18 novembro 2006

Mário Sottomayor Cardia

Há nomes de direita cujo passamento não me comove. Aliás, a saudade, a estima, a evocação dos que partiram só tem significado se com eles tivemos algum contacto, seja o mediato - os grandes autores, os actores e figuras cuja obra veneramos - seja pessoal, aquelas que connosco se cruzaram e nos deram algo da sua grandeza. Mário Sottomayor Cardia foi uma dessas pessoas. Conheci-o há seis ou sete anos, pois sou colega e amigo da sua mulher, a escritora Luísa Ducla Soares, por quem tenho grande admiração humana e intelectual.
O Professor Sottomayor Cardia provinha de uma área afectiva e ideológica muito distinta da minha, com formação e percurso muito coerentes. Era um homem superior, de uma cultura filosófica, histórica e política verdadeiramente enciclopédica, extremamente actualizado e um leitor quase compulsivo. Deixou, como é sabido, a maior biblioteca privada do país.
Quando o conheci estava a ultimar o texto de Homem Cristo Filho. Ora, sabendo-me envolvido numa matéria que de todo dominava, facultou-me ajuda preciosíssima, telefonando-me amiúde, emprestando-me livros, comentando este e aquele aspecto menos claro e até corrigindo questões de natureza conceptual e terminológica, campo em que era absolutamente inflexível. Devo-lhe muito, mas impõe-se-me assinalar que naquelas longas conversas de fim-de-tarde jamais assumiu qualquer atitude paternalista e condescendente. Gostava de argumentar, fundamentar, rebater - tinha uma paixão pela polémica - mas tudo se desenvolvia num plano puramente académico. Nunca lhe ouvi um comentário jocoso, uma apreciação maliciosa, um arremesso verbal ou crítica a pessoas. Lembro, até, que exibia grande admiração por homens que se situavam nos antípodas das suas escolhas políticas.
Hoje entrei de manhã, pela primeira vez, na sede do PS. Lá fui cumprimentar a família e conversar com amigos e admiradores de Sottomayor Cardia. Iria onde quer que fosse, à sede do que quer que fosse, para o lembrar e tributar-lhe respeito, admiração e agradecimento pelo que me deu. Hoje só respeito as pessoas pelo que me mostram ser. Acabou o tempo em que as dividia, pois há amigos para lá das fronteiras ideológicas e inimigos deste lado em que me situo. Obrigado, Senhor Professor. Até sempre.

17 novembro 2006

Lição de sinologia contemporânea

Je Maintiendrai é um perito. Recomendo os dois textos a propósito do centenário de Puyi.

Nasceu há 100 anos o Filho do Céu



Passa este ano um século sobre o nascimento de Puyi, o último dos Qing a ocupar o trono do dragão. Aixinjueluo Puyi foi feito imperador, reduzido depois a prisioneiro na gaiola dourada da Cidade Proibida e dela expulso para viver em liberdade - já sem a trança manchú - como Mr. Henry nos paraísos artificiais das concessões ocidentais, entre tangos, fox trot, estúrdia e rocambolescas aventuras dignas de novelas de Phillips Oppenheim. Foi um estranho para os chineses, um enigma para os seus amigos ocidentais, uma esfinge para os manipuladores japoneses que dele fizeram títere de um Estado onde só reinava num palacete. Um homem frágil, de uma timidez que superava em acessos de violência doméstica.


Tudo o que dele sabemos é incerto: de Reginald Fleming Johnston (Twilight in the Forbidden City), a imagem de um esforçado e delicado adolescente em busca da mirífica libertação que Oxford poderia oferecer; do próprio, numa duvidosa "autobiografia" redigida por um letrado comunista durante a longa "reeducação", a de um homem simples "alienado" pelo poder absoluto que descobre a reconfortante paz anulando-se como jardineiro. Puyi talvez seja o epítome da tragédia chinesa do século XX, uma sucessão de infortúnios, desastres e lágrimas e um aceno final de felicidade, aquela aspiração que tanto marca a psicologia dos chineses. Passaram 100 anos, mas permanece o mistério. Poderia o Filho do Céu, o senhor do calendário, transformar-se num homem comum ?

16 novembro 2006

Santana Lopes


A vida é assim. Ou se gosta, ou não se gosta das pessoas. Santana Lopes - das figuras mais vilipendiadas, difamadas e perseguidas pelos rumores e pela raiva anónima dos valentões escondidos - acaba de fazer uma prestação notável no pequeno ecrã. Submetidos à bateria da opinião que se faz publicar, aos gracejos sobre as "santanetes", à moralíssima [catolicíssima e maçoníssima] decência que supostamente devem afivelar os "homens de Estado", com os tímpanos já amolecidos pela adjectivação costumeira, carregada de alusões à "idiotia", "aventureirismo", "fura-vidismo", "licenciosidade" e "impreparação" de Pedro Santana Lopes, dou comigo a pensar se não terá sido precisamente o contrário que levou à liquidação pública do homem.


Quando comparado com alguns homúnculos que nem para arrumadores de cinema prestariam, Santana Lopes - pela espontaneidade, fluídez de raciocínio, desembaraço argumentativo e simplicidade de comunicar - faz figura. Mais grave ainda. É das poucas pessoas públicas que fala de si, das suas hesitações, erros e fracassos com a facilidade de quem bebe um copo de água. Sei que os portugueses adoram doutorecos de pernas cambadas e abdómens ciclópicos, de falar pomposo e verbo rebuscado. Sei que aqui campeiam e sempre campearam jarras, jarrões e outros atavios caseiros dourados pelo elogio encomendado. Santana Lopes - que terá mil e um defeitos - tem umas características que me agradam: é educado, é simpático, nunca se lhe ouve uma baixeza e está bem consigo. Talvez o segredo esteja no coração, nas paixões, no gosto pelos divertimentos que a vida oferece a quem não tem medo de ser o que é. Os outros, as raposas velhacas, cheias de ódio e frustração, medíocres pomposos, talvez tenham toda a razão em ser como são. Pudera ! Nunca tiveram "santanetes".

"Acho que temos de seguir e ver os exemplos dos outros países da Europa e saber quais são aqueles que têm melhores chefes de Estado. Se são os presidente europeus actuais, alguns dos quais até poderiam estar presos, ou se são os reis actuais. Este é que deveria ser o nosso critério de escolha e não as fantasias que temos sobre o passado medieval, sobre o século XIX ou sobre os heróicos republicanos de 1910. Foram épocas que já passaram e o problema tem de ser posto nos dias de hoje e, portanto, Portugal teve 18 Governos em 30 anos de democracia."

D. Duarte de Bragança, entrevista ao Primeiro de Janeiro
Pedindo máxima atenção para o importante conteúdo da obra assinada por Mendo Castro Henriques, sugiro a todos amigos deste blogue que assistam ao lançamento, que terá lugar no próximo dia 22 de Novembro, pelas 19 horas na Sala Teatro Gymnasium, Centro Comercial Espaço Chiado, na Rua da Misericórdia, 12-20.

14 novembro 2006

Telepatias

Que piada. Penso o mesmo. Telepatias !

Gauchismo sem topete


Grandes senhores, estes, que conheci de barbalhões e melenas, vestidos a rigor como as mais miseráveis figuras de Gogol, chancas cambadas, unhas encavalitadas e tresandando a bedum. Hoje reencontrei furtuitamente uma dessas potestades. Nos anos das barricadas, dos saneamentos justos, das reuniões gerais e dos abaixo-assinados destacava-se pelo militantismo sagrado e pela cólera exterminadora. Era, dizia-se, um "marxista-leninista", acreditava no sol da terra, na revolução mundial iminente e na Geena que tragaria todos os parasitas, exploradores, possidentes e demais sabujos do capitalismo. Mas tinha uma certa piada, a mesma que encontramos num desses doidos de Deus - anacoretas, dervixes e pregadores incendiários - que pululam nas franjas da sociedade burguesa.


Hoje lá estava, de fato, gravata listada, sapato afivelado e tresandando a colónia, unhas de manicure e botões de punho em madrepérola. Folheava, com sábia lentidão, as páginas de um ensaio. Cumprimentei-o e fez um breve aceno de cabeça. Lá fora, o servo condutor, de pé, pressuroso para abrir a porta ao Senhor. Desvendado o mistério. O grande senhor cansou-se do sol da terra quando o sol se apagou. Mudou de farpelas, arranjou um cartão de plataformista, lá esteve nos Estados Gerais e entrou por um corredor esconço na imensa fila de espera que faz do PS (ou do PSD) das mais certeiras agências de emprego. O gauchismo sem topete é bem mais nauseante que o gogoliano mundo dos mendigos românticos.

13 novembro 2006

O metatexto da história: in Einer Nacht in Mai



Marika Rökk (1913-2004), a estrela da UFA, uma das minhas preferidas, teria sido sem dúvida um dos ídolos do musical mundial se o nazismo não se lhe tivesse atravessado na fulgurante vida de cantora, dançarina e actriz. Filha de mãe egípcia e com ascendência magiar, dir-se-ia não cumprir em nada o cânone ariano exigido pelos senhores da Alemanha. Contudo, o cinema de entretenimento alemão - quanto maiores os desastres militares, maior a necessidade de dispersão do espírito - catapultaram-na para a ribalta. Aqui a temos, plena de alegria, no palco de um Wunschkonzert algures em finais de 1942.In Einer Nacht in Mai (Numa Noite de Maio) empurrava os radio-ouvintes para a ilusão do amor, da paz e da felicidade de tempos passados. Bela e radiosa, Marika fazia esquecer o terror dos bombardeamentos, as cartas de pêsames, o racionamento e o desfecho de uma guerra antecipadamente perdida.

A última rainha


Miss Pearls fala-nos hoje de Versalhes e desse mundo maravilhoso de espírito, inteligência, irreverência, charme e liberdade que a Revolução matou. Maria Antonieta foi sempre um empecilho para os franceses. Antes da Revolução, foi invejada pela beleza, jovialidade e encantadora espontaneidade numa sociedade de corte onde os nobres se haviam transformado em ociosos poodles de estimação, perdulários, extravagantes, intriguistas e inúteis. Irmã de um grande monarca (José II, rei-filósofo, reformador do Estado e da Igreja, emancipador da servidão, exemplo de tolerância religiosa), terá tido influência decisiva nas repetidas tentativas do seu marido em abrir o regime aos tempos novos, muito embora a historiografia francesa teime em recusar-lhe tal protagonismo.


Depois da Revolução - os estrangeiros têm sempre a culpa de tudo ! - cobriram-na de insultos, dos mais obscenos e soezes - adulterina, incestuosa - a outros tão improváveis e reprováveis como o de espia, traidora e anti-francesa. A vaga de lama e sangue que se abateu sobre a França e sobre a Europa destruíu o mundo em que Maria Antonieta viveu. A Revolução, mãe de todos os totalitarismos, pariu toda a sorte de monstros e excessos, pelo que a história dos últimos 200 anos tem sido a desse estendal de erros, mentiras, fanatismos e desastes cometidos em nome da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade. Perante o ocaso das ideologias saídas da Revolução, Maria Antonieta retoma o papel de mulher e rainha que a inveja e a loucura quiseram obliterar.

Da universalidade do patriotismo



Patriotismo quer dizer: somos livres
Hino da Geórgia

12 novembro 2006

Dos partidos e dos anti-partidos

As velhas leis de Michels do predomínio da máquina burocrática sobre as putativas originalidades dos militantes não tem grande valor entre nós, pois que para os partidos vão aqueles que nunca tiveram originalidade alguma. O mal de todo o sistema - da extrema-direita à extrema-esquerda - é que os partidos, a vida política e toda as canseiras jantareiras, listeiras e eleiçoeiras parecem só atrair betas. A vida interna dos partidos é de uma confrangedora mediocridade, supondo mal quem pense neles poder contribuir para a vida pública. Há, contudo, partidos que oferecem ordenados, sinecuras e expectativas para os medíocres, e partidos que nada podem acenar senão delirantes messianismos. Olhando para a história do país, de 1820 à actualidade, aqueles clubes não mais representam que fulanos em busca de notoriedade, mais fulanos agarrados aos fulanos em busca de notoriedade, numa cascata de ambições hierarquizadas que vão da chefia do governo à chefia da Junta de Freguesia.
Diz-se que os partidos exprimem famílias ideológicas, mundivisões, concepções distintas do homem, da sociedade e do Estado. Tudo isso parece verdade, mas abeirando-nos da sua despida evidência, são, sem tirar nem por, o retrato de uma sociedade onde nem as ideias, nem o conhecimento e a informação, tão pouco o mérito de cada um contam. Do Bloco de Esquerda ao PP, um árido, pedregoso e poeirento terreiro interdita ao mais ingénuo o atrevimento de pensar que ali há mais do que se vê. Os partidos portugueses são, sem qualquer surpresa, a continuação das panelinhas por outra via, pelo que são emanação genuína de um país onde não há cultura cívica, serviço do Estado, bem-comum nem reconhecimento do mérito. Na Inglaterra, os partidos nasceram da sociedade. Em Portugal, nasceram da falta da sociedade civil; o mesmo é dizer que os partidos cumprem exactamente aquilo que deles esperam os portugueses: favores, proteccionismo, insenções, nepotismo e manutenção de um status quo que ninguém que ver mudado.
Incapazes de um atrevimento, os nossos caros concidadãos vivem na esperança de um convite para ingressar na cascata, da chefia do governo à chefia da Junta de Freguesia. Se não entraram ou não conseguiram entrar na geringonça, pedem o tal "homem providencial ". O coração dos portugueses inclina-se sempre para os domadores, os feitores e os capatazes, pois neles revê uma história longa de irresponsabilidade individual - é tão bom não responder por nada - e alguém que carregue o fardo de governar um país cuja população nada consegue lobrigar para além da porta da casa, do emprego do filho e do terreno que tem lá para a terra. Ora, para o comum dos portugueses, o Estado são "eles", o PS são "aqueles", o PC "aquel'outros" e o PSD "aqueles que estiveram e querem voltar". Daí que para o taxista, a senhora da mercearia, o barbeiro, o empregadinho do escritório - incapazes de entrar na liça pelo tal lugar - a tirania do "homem providencial" exerça um tão grande fascínio. Com uma condição: o "homem providencial" não os pode obrigar a mudar. As ditaduras portuguesas têm, assim, essa extraordinária capacidade de serem tão imobilistas, tão conservantistas e tão populares como os sistemas liberais e democráticos.
Ainda se os partidos só servissem para colar cartazes, distribuir volantes, organizar jantares e caravanas, conquanto abrissem as suas listas àqueles que não têm vagar para jogos recreativos, um vislumbre de esperança ainda poderia trazer a inteligência para as bancadas parlamentares. Ouço Sócrates. Não sendo um génio, nem um grande homem, assume proporções agigantadas quando comparado com os restantes líderes partidários. Diz o que pensa, impõe-se, domestica e aponta o caminho: a porta para os que ousam contestar, a partilha da cascata para os demais que entraram a tempo na geringonça. Sócrates é o partido - "eles"- mas consegue também ser o anti-partido. Eu, que nunca fui do partido, dou comigo a reconhecer-lhe qualidades como anti-partido.
Mas eu queria uma democracia: responsabilidade individual, livre escolha, crítica e contestação propositiva, serviço do Estado, bem-comum, unidade em torno dos grandes desafios. É melhor não sonhar: aqui não a verei jamais !