desenvolveu a sua actividade, um homem de cultura em busca da verdade que a fé eventualmente transporta. Por algum motivo iniciou a sua fulgurante vida académica com um texto provocador sobre O Deus da Fé e o Deus da Filosofia, não escondendo, antes tentando compreender, os caminhos paralelos que a verdade percorre. Quando li L' Entretien sur la foi e, depois, as repetidas conferências que foi dando a respeito da ideia de Europa, dei-me conta da plena honestidade, rigor e serenidade com que desenvolvia e argumentava, sem cedências à pistis, sem arrogância e até sem vestígio de tolerância, essa palavra maldita que, espremida, quer dizer: "eu tenho razão mas desculpo o vosso direito a errar".


Ratzinger, contrariamente ao pensar-pequeno, ao tribalismo estreito e ao racismozinho, nunca se estribou em argumentos ex cathedra ou a fortiori para, ao velho estilo dos manuais apologéticos, diminuir, ridicularizar ou ferir outras religiões, ou mesmo, não-religiões. Muitos terão ficado surpreendidos com a veemência com que desde o primeiro minuto se recusou aceitar a entrada da Turquia na União Europeia, como faria, aliás, em relação a Israel, à Bósnia, a Marrocos ou ao Butão. Esta clareza chocou os políticos e os opinativos, habituados à espuma das marés que vêm e vão. Neste particular, Ratzinger foi europeu.


Como europeu, eu, que não sou nem católico nem cristão, compreendi-o. Ou não somos todos nós, queiramo-lo ou não, cristãos pela cultura ? A Europa sem esta tradição não existe, pois de Roma e da Hélade ficaram os grandes mitos fundadores do Direito e da Filosofia, as referências antigas, eternamente lidas e delidas, mas só actuantes na vã ilusão das elites letradas em restaurar o que não pode ser restaurado. A Europa de Roma estendia-se da Escócia à Mauritânia, da Lusitânia à Mesopotâmia. Dessa não há outros vestígios que as cidades desenterradas pelos arqueólogos. A Europa da Hélade andou em bolandas em pergaminhos e códices, copiada e recopiada nos palimpsestos dos frades, dos intérpretes e comentadores das abadias. A Filosofia clássica só o é na medida em que a civilização cristã a salvou do esquecimento. Ora, se os muçulmanos também reclamam papel de salvadores dessa herança, não a quiseram ou dela não souberam tirar proveito algum.


Bento XVI sabe que o Direito e as leis organizam os povos e as sociedades, sendo expressão da percepção colectiva do bem-comum deduzido da lei natural ou de Deus (Fréderic Bastiat). O Direito ocidental assenta em fontes económicas, sociais e políticas em tudo distintas daquelas em que o Islão se funda, sendo que a nossa jurisprudência é resultado de uma história e de caminhos separados. Aceitar a Turquia, pese toda a estima e admiração que singularmente possamos ter por essa nação, é uma violência contra a Europa e contra a Turquia, que mesmo estado laico não comunga das nossas raízes. Foi isso que disse Bento XVI. Atire a primeira pedra quem se oponha a esta demonstração de respeito pela identidade turca.






Berlim 1984 ou 1944 ?



O mesmo estilo e estética, pirateadas da velha Prússia, mas desta vez Zu errung der opfer des faschismus und militarismus ("em memória das vítimas do fascismo e do militarismo").
"A ideia de que se possa comparar os regimes comunista e nazi sempre foi rejeitada com indignação pelos comunistas. Esquece-se, geralmente, que ela teria sido rejeitada pelos nazis. No entanto, a comparação foi feita ao longo do tempo por autores tão diferentes como Jacques Bainville, Elie Hálevy, Georges Orwell, Victor Serge, André Gide, Simone Weil, Marcel Mauss ou Bernard Shaw."
Alain de Benoist, in Comunismo e Nazismo: 25 reflexões sobre o totalitarismo no século XX (1917-1989)